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Sexta Selvagem: Verme-Cordão-de-Bota

por Piter Kehoma Boll

Há muito tempo eu apresentei alguns dos extremos do mundo animal, incluindo o maior, o mais fofo e o mais pernudo. Agora é hora de apresentar outro extremo: o mais longo. E este animal é tão longo que parece impossível. Seu nome: Lineus longissimus, popularmente conhecido como verme-cordão-de-bota. Seu comprimento: até 55 metros.

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Um verme-cordão-de-bota emaranhado. Foto de Bruno C. Vellutini.*

O verme-cordão-de-bota é um membro do filo Nemertea, comumente conhecidos como nemertíneos ou, em inglês, ribbon worms, algo como vermes-fita-de-laço. Encontrado ao longo da costa do Oceano Atlântico na Europa, o verme-cordão-de-bota passa a maior parte do tempo contraído, formando o que parece um amontoado de fios de lã emaranhados que não tem mais do que 30 cm de um lado ao outro. Apesar de haver registros de vermes medindo mais de 50 m, a maioria é muito menor, com 30 m já sendo um tamanho bem grande. Sua largura é de cerca de 0.5 cm, de forma que ele é quase literalmente um cordão marrom comprido.

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Lineus longissimus fotografado na Noruega. Foto de Guido Schmitz.**

Como todos os nemertíneos, o verme-cordão-de-bota é um predador e caça sua presa entre as rochas de praias arenosas, atordoando-as com sua longa probóscide venenosa e  então engolindo-os inteiros. Macio e frágil, o verme-cordão-de-bota não tem como se proteger de predadores usando uma defesa física, mas é conhecido por ter uma série de toxinas diferentes na epiderme, incluindo algumas similares ao veneno mortal do baiacu, a tetrodotoxina (TTX), que é produzida por bactérias vivendo no muco que envolve o corpo do verme.

Agora, antes de partir, dê uma olhada nesse vídeo de um verme-cordão-de-bota engolindo um poliqueto:

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Referências:

Cantell, C.-E. (1976) Complementary description of the morphology of Lineus longissimus (Gunnerus, 1770) with some remarks on the cutis layer in heteronemertines. Zoologica Scripta 5:117–120. https://dx.doi.org/10.1111/j.1463-6409.1976.tb00688.x

Carroll, S.; McEvoy, E. G.; Gibson, R. (2003) The production of tetrodotoxin-like substances by nemertean worms in conjunction with bacteria. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology 288: 51–63. https://dx.doi.org/10.1016/S0022-0981(02)00595-6

Gittenberger, A.; Schipper, C. (2008) Long live Linnaeus, Lineus longissimus (Gunnerus, 1770) (Vermes: Nemertea: Anopla: Heteronemertea: Lineidae), the longest animal worldwide and its relatives occurring in The Netherlands. Zoologische Mededelingen. Leiden 82: 59–63.

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Sexta Selvagem: Nematódeo-da-lama-de-intestino-marrom

por Piter Kehoma Boll

Se você estiver com a cara enterrada na lama no fundo de um lago europeu, pode acabar encontrando alguns destes pequeninos nematódeos conhecidos como Monhystera stagnalis. Como de costume, não há nome comum para a espécie, mas eu decidi chamá-la de nematódeo-da-lama-de-intestino-marrom. Por quê? Porque ele vive na lama e tem um intestino marrom-avermelhado.

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Um indivíduo de Monhystera stagnalis. Foto de Marco Spiller.*

O nematódeo-da-lama-de-intestino-marrom está amplamente distribuído pela Europa. Ele habita os sentimentos finos no fundo de corpos de água-doce, tanto estagnados quanto correntes, onde se alimenta de matéria orgânica depositada neste meio, tendo um gosto especial por bactérias. Ele é capaz de sobreviver em poluição orgânica moderada, mas é sensível a baixos níveis de oxigênio.

Ele é uma das espécies de nematódeo mais comuns em seu ambiente e é muito pequeno, medindo cerca de 1 mm de comprimento, com fêmeas sendo ligeiramente mais longas que machos. Eles são encontrados em todas as profundidades do sedimento e possuem uma preferência por ficarem próximos da superfície durante o inverno e mais fundo na lama durante o verão.

As fêmeas são ovovivíparas, o que significa que elas mantêm os ovos dentro de seus corpos até eclodirem, de forma que ficam grávidas de ovos. Apesar de estarmos acostumados a pensar em invertebrados produzindo centenas ou milhares de ovos de uma vez, esse não é o caso do nematódeo-da-lama-de-intestino-marrom. As fêmeas geralmente estão grávidas de um único ovo, às vezes dois ou três. Eles são vermes modestos.

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Referências:

Pehofer, H. (1989). Spatial Distribution of the Nematode Fauna and Production of Three Nematodes (Tobrilus gracilis, Monhystera stagnalis, Ethmolaimus pratensis) in the Profundal of Piburger See (Austria, 913 m a.s.l) Internationale Revue der gesamten Hydrobiologie und Hydrographie, 74 (2), 135-168 DOI: 10.1002/iroh.19890740203

Traunspurger, W. (1996). Autecology of Monhystera paludicola De Man, 1880 – Seasonal, Bathymetric and Vertical Distribution of a Free-living Nematode in an Oligotrophic Lake Internationale Revue der gesamten Hydrobiologie und Hydrographie, 81 (2), 199-211 DOI: 10.1002/iroh.19960810205

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A história da Sistemática: Animais no Systema Naturae, 1758 (Parte 4)

por Piter Kehoma Boll

Esta é a quarta e última parte desta série de postagens. Veja aqui parte 1, parte 2 e parte 3.

Apresentarei aqui a sexta e última classe de animais: Vermes. Ela inclui basicamente qualquer coisa que não seja nem um vertebrado, nem um artrópode.

6. Vermes

Coração com um ventrículo e uma aurícula; pus frio.
Espiráculos ausentes?
Mandíbulas múltiplas, várias.
Pênis diversos em hermafroditas, andróginos.
Sentidos: tentáculos, cabeça ausente (raramente com olhos, sem orelhas e narinas).
Cobertura: às vezes calcária ou ausente, se não espinhos.
Suporte: nem pés, nem nadadeiras.

Vermes eram classificados de acordo com a forma do corpo em 5 ordens: Intestina, Mollusca, Testacea, Lithophyta e Zoophyta.

6.1 Intestina (internos ou intestinos), simples, nus e sem apêndices: Gordius (vermes-crina-de-cavalo), Furia (o verme lendário), Lumbricus (minhocas), Ascaris (lombrigas), Fasciola (fascíolas), Hirudo (sanguessugas), Myxine (feiticeiras) e Teredo (turus).

A heterogênea ordem Intestina de Linnaeus incluía (da esquerda para a direita, de cima para baixo) o verme-crista-de-cavalo-d'água (

A heterogênea ordem Intestina de Linnaeus incluía (da esquerda para a direita, de cima para baixo) o verme-crista-de-cavalo-d’água (Gordius aquaticus), a lendária fúria do inferno (Furia infernalis), a minhoca-comum (Lumbricus terrestris), a lombriga-humana (Ascaris lumbricoides), a fascíola-de-ovelha (Fasciola hepatica), a sanguessuga-medicinal-europeia (Hirudo medicinalis), a feiticeira-do-Atlântico (Myxine glutinosa), e o turu (Teredo navalis). Créditos a Jiři Duchoň (verme-crista-de-cavalo), Michael Linnenbach (minhoca), usuário do Wikimedia GlebK (sanguessuga), Arnstein Ronning (feiticeira), Poi Australia [poi-australia.com.au] (turu).

6.2 Mollusca (moles), simples, nus e com apêndices: Limax (lesmas terrestres), Doris (lesmas-marinhas-dorídeas), Tethys (lesmas-marinhas-tetidídeas), Nereis (poliquetos), Aphrodita (camundongos-do-mar), Lernaea (vermes-âncora), Priapus (vermes priapulídeos e anêmonas), Scyllaea (lesmas-marinhas-cileídeas), Holothuria (salpas e caravelas), Triton (possivelmente algum tipo de lesma marinha), Sepia (polvos,  lulas e sibas), Medusa (águas-vivas), Asterias (estrelas-do-mar), Echinus (ouriços-do-mar e bolachas-da-praia).

 

Entre os animais que Linnaeus pôs em Mollusca estão (da esquerda para a direita, de cima para baixo) a lesma-leopardo (

Entre os animais que Linnaeus pôs em Mollusca estão (da esquerda para a direita, de cima para baixo) a lesma-leopardo (Limax maximus), o dorídeo-de-verrugas (Doris verrucosa), o tetidídeo-de-franja (Tethys leporina, agora Tethys fimbria), o verme-trapo-esbelto (Nereis pelagica), o camundongo-do-mar (Aphrodita aculeata), o verme-âncora-comum (Lernaea cyprinacea), o verme-cacto (Priapus humanus, agora Priapulus caudatus), o nudibrânquio-do-sargasso (Scyllaea pelagica), a caravela-portuguesa (Holothuria physalis, agora Physalia physalis), a siba-comum (Sepia officinalis), a medusa-da-lua (Medusa aurita, agora Aurelia aurita), a estrela-do-mar-comum (Asterias rubens) e o ouriço-do-mar-comestível-europeu (Echinus esculentus). Créditos a Marina Jacob (lesma), usuário do Wikimedia Seascapeza (dorídeo), Pino Bucca (tetidídeo), Alexander Semenov (verme-trapo), Michael Maggs (camundongo-do-mar), glsc.usgs.gov (verme-âncora), Shunkina Ksenia (verme-cacto), Universidad de Olviedo (nudibrânquio-do-sargasso), Hans Hillewaert (siba, medusa e estrela-do-mar) e Bengt Littorin (ouriço-do-mar).

6.3 Testacea (cobertos com uma concha), simples, cobertos por um abrigo calcário: Chiton (quítons), Lepas (cracas e percebes), Pholas (folas e asas-de-anjo), Myes (amêijoas-moles), Solen (amêijoas-navalha), Tellina (telinas), Cardium (berbigões), Donax (conquilhas), Venus (amêijoas-vênus), Spondylus (ostras-de-espinhos), Chama (caixas-de-joias), Arca (amêijoas-arcas), Ostrea (ostras-verdadeiras), Anomia (ostras-de-sela), Mytilus (mexilhões), Pinna (conchas-de-pena), Argonauta (argonautas), Nautilus (náutilos), Conus (conos), Cypraea (búzios), Bulla (bulas), Voluta (volutas), Buccinum (búzios-de-ponta), Strombus (caramujos-marinhos), Murex (múreces), Trochus (piãozinhos), Turbo (turbantes), Helix (caracóis), Nerita (neritas), Haliotis (abalones), Patella (lapas e braquiópodes), Dentalium (dentálios) e Serpula (serpulídeos e caramujos-vermes).

A diversa ordem Testacea de Linnaeus incluía (da esquerda para a direita, de cima para baixo): o quíton-verde-ocidental (

A diversa ordem Testacea de Linnaeus incluía (da esquerda para a direita, de cima para baixo): o quíton-verde-ocidental (Chiton tuberculatus), o percebe-pescoço-de-ganso (Lepas anatifera), o fola-comum (Pholas dactylus), o corta-areia (Myes arenaria, agora Mya arenaria), a navalha-bainha (Solen vagina), a telina-da-alvorada (Tellina radiata), o berbigão-de-costela (Cardium costatum), a conquilha-abrupta (Donax trunculus), a vênus-de-verrugas (Venus verrucosa), a vieira-de-espinhos (Spondylus gaederopus), a caixa-de-joias-lázaro (Chama lazarus), a amêijoa-arca-de-Noé (Arca noae), a ostra-plana-europeia (Ostrea edulis), a concha-do-jingado-europeia (Anomia ephippium), o mexilhão-azul (Mytilus edulis), a concha-de-pena-rude (Pinna rudis), o argonauta-maior (Argonauta argo), o náutilo-de-câmaras (Nautilus pompilius), o cono-marmorado (Conus marmoreus), o búzio-tigre (Cypraea tigris), a bula-do-Pacífico (Bulla ampulla), a voluta-música (Voluta musica), o búzio-de-ponta-comum (Buccinum undatum), o caramujo-lutador-ocidental (Strombus pugilis), o múrex-estrepe (Murex tribulus), o piãozinho-manchado (Trochus maculatus), o turbante-tapete (Turbo petholatus), o caracol-romano (Helix pomatia), a nerita-dente-sangrento (Nerita peloronta), o abalone-orelha-de-Midas (Haliotis midae), a lapa-do-Mediterrâneo (Patella caerulea), o dentálio-presa-de-elefante (Dentalium elefantinum) e o caramujo-verme-da-areia (Serpula arenaria, agora Thylacodes arenarius). Créditos a James St. John (quíton), Ruben Vera (percebe), Valter Jacinto (fola), Oscar Bos [ecomare.nl] (corta-areia), Guido & Filippe Poppe [conchology.be] (navalha), femorale.com (telina, berbigão, vieira, amêijoa-arca, concha-do-jingado, bula, caramujo-lutador, nerita, abalone, dentálio), Hans Hillewaert (conquilha, vênus, náutilo, búzio-de-ponta), Richard Parker (caixa-de-joias, cono-marmorado), Jan Johan ter Poorten (ostra), usuário do Wikimedia Hectonichus (concha-de-pena, voluta), Bernd Hoffmann (argonauta), Samuel Chow (búzio), Frédéric Ducarme (turbante), H. Krisp (caracol-romano), usuário do wikimedia Esculapio (lapa), Matthieu Sontag (caramujo-verme).

6.4 Lithophyta (plantas-pedra), compostos, crescendo em uma base sólida: Tubipora (corais-órgãos), Millepora (corais-de-fogo), Madrepora (corais-de-predra e algas Acetabularia).

Três espécies listadas por Linnaeus em Lithophyta (da esquerda para a direita): coral-órgão (T

Três espécies listadas por Linnaeus em Lithophyta (da esquerda para a direita): coral-órgão (Tubipora musica), gengibre-do-mar (Millepora alcicornis), coral-ziguezague (Madrepora oculata). Créditos a Aaron Gustafson (coral-órgão), Nick Hobgood (gengibre-do-mar), NOA,, U. S.’ National Oceanic and Atmospheric Administration (coral-ziguezague).

6.5 Zoophyta (plantas-animais), crescendo como plantas, com pétalas animadas: Isis (corais-bambus), Gorgonia (leques-do-mar), Alcyonium (corais-moles), Tubularia (corais-canos), Eschara (briozoários e algas-vermelhas), Corallina (algas coralinas), Sertularia (briozoários e hidrozoários), Hydra (hidras, ciliados e rotíferos), Pennatula (penas-do-mar), Taenia (solitárias), Volvox (algas volvox e amebas).

Algumas espécies na ordem Zoophyta de Linnaeus era (da esquerda para a direita, de cima para baixo): o leque-do-mar-de-Vênus (

Algumas espécies na ordem Zoophyta de Linnaeus era (da esquerda para a direita, de cima para baixo): o leque-do-mar-de-Vênus (Gorgonia flabellum), os dedos-de-morto (Alcyonium digitatum), o hidroide-cano-de-aveia (Tubullaria indivisa), o briozoário-folhoso (Eschara foliacea, agora Flustra foliacea), a alga-coral (Corallina officinalis), o rabo-de-esquilo (Sertularia argentea), a vorticela-de-sulco (Hydra convallaria, agora Vorticella convalaria), a pena-do-mar-fosforescente  (Pennatula phosphorea), a solitária-do-porco (Taenia solium), e o volvox-globo. Créditos a Greg Grimes (leque-do-mar), Bengt Littorin (dedos-de-morto), Bernard Picton (hidroide-cano, pena-do-mar), biopix.com (briozoário), Lovell e Libby Langstroth (alga-coral), National Museums Northern Ireland (cauda-de-esquilo), D. J. Patterson (vorticella e volvox), Public Health Image Library (solitária).

Linnaeus pode ter cometido alguns erros classificando mamíferos, aves, anfíbios, peixes e insetos, mas nada se compara à bagunça que era sua classe Vermes. Ela incluía animais de muitos filos diferentes e até mesmo algas verdes e vermelhas! Às vezes o mesmo gênero incluía tanto animais quanto plantas.

E isso conclui nossa apresentação dos animais na edição de 1758 do Systema Naturae de Linnaeus.

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Referências:

Linnaeus. 1758. Systema Naturae per Regna Tria Naturae…

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Furia infernalis, um parasita lendário

por Piter Kehoma Boll

O ano era 1728. O jovem naturalista Carl Linnaeus estava explorando alguns banhados nas vizinhanças de Lund, Suécia, em busca de espécimes botânicos. Subitamente ele foi ferido por algo que foi sentido como um dardo súbito atingindo a pele. Linnaeus deduziu que a causa era um pequeno e fino verme que se enterrou fundo e rapidamente na carne, de forma que foi impossível tentar extraí-lo. O ferimento causou uma inflamação tão severa que sua vida ficou em perigo. Ele se recuperou, é claro, mas ficou tão profundamente impressionado pela experiência que deu um nome ao suposto animal, Furia infernalis, a fúria do inferno, e a introduziu em seu famoso Systema Naturae.

Vários naturalistas continuaram a espalhar a ideia da existência de tal animal e vários trabalhos tratando da criatura foram publicados por cientistas muito respeitados. O animal foi descrito como sendo um verme acinzentado da espessura de um fio de cabelo com extremidades negras que habita locais de banhado e se atira como um dardo sobre as partes expostas do corpo de humanos e outros animais que estejam em seu alcance. Os tormentos causados pelo verme depois de se enterrar rapidamente na carne eram tão excruciantes que levavam a vítima a um estado de loucura e fúria selvagem.

A Furia infernalis supostamente se parecia com algo assim.

A Furia infernalis supostamente se parecia com algo assim.

A ideia da existência de tal criatura logo ficou estabelecida na mente das pessoas. O animal supostamente vivia apenas na Escandinávia oriental e talvez na Rússia e nos países bálticos, mas não acontecia mais ao sul e nem na Noruega. Até mesmo alguns tratamentos médicos para curar a infecção foram publicados.

Um Linnaeus mais velho, mais sábio e com mais experiência, muitos anos depois, alterou sua opinião sobre a criatura. Ele admitiu que possivelmente foi levado a um erro em relação à natureza ou mesmo à existência da criatura e a considerou ser inteiramente fictícia. No entanto já era tarde demais. Novos casos de ataques continuaram a aparecer e o verme parecia ser um perigo especial para renas. Relatos sobre manadas inteiras de renas sendo mortas pela criatura eram tão frequentes que a compra de animais da suécia foi totalmente proibida durante os períodos em que a doença era registrada frequentemente.

Apesar de todo o alarme, ninguém nunca foi capaz de apresentar um espécime da criatura para validar sua existência. Em relação ao problema com as renas, descobriu-se posteriormente que era causado por larvas de cestódeos no cérebro, isto é, elas estavam afetadas por neurocisticercose.

Hoje em dia a Furia infernalis é considera um animal inteiramente fictício que pertence ao mundo da criptozoologia. Mas o que será que ferroou Linnaeus naquele banhado há três séculos?

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Referências:

Linnaeus, C. 1758. Systema Naturae per Regna Tria Naturae…

Brooke, A. C. 1827. On the Furia infernalis. Edinburgh New Philosophical Journal3: 39-43.

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Sexta Selvagem: Verme-do-coração

por Piter Kehoma Boll

A vida não é composta somente por criaturas bonitas e fofas. Parasitas foram uma boa parte dela. De fato, é provável que haja mais espécies parasitas do que não-parasitas.

O verme-do-coração (Dirofilaria immitis) é uma dessas espécies não tão fofas. Uma espécie de nematódeo, ele infecta pequenos mamíferos, especialmente cães, e é disseminado por mosquitos.

O nome verme-do-coração vem do fato de que esse verme vive no coração e nas artérias pulmonares de cães durante seu estágio adulto. O resultado da infecção pode ser falha cardíaca e danos no coração e nas artérias, mas algumas infecções podem passar completamente despercebidas, especialmente em cães sedentários.

Não é uma visão agradável. Vermes-do-coração em um coração de cão. Foto de Alan R. Walker*.

Não é uma visão agradável. Vermes-do-coração em um coração de cão. Foto de Alan R. Walker*.

Depois que os machos e fêmeas acasalam no coração do cão, a fêmea dá à luz larvas vivas chamadas microfilárias. Estas são liberadas na corrente sanguínea e esperam para serem transferidas a um mosquito durante uma picada. Mais de 60 espécies de mosquitos são conhecidas por servirem de hospedeiros intermediários das microfilárias.

Dentro do mosquito, as microfilárias crescem do estágio larval L1 para o estágio larval L3 e então migram para as glândulas salivares do mosquito e, assim que ele pica outro cão, são transferidas para ele e se desenvolvem sob a pele no local da picada para o estágio l4. Agora a larva L4 migra para os músculos do cão e se desenvolve para o estágio L5. Finalmente elas começam a migrar pela corrente sanguínea até atingirem o coração e a artéria pulmonar, onde sofrem uma muda e se tornam adultos, completando o ciclo.

Podemos achar estes vermes nojentos, mas temos que admitir que eles têm um ciclo de vida complexo e impressionante.

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Referências:

Wikimedia. Dirofilaria immitis. Disponível em: < https://en.wikipedia.org/wiki/Dirofilaria_immitis >. Acesso em 7 de junho de 2012.

Ludlam, K. W.; Jachowski, L. A.; Otto, G. G. 1970. Potential vectors of Dirofilaria imiitis. Journal of the American Veterinary Medical Association, 157: 1354-1359.

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