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Sexta Selvagem: Ameba-Gigante

por Piter Kehoma Boll

O adjetivo “gigante” pode ser bem relativo. Em relação a microrganismos, mesmo algo com poucos milímetros pode ser considerado um gigante, e esse é o caso com a ameba-gigante Chaos carolinense (às vezes erroneamente grafado como Chaos carolinensis).

chaos_carolinense

Uma bagunça caótica como toda boa ameba. Foto de Tsukii Yuuji.

Medindo até 5 mm de comprimento, a ameba-gigante é um organismo de água doce que é facilmente visto a olho nu e, visto que também é facilmente cultivado no laboratório, se tornou amplamente usado em estudos de laboratório.

Assim como acontece com as amebas em geral, a ameba-gigante tem uma célula irregular com vários pseudópodes que podem se contrair e expandir. A célula tem centenas de núcleos, como é comum com espécies do gênero Chaos, sendo esta a principal diferença entre elas e o gênero Amoeba, que é proximamente relacionado.

A dieta da ameba-gigante é variável e inclui bactérias, algas, protozoários e até alguns animais pequenos. No laboratório, elas geralmente são alimentadas com ciliados do gênero Paramecium.

Chaos (Pelomyxa) carolinensisChaos with paramecium prey

Um espécie de Chaos carolinense se alimentando de vários indivíduos de Paramecium. Foto de Carolina Biological Supply Company.*

A ameba-gigante não seria um belo ser unicelular de estimação?

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Referências:

Tan, O. L. L.; Almsherqi, Z. A. M.; Deng, Y. (2005) A simple mass culture of the amoeba Chaos carolinense: revisit. Protistology, 4(2): 185–190.

Wikipedia. Chaos (genus). Disponível e <https://en.wikipedia.org/wiki/Chaos_(genus) >. Acesso em 20 de junho de 2017.

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*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial Sem Derivações 2.0 Genérica.

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Sexta Selvagem: Limo-de-muitas-cabeças

por Piter Kehoma Boll

O que você pensaria se eu dissesse que um limo pode pensar e até mesmo resolver pequenos quebra-cabeças? Você provavelmente acharia que é uma brincadeira de 1º de abril, mas é verdade!

Nosso mais novo amigo é de um reino ainda não explorado em nossas sextas, o reino Amoebozoa. Seu nome é Physarum polycephalum, às vezes chamado de limo-de-muitas-cabeças. É um bolor-limoso que vive em folhas e troncos em decomposição em florestas pelo mundo todo.

Se você entrar em uma floresta durante a estação chuvosa, você pode encontrar alguns crescendo em matéria em decomposição. Eles se parecem com uma rede de veias limosas amarelas e se movem muito lentamente, procurando por comida, a qual consiste de microrganismos como bactérias ou mesmo esporos de fungos.

É com isso que o limo-de-muitas-cabeças se parece quando na forma de plasmódio. Créditos ao usuário do flickr "frankenstoen".

É com isso que o limo-de-muitas-cabeças se parece quando na forma de plasmódio. Créditos ao usuário do flickr “frankenstoen”.

Essa fase em rede é chamada de plasmódio, o estágio vegetativo do bolor, durante o qual ele está ativo e cresce, movendo-se por aí em busca de alimento. O plasmódio consiste de um grande sincício, isto é, um grupo de células fundidas que se tornam algo como uma grande célula com vários núcleos.

Se o ambiente se torna seco demais, o plasmódio vai dessecar e se tornar um esclerócio, uma fase dormente endurecida. Se o alimento se esgota, ele se desenvolverá para a fase reprodutiva, onde para de se mover e produz esporos, os quais serão lançados no ambiente. Quando as condiçoes se tornam favoráveis, os esporos germinarão e liberarão várias células que se fundirão para se tornarem um plasmódio novo.

O limo-de-muitas-cabeças é facilmente mantido em laboratório, de forma que se tornou um organismo modelo. Vários estudos recentes demonstraram que ele é uma criatura formidável. Ele exibe algumas respostas comportamentais que indicam uma inteligência similar à de insetos sociais. Ele parece ter algum tipo de memória externa, permitindo que evite locais anteriormente visitados, e é mesmo capaz de resolver alguns quebra-cabeças básicos, como o problema do caminho mais curto, e antecipar eventos periódicos. Além disso, ele pode ser capaz de detectar e diferenciar cores.

Já estão havendo até mesmo tentativas de encontrar uma forma de usá-lo como substrato para fazer biocomputadores! O limo-de-muitas-cabeças é certamente uma espécie impressionante!

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Referências e leituras adicionais:

Adamatzky, A. 2013. Towards slime mould colour sensor: Recognition of colours by Physarum polycephalum. Organic Electronics, 14(12): 3355-3361. DOI: 10.1016/j.orgel.2013.10.004

Becchetti, L.; Bonifaci, V.; Dirnberger, M.; Karrenbauer, A.; Mehlkorn, K. 2013. Physarum can compute shortest paths: convergence proofs and complexity bounds. Automata, Languages and Programming, 7996: 472-483

Caleffi, M.; Akyldiz, I. F.; Paura, L. 2015. On the solution of the Steiner Tree NP-Hard problem via Physarum BioNetwork. IEEE/ACM Transactions on Networking 23(4): 1092-1106. DOI: 10.1109/TNET.2014.2317911

Nakagaki, T.; Yamada, H.; Tóth, A. 2000. Intelligence: Maze-solving by an ameboid organism. Nature, 407: 470. DOI: 10.1038/35035159

Saigusa, T.; Tero, A.; Nakagaki, T.; Kuramoto, Y. 2008. Amoebae anticipate periodic events. Physical Review Letters, 100: 018101. DOI: 10.1103/PhysRevLett.100.018101

Wikipedia. Physarum polycephalum. Disponível em: < https://en.wikipedia.org/wiki/Physarum_polycephalum >. Accesso em 30 de março de 2016.

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