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Sexta Selvagem: Arqueia-Quadrada-de-Walsby

por Piter Kehoma Boll

Depois de mais de cem Sextas Selvagens, há um grupo ainda sem representantes aqui: as arqueias. Mas isso vai mudar hoje com a apresentação de nossa primeira arqueia, e ela é sem dúvida uma espécie muito interessante.

Cientificamente conhecida como Haloquadratum walsbyi, ela é às vezes chamada de arqueia-quadrada-de-Walsby e, como o nome sugere, tem um formato quadrado incomum.

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Um desenho mostrando um conjunto de quatro células da arqueia-quadrada-de-Walsby.

Essa interessante arqueia foi descoberta em 1980 por Anthony Edward Walsby em lagos salinos da Península do Sinai. Posteriormente ela foi encontrada em vários outros lagos com altas concentrações de sal pelo mundo e foi cultivada em laboratório pela primeira vez em 2004, mas só em 2007 foi formalmente descrita e recebeu sua nomenclatura binomial.

As células quadradas da arqueia-quadrada-de-Walsby são muito finas, com cerca de 0.2 µm de espessura, e medem cerca de 2 µm de cada lado. Elas crescem bem lentamente, formando uma fina camada sobre uma superfície, tendo a maior camada já registrada medido 40 × 40 µm. Se as condições de crescimento não são ideias, as células deterioram em uma forma achatada irregularmente quadrada ou sem forma definida nenhuma.

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Fotografias de células de Haloquadratum walsbyi mostrando os vacúolos em forma de cristal. Imagem extraída de Burns et al. (2007).

Dentro das células, a arqueia-quadrada-de-Walsby possui pequenas vesículas de gás que se parecem com pequenos cristais. Elas ajudam a célula a permanecer na superfície da água muito salgada em que vivem. De forma a sobreviver, essa arqueia precisa de água com concentrações de sal de pelo menos 14%, mas as condições se tornam ideias somente acima de 23%.

Apesar de conhecermos coisas interessantes sobre essa espécie, ainda há muito para aprender. Quem sabe quais mistérios essa criaturinha quadrada está escondendo de nós?

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Referências:

Bolhuis, H.; Poele, E. M. t.; Rodriguez-Valera, F. (2004) Isolation and cultivation of Walsby’s square archaeonEnvironmental Microbiology 6(12): 1287–1291.

Burns, D. G.; Janssen, P. H.; Itoh, T.; Kamekura, M.; Li, Z.; Jensen, G.; Rodríguez-Valera, F.; Bolhuis, H.; Dyall-Smith, M. L. (2007) Haloquadratum walsbyi gen. nov., sp. nov., the square haloarchaeon of Walsby, isolated from saltern crystallizers in Australia and SpainInternational Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology57: 387–392.

 

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Arquivado em Arqueias, Curiosidades, Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Conan a bactéria

por Piter Kehoma Boll

A maioria das pessoas concordaria que 2016 foi um ano difícil. Então vamos tentar fazer 2017 melhor começando-o com uma espécie durona na Sexta Selvagem, na verdade uma das mais duronas de todas: Conan a bactéria, ou Deinococcus radiodurans.

Um parente da Taq, Conan a bactéria é uma bactéria consideravelmente grande, medindo 1.5 a 3.5 µm de diâmetro e geralmente formando grupos de quatro organismos presos entre si, uma formação conhecida como tétrade. Ela é uma bactéria extremófila, capaz de resistir a ambientes bem inóspitos. Na verdade, Conan a bactéria é um dos organismos mais resistentes à radiação conhecidos até o momento e também pode resistir a extremos de frio, desidratação, vácuo e ácido. Seu nome popular foi baseado no personagem Conan o bárbaro.

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Uma tétrade de Deinococcus radiodurans.

Conan a bactéria foi descoberta em 1956 durante um experimento que tentou esterilizar comida enlatada usando altas doses de radiação. Uma bactéria sobreviveu às altas doses de radiação gama e foi identificada como uma espécie nova.

Mais tarde, um grupo de cientistas sugeriu que o alto grau de radiorresistência era uma adaptação ao ambiente marciano, de forma que essa poderia ser uma bactéria alienígena! Mas isso na verdade é besteira. Conan a bactéria não tem nada significativamente diferente de outras formas de vida na Terra, mas como tal resistência à radiação evoluiu? A radiação de fundo na Terra é muito fraca, de forma que isso não poderia ter surgido por seleção natural.

Os resultados de alguns experimentos publicados em 1996 revelaram que linhagens de D. radiodurans que são suscetíveis à dessecação também são suscetíveis à radiação. Assim, a explicação mais provável é que a alta resistência à radiação é simplesmente um efeito colateral da resistência à dessecação, uma condição muito mais comum no ambiente da bactéria.

O mecanismo que permite Conan a bactéria suportar a radiação é muito complexo, mas inclui a habilidade de reconstruir sequências de DNA de fragmentos, o que é auxiliado pelo fato de cada célula conter quatro cópias do cromossomo bacteriano, de forma que uma sequência parcialmente danificada pode servir de modelo para reparar outra sequência parcialmente danificada.

Nossos camaradinhas minúsculos são sempre cheios de surpresas incríveis!

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Referências:

Mattimore, V., & Battista, J. (1996). Radioresistance of Deinococcus radiodurans: functions necessary to survive ionizing radiation are also necessary to survive prolonged desiccation. Journal of Bacteriology, 178 (3), 633-637 DOI: 10.1128/jb.178.3.633-637.1996

Wikipedia. Deinococcus radiodurans. Available at <https://en.wikipedia.org/wiki/Deinococcus_radiodurans&gt;. Access on January 2, 2017.

Zahradka, K., Slade, D., Bailone, A., Sommer, S., Averbeck, D., Petranovic, M., Lindner, A., & Radman, M. (2006). Reassembly of shattered chromosomes in Deinococcus radiodurans Nature DOI: 10.1038/nature05160

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Bactérias fodonas estão se dando bem na sua máquina de lavar

por Piter Kehoma Boll

Você provavelmente ouviu falar de bactérias (e arqueias) que vivem em ambientes extremos na Terra, como fontes termais ou algos de salinidade elevada, onde a maior parte das formas de vida morreria horrivelmente em poucos segundos. Nós geralmente pensamos nestes lugares  como existindo em alguma localidade remota, no fundo do mar ou em áreas protegidas longe da civilização.

Mas graças à tecnologia humana este tipo de ambiente está agora disponível em nossas próprias casas, em nossos lava-louças, máquinas de lavar e aquecedores de água.

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Buchnera, um gênero de bactérias encontrado no intestino de pulgões (vistas como vários círculos manchados dentro da célula intestinal aqui) foi encontrado em ambientes de temperaturas extremas em residências. Foto de J. White e N. Moran.*

Em um estudo recente publicado na PeerJ, um grupo de cientistas examinou a comunidade de microrganismos vivendo em vários ambientes caseiros e descobriu que muitas espécies proliferam em ambientes com altas temperaturas, pH extremo e concentrações extremas de certos compostos químicos.

Alguns achados foram bem incomuns… Por exemplo, uma bactéria encontrada em lugares de temperaturas extremas foi Buchnera, um gênero geralmente associado com o intestino de pulgões.

Você pode ler o artigo completo aqui.

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Referência:

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*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 2.5 Genérica.

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