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Fazendo cocô para evoluir: como as fezes nos permitiram existir

por Piter Kehoma Boll

Bilhões de anos atrás, quando as primeiras formas de vida surgiram na Terra, nosso planeta era bem diferente do que é hoje. O oxigênio, tão essencial para nossa sobrevivência, não estava presente na atmosfera.

Graças ao surgimento das primeiras bactérias fotossintetizantes, as chamadas cianobactérias ou algas azuis, nossa atmosfera passou a acumular oxigênio. Como você deve saber, a fotossíntese é um professo pelo qual plantas e outros organismos fotossintéticos convertem água e dióxido de carbono em oxigênio e compostos orgânicos.

O oxigênio é um elemento muito reativo, de forma que pode facilmente interagir com outros compostos e é ótimo para queimar matéria orgânica e liberar energia. Sem oxigênio, a vida heterotrófica, tal como os animais, não conseguiria usar grandes quantidades de energia e portanto não teria sido capaz de adquirir um grande tamanho.

Como você também deve saber, os animais muito provavelmente surgiram nos oceanos e só muito mais tarde conquistaram o ambiente terrestre. Contudo o oxigênio produzido pela fotossíntese se acumula principalmente na atmosfera e não nos oceanos. Hoje, somente 1% do oxigênio global se encontra nos oceanos, e era ainda pior nos primeiros milhões de anos de vida multicelular. Você sabe por quê?

Os animais mais primitivos vivos hoje são as esponjas, as quais são bem diferentes de ouros animais. Elas geralmente possuem um corpo oco com vários poros, os quais funcionam como pequenas bocas através das quais água contendo pequenos organismos planctônicos e outra matéria orgânica é puxada para dentro e depois eliminada por uma grande abertura no topo do corpo. Assim a principal coisa que as esponjas fazem é misturar a água e extrair uma pequena porção de matéria orgânica da coluna d’água. Suas fezes, quando voltam à água, não são muito diferentes em tamanho da matéria orgânica que elas ingeriram inicialmente.

Esponjas ingerem partículas orgânicas e eliminam partículas orgânicas. Elas não são muito eficientes em remover matéria orgânica da coluna d'água.

Esponjas ingerem partículas orgânicas e eliminam partículas orgânicas. Elas não são muito eficientes em remover matéria orgânica da coluna d’água.

Assim, em um mundo só de esponjas, a coluna d’água possivelmente estava sempre lotada de matéria orgânica dissolvida. Isso era um banquete para bactérias, questão sempre ávidas para decompor matéria orgânica e, ao fazer isso, consomem grandes quantidades de oxigênio. Portanto água com grandes quantidades de matéria orgânica aumenta a atividade bacteriana e deixa o ambiente anóxico, isto é, sem oxigênio. Como consequência, não havia oxigênio disponível para que os animais se tornassem grandes.

Apesar de não crescerem muito, os animais ainda estavam evoluindo, é claro, e eventualmente surgiram os animais bilaterais. Animais bilaterais possuem simetria bilaterial e, a característica mais importante para esta história, um intestino. Isso significa que eles ingerem comida, a digerem, processam e depois eliminam os restos como… cocô! No intestino, as fezes se tornam compactas e afundam muito mais rapidamente para o fundo do oceano, limpando a coluna d’água de matéria orgânica e drasticamente reduzindo a atividade bacteriana. Sem bactérias decompondo na coluna d’água, os níveis de oxigênio rapidamente começaram a aumentar, permitindo que os animais crescessem e coisas como peixes evoluíssem.

Animais bilaterais produzem fezes compactas que afundam, limpando a coluna d'água.

Animais bilaterais produzem fezes compactas que afundam, limpando a coluna d’água.

Se os animais nunca tivessem começado a fazer cocô, nós provavelmente nunca teríamos chegado a este mundo. Vida longa ao cocô!

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Referências:

Holland, H. D. 2006. The oxygenation of the atmosphere and oceans. Philosophical transactions of the Royal Society B, 370: 903-915.

Turner, J. T. 2002. Zooplankton fecal pellets, marine snow and sinking phytoplankton blooms. Aquatic Microbial Ecology, 27: 57-102.

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De onde veio o leite? A origem misteriosa da lactação em mamíferos

por Piter Kehoma Boll

Em postagens anteriores, eu falei sobre dois cientistas que apresentaram ideias “revolucionárias” para explicar certos aspectos em evolução, contradizendo o que outros especialistas costumam dizer. Mas eles propõem explicações tão improváveis e costumam ignorar tudo que contradiz suas ideias que ninguém os leva a sério. Você pode ler sobre eles aqui e aqui.

Hoje, contudo, falarei sobre outro cientista que teve ideias interessantes e inovadoras, mas muito mais prováveis e baseadas em muito mais evidências. Seu nome é Olav T. Oftedal e o assunto é a origem da lactação.

Como todos sabem, mamíferos são caracterizados principalmente pelo fato de as fêmeas alimentarem os filhotes através de secreções mamárias, a coisa que chamamos de “leite”. Mas como esse traço evoluiu na linhagem dos mamíferos?

Uma gata (Nani) com seus filhotes. Foto de Piter K. Boll*

Uma gata (Nani) com seus filhotes. Foto de Piter K. Boll*

Charles Darwin foi um dos primeiros a pensar numa explicação. Baseando-se em marsupiais, Darwin concluiu que os mamíferos evoluíram de animais que carregavam os ovos numa bolsa e os nutriam com secreções cutâneas. Sua ideia também foi inspirada por cavalos-marinhos, onde os ovos são carregados numa cavidade abdominal pelo macho e pensava-se que eles também poderiam ser nutridos por secreções cutâneas. Contudo a descoberta posterior de que o ornitorrinco, um dos mamíferos mais primitivos, põe ovos com casca e não possui bolsa marcou a ruína da teoria de Darwin e a origem da lactação. Mas… marcou mesmo?

Num artigo publicado em 2002 no Journal of Mammary Gland Biology and Neoplasia, Olav T. Oftedal levantou algumas questões interessantes e propôs uma explicação para a origem da lactação que é muito similar à proposta por Darwin um século e meio antes.

Como é sabido, mamíferos evoluíram de uma linhagem de amniotas chamados sinapsídeos, do qual eles são o único grupo ainda vivo, de forma que tudo sobre seus ancestrais precisa ser suposto através do registro fóssil.

Os ancestrais dos mamíferos costumam ser chamados de “répteis mamaliformes” ou “répteis semelhantes a mamíferos”, mas tal comparação está bem longe do que eles realmente eram. Os animais que chamamos de répteis – tartarugas, cobras, lagartos e crocodilos – são sauropsídeos, assim como as aves, e eles se divergiram dos sinapsídeos logo após a origem dos amniotas e provavelmente eram criaturas bem diferentes após alguns milhões de anos.

Vamos começar pensando sobre o que é um amniota. O clado “Amniota” compreende todos os tetrápodes vivos com exceção dos anfíbios, e eles são caracterizados pela presença de um conjunto de membranas envolvendo o embrião que auxilia na mobilização de nutrientes, na troca de gases e no armazenamento de produtos excretados pelo embrião, além de proteger o embrião dentro de um saco preenchido de fluido. Mas como eram os ovos desses primeiros amniotas?

Quando pensamos num ovo, costumamos pensar num ovo de ave, com uma casca calcificada, mas isso provavelmente não era o caso nos primeiros amniotas. Os ovos dos mamíferos atuais que põem ovos não possuem uma camada calcificada e é provável que a mesma só tenha evoluído na linhagem dos sauropsídeos.

Um ovo comum de galinha é a primeira coisa que vem à mente da maioria das pessoas quando ouvem a palavra "ovo". Foto de Sum Ladder*, extraída de commons. wikimedia.org

Um ovo comum de galinha é a primeira coisa que vem à mente da maioria das pessoas quando ouvem a palavra “ovo”. Foto de Sum Ladder*, extraída de commons. wikimedia.org

Ovos sem uma casca calcificada raramente fossilizam, e de fato não há ovos fósseis do Carbonífero, do Permiano e do começo do Triássico, isto é, durante toda a história dos sinapsídeos não-mamíferos.

Mas o que há de tão bom num ovo calcificado? Bem, uma camada de cálcio ajuda a prevenir a perda de água do embrião para o ambiente, seja pela redução da umidade relativa no ambiente ou pela diferença em temperatura. Répteis com um ovo não-calcificado costumam enterrar seus ovos em solo úmido onde a umidade relativa se aproxima de 100%, assim resolvendo o problema da perda de água. O aumento da aridez do final do Permiano até o Triássico pode ter favorecido a evolução de ovos calcificados, mas ainda não há evidências de ovos de sinapsídeos. Será que eles os enterravam em solo úmido como alguns répteis fazem hoje? É possível, mas…

Aves e mamíferos desenvolveram uma característica em comum: endotermia, isto é, “sangue quente”. Como sabemos, aves costumam incubar os ovos em temperaturas elevadas, assim acelerando o desenvolvimento do embrião. É bem possível, e provável, que os sinapsídeos fizessem o mesmo. Mas como dito, a diferença em temperatura entre o ovo e o ambiente também leva à perda de água. Em aves, a casca calcificada resolve o problema, mas os sinapsídeos não pareciam ter essa vantagem.

Observando ovos não calcificados em cobras e lagartos, é possível notar que eles aumentam em massa de 10 a 100% depois de postos. Isso acontece devido à absorção de água do ambiente e, como a casca não é rígida, o ovo também pode aumentar de volume, algo que não pode acontecer em ovos de casca rígida.

De acordo com a absorção de água, os ovos podem ser classificados em endoídricos e ectoídricos. Ovos endoídricos contêm toda a água que o embrião precisa para o desenvolvimento quando são postos, enquanto ovos ectoídricos precisam absorver água do ambiente. Em ovos não calcificados, isso depende primariamente do tamanho do ovo. Ovos grandes podem ter água suficiente para sustentar o embrião mesmo que ocorra certa perda de água, visto que a razão superfície:volume é baixa, mas o mesmo não pode ser aplicado a ovos pequenos. E sabe-se que os primeiros mamíferos, e portanto também seus ancestrais diretos, eram criaturas bem pequenas.

Assim o que temos é um animal com ovos não calcificados sujeitos à desidratação e uma temperatura corporal que pode ajudar a acelerar o desenvolvimento do embrião. Como juntar essas duas coisas?

O mamífero ovíparo équidna e alguns marsupiais possuem uma bolsa abdominal que retém os ovos ou recém-nascidos. É sabido que as équidnas-de-bico-curto incubam seus ovos na bolsa. Ornitorrincos fêmeas não possuem uma bolsa, mas incubam os ovos ao curvar a cauda achatada de forma que ela toque o abdome, formando um compartimento similar a uma bolsa. Dentro dessa bolsa, secreções cutâneas do abdome da fêmea manteriam os ovos úmidos, assim prevenindo a desidratação.

Um ovo de équidna na bolsa. (Encontrei essa imagem na internet sem qualquer informação sobre o autor e tal).

Um ovo de équidna na bolsa. (Encontrei essa imagem na internet sem qualquer informação sobre o autor e tal).

Um problema em reter ovos numa bolsa é que isso limita a mobilidade da mãe. Para resolver este problema, os ovos poderiam ficar parte do tempo na bolsa para serem hidratados e então removidos até ser necessária uma nova hidratação. Isso poderia libertar a fêmea de carregar os ovos consigo o tempo todo e também aumentar o tamanho da ninhada além do número de ovos que cabem na bolsa. Essa situação favoreceria fêmeas com maior quantidade de secreções cutâneas.

Uma vez que os ovos eclodam, os filhotes também poderiam usar a secreção como fonte de alimento, o que levaria a um aumento progressivo do valor nutritivo da secreção até atingir o status de leite.

Faz sentido, não é? Não contradiz nenhuma evidência sobre a evolução dos mamíferos e é baseado em evidências verdadeiras de fósseis e comparações com muitos grupos viventes.

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Referências:

Oftedal, O. T. 2002. The origin of lactation as a water source for parchment-shelled eggs. Journal of mammary gland biology and neoplasia, 7 (3), 253-66

Oftedal, O. T. 2002. The mammary gland and its origin during synapsid evolution. Journal of mammary gland biology and neoplasia, 7 (3), 225-52

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Retallack sofre da síndrome de Williamson? A controvérsia da Ediacara terrestre

por Piter Kehoma Boll

Neste mês, um artigo publicado na Nature afirma que a famosa biota de Ediacara, um conjunto de fósseis do período Ediacarano (cerca de 635 a 542 milhões de anos atrás) da era Neoproterozóica, não é composta de criaturas marinhas, mas sim de líquens terrestres. Quem fez esta afirmação? Gregory Retallack, um geólogo da Universidade de Oregon.

Retallak trabalha nesta hipótese desde os anos 1990 e as principais evidências apresentadas por ele são relacionadas a aspectos geológicos, como a cor vermelha da rocha, que de acordo com ele teria origem terrestre. Outra afirmação é de que, se essas criaturas fossem animais de corpo mole, elas não teriam sido tão bem preservadas, sem compactação, já que alguns fósseis possuem características tridimensionais.

Bem, eu não sou geólogo e não tenho conhecimento suficiente para discutir do ponto de vista geológico, nem sou um especialista na biota de Ediacara, mas como biólogo eu acho que posso compartilhar alguns pensamentos.

Primeiro, pelo que parece, as ideias de Retallack não são aceitas pela maioria dos paleontólogos. No início, a visão inovadora da biota de Ediacara como terrestre era interessante, mas os argumentos para suportá-la não são suficientes e ainda há explicações mais simples e mais prováveis para os aspectos incomuns das rochas ediacaranas. Contudo isto não impediu Retallack de seguir com sua ideia e outros paleontólogos estão ficando cansados de revisar seus artigos.

Este comportamento lhe parece familiar? Ele de certa forma me lembra o de Williamson, de quem falei um tempo atrás, como você pode ler aqui.

Assim como Williamson insiste em sua ideia de hibridogênese apesar de todos os fatos apontarem em outras direções, da mesma forma Retallack insiste em sua hipótese de líquens terrestres.

Dickinsonia teria sido um líquen terrestre de acordo com Retallack. Foto pelo usuário Verisimilus da Wikipedia. Extraído de en.wikipedia.org

Dickinsonia teria sido um líquen terrestre de acordo com Retallack. Foto pelo usuário Verisimilus da Wikipedia. Extraído de en.wikipedia.org

Retallack afirma que fósseis como Dickinsonia e Charnia, apesar do seu plano corporal bilateralmente simétrico, eram líquens. Alguém conhece líquens tão simétricos? E para sustentar essa hipótese, ele simplesmente joga qualquer tipo de explicação “fúngica” para todos os fósseis, considerando os mais radialmente simétricos como colônias de bactérias e os mais semelhantes a animais como simples corpos de frutificação de fungos. E para explicar coisas como os fósseis de rastros, ele fala sobre lesmas terrestres (lesmas terrestres durante o Proterozoico? Sério?) ou mixomicetos.

Mas então pode-se pensar: ele possui qualquer referência para sustentar suas ideias? E a resposta é: com certeza, seus PRÓPRIOS trabalhos anteriores. Não há outros paleontólogos afirmando o mesmo além dele próprio. Isso se parece exatamente com o que eu chamo de síndrome de Williamson.

Tenho certeza que encontraremos algumas pessoas aceitando sua ideia, mais provavelmente leigos, e eles muito provavelmente usarão o argumento clássico de que “todas as grandes descobertas científicas começaram sendo rejeitadas pela maior parte da comunidade científica”. E eu direi isso de novo: Sim, muitas teorias foram rejeitadas inicialmente e depois provou-se estarem certas, mas você não pode se esquecer de que muito mais teorias foram rejeitadas e depois provou-se estarem erradas. E uma vez que você prova que algo é errado ou pelo menos muito, muito improvável, você deve pensar em outra explicação possível e mais provável e não seguir insistindo num conto de fadas.

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Referências:

Cobb, M. 2012. The enigmatic Ediacaran biota just got more enigmatic. Or did it? Why Evolution Is True. Disponível online em <http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/12/20/the-enigmatic-ediacaran-biota-just-got-more-enigmatic-or-did-it/ >

Retallack, G. 2012. Ediacaran life on land. Nature. DOI: 10.1038/nature11777

Retallack, G. 2007. Growth, decay and burial compaction of Dickinsonia, an iconic Ediacaran fossil. Alcheringa: An Australasian Journal of Palaeontology, 31 (3), 215-240 DOI: 10.1080/03115510701484705

Switek, B. 2012. Controversial claim puts life on land 65 million years early. Nature. DOI:10.1038/nature.2012.12017

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Se você gosta de flores, deveria amar insetos

por Piter Keboma Boll

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Todo mundo gosta de flores, certo? Elas são tão coloridas e bonitas e geralmente possuem um aroma maravilhoso. As pessoas amam tê-las em seus jardins e mulheres amam receber um belo buquê de flores de seus namorados.

Algumas plantas com flores, da esquerda para a direita: Rosa 'Hybrid Tea', Pachystachys lutea e Zinnia elegans. Todas as fotos por Piter K. Boll (isto é, eu mesmo)*.
Algumas plantas com flores, da esquerda para a direita: Rosa ‘Hybrid Tea’, Pachystachys lutea e Zinnia elegans. Todas as fotos por Piter K. Boll (isto é, eu mesmo)*.

Mas por quê as flores são tão bonitas? É claro que as flores vistas acima são derivadas de variedades artificialmente selecionadas por humanos para aumentar sua beleza, mas flores na natureza também são maravilhosas!

Flores que ocorrem naturalmente. Da esquerda para a direita: Oxalis sp., Ipomoea fimbriosepala e Zephyranthes robusta. Todas as fotos minhas de novo (Piter K. Boll)*
Flores que ocorrem naturalmente. Da esquerda para a direita: Oxalis sp., Ipomoea fimbriosepala e Zephyranthes robusta. Todas as fotos minhas de novo (Piter K. Boll)*

Certamente essa beleza não possui a intenção de agradar pessoas ou o que quer que seja. Isso é pura besteira e somente alguns religiosos poderiam ter uma ideia tão errada. Se as plantas possuem belas flores, isso precisa dar-lhes alguma vantagem.

Como todos sabem (ou assim espero), as plantas geralmente não podem se mover como os animais, de forma que elas estão condenadas a ficar quietas em seu lugar. Isso pode significar uma porção de problemas quando você está procurando por recursos como água, luz ou elementos básicos como nitrogênio. Assim a evolução levou ao surgimento de estruturas incríveis para fazer as plantas sobreviverem, como adquirir um caule rígido para se tornar mais alta ou desenvolver folhas menores ou maiores, espinhos, gavinhas, ou mesmo se tornar carnívoras. Mas as plantas também precisam se reproduzir e para isso elas precisam de um parceiro, mas visto que elas são presas ao substrato, elas precisam encontrar maneiras alternativas de juntar seus gametas.

A maioria das plantas primitivas resolve isso através da água ou do vento, apenas deixando suas estruturas reprodutivas partirem e esperando que elas cheguem ao seu destino. Como você pode ver, este método não é o melhor, visto que a fertilização ocorre totalmente por sorte. Além disso, estas maneiras são limitadas em relação aos locais em que são bem-sucedidas. Uma planta fertilizada pela água precisa estar dentro da água ou viver próxima ao solo ou em locais onde ela eventualmente ficará submersa; da mesma forma, uma planta que depende do vento precisa, é claro, estar onde o vento sopra.

Musgo (esquerda) depende de água para se reproduzir, enquanto coníferas (direita) precisam de vento. Mais uma vez, fotos de Piter K. Boll.*
Musgo (esquerda) depende de água para se reproduzir, enquanto coníferas (direita) precisam de vento. Mais uma vez, fotos de Piter K. Boll.*

Esses métodos, apesar de limitados, funcionaram bem o bastante por milhões de anos até algum ponto do período cretáceo, quando um grupo de animais começou a se diversificar de maneira impressionante: os insetos.

Insetos são pequenos e prolíficos. Eles possuem um esqueleto externo duro de quitina, o que previne a desidratação e muitos ferimentos, e muitos deles aprenderam a voar, assim sendo capazes de cruzar grandes distâncias e colonizar novos ambientes.

Os insetos existem, claro, pelo menos desde o Carbonífero. O mais famoso deles é a libélula gigante Meganeura. Mas durante o Cretáceo aqueles grupos que hoje são os mais diversos começaram a aparecer em fósseis: formigas, abelhas, cupins, borboletas, mariposas, pulgões e gafanhotos. Besouros, o grupo mais diverso de insetos hoje (contendo mais espécies que todos os outros artrópodes juntos) são encontrados em fósseis desde o Carbonífero, mas quase se tornaram extintos durante a divisão Permiano-Triássico que marca a extinção em massa mais terrível na Terra. Após esse evento trágico, eles se mantiveram mais discretos até uma explosão em diversificação no Cretáceo junto com os insetos já mencionados.

Bem, todos esses insetos precisavam comer pra caramba e começaram a se alimentar de plantas, incluindo seu pólen. Isso poderia ser um sério problema, mas as plantas acharam um jeito de lidar com isso modificando a si mesmas de forma que os insetos se tornaram algo útil a elas.Se os insetos eram atraídos pelo seu pólen, por que eles não poderiam carregá-lo para outras plantas, assegurando assim uma fertilização mais segura? Foi isso mesmo que as plantas fizeram, mas para atrair os insetos ainda mais para seus órgãos reprodutores, elas começaram a aumentar de tamanho e a adquirir belas cores. Isso tudo aconteceu através de seleção natural de mutações aleatórias, é claro. Ninguém está assumindo que as plantas ou os insetos realmente escolheram mudar, isso é besteira. O que estou tentando dizer (de forma mais simples) é que aquelas plantas que eram capazes de conectar alguns de seus grãos de pólen aos insetos, de forma que eles atingissem outras plantas que o inseto visitasse, eram mais bem sucedidas em se reproduzir. Da mesma forma, aquelas plantas com flores mais bonitas atraíam mais insetos e também eram mais bem sucedidas se reproduzindo.

Enfim, é por isso que devemos agradecer aos insetos por existirem, porque sem eles não teríamos flores tão bonitas para decorar nossas vidas. E se você gosta de flores, mas odeia insetos, bem, você está sendo muito injusto com a natureza.

Eu sei que alguns podem pensar “mas eu gosto de borboletas. Elas são bonitas e legais e fofas e polinizam tudo, então só preciso gostar destes insetos e não de todas aquelas coisas nojentas.”

Ah é mesmo? Então você gosta de borboletas? Estou certo de que você gosta desta:

Lagarta de Agraulis vanillae. Foto de Bill Frank, extraída de jaxshells.org
Lagarta de Agraulis vanillae. Foto de Bill Frank, extraída de jaxshells.org

A maioria das pessoas gosta de borboletas e odeia lagartas, mas elas são exatamente a mesma coisa. E na verdade esses insetos passam a maior parte da vida como larvas. Agora só para saciar sua curiosidade, é com isso que aquela lagarta se parece quando adulta:

Um adulto de Agraulis vanillae em um capítulo de Zinnia elegans. Foto de Piter K. Boll.*
Um adulto de Agraulis vanillae em um capítulo de Zinnia elegans. Foto de Piter K. Boll.*

Mas borboletas não são os únicos polinizadores e nem mesmo os mais comuns. Abelhas, como você sabe, são também muito importantes e os principais polinizadores de muitas plantas economicamente importantes, especialmente frutíferas. Vespas, moscas, mosquitos, moscas-escorpiões e mariposas também são importantes, mas não podemos esquecer dos besouros.

A maioria das angiospermas basais e primitivas são polinizadas por besouros, então esses caras devem estar por trás do surgimento e da diversificação de plantas com flores. Há muitas evidências para isso, como um aumento da diversidade de angiospermas no registro fóssil sendo contemporânea com um aumento de espécies de besouros.

Recentemente, algumas flores fósseis da época turoniana (cerca de 90 milhões de anos) foram encontradas em Sayreville, New Jersey. Elas foram chamadas de Microvictoria svitkoana devido à impressionante similaridade com a vitória-régia, Victoria amazonica, apesar de muito menores em tamanho.

Flor de Victoria amazonica, uma das angiospermas mais primitivas. É fácil notar que ela de certa forma ainda lembra um cone de conífera. Foto de Frank Wouters.*
Flor de Victoria amazonica, uma das angiospermas mais primitivas. É fácil notar que ela de certa forma ainda lembra um cone de conífera. Foto de Frank Wouters.*

Apesar de primitiva, é certamente uma flor muito bonita, e só pode existir graças a besouros do gênero Cyclocephala, como este:

Cyclocephala hardyi, um besouro que poliniza Victoria amazonica. Foto extraída de ssaft.com/Blog/dotclear/
Cyclocephala hardyi, um besouro que poliniza Victoria amazonica. Foto extraída de ssaft.com/Blog/dotclear/

O que achou dele? Até que é um rapaz legal, não é? Se você olhar mais de perto, verá que cada inseto é impressionante de sua própria forma, até mesmo baratas!

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Referências:

Béthoux, O. 2009. The Earliest Beetle Identified. Journal of Paleontology, 83(6), 931-937 DOI: 10.1666/08-158.1

Crepet, W. L. 1996. Timing in the evolution of derived floral characters: Upper Cretaceous (Turonian) taxa with tricolpate and tricolpate-derived pollen. Review of Palaeobotany and Palynology, 90, 339-359 DOI: 10.1016/0034-6667(95)00091-7

Gandolfo, M. A., Nixon, K. C. and Crepet, W. L. 2004. Cretaceous flowers of Nymphaeaceae and implications for complex insect entrapment pollination mechanisms in early Angiosperms. PNAS, 101 (21), 8056-8060 DOI:10.1073/pnas.0402473101

Seymour, R. S. and Matthews, P. G. D. 2006. The Role of Thermogenesis in the Pollination Biology of the Amazon Waterlily Victoria amazonica. Annals of Botany, 98 (6), 1129-1135 DOI: 10.1093/aob/mcl201

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