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Quanto mais quente mais perigoso, ao menos se você for uma lagarta

por Piter Kehoma Boll

Cientistas pelo mundo todo concordam que a diversidade de espécies é maior nos trópicos do que nas regiões polares, isto é, quanto mais perto você chega do equador, mais espécies vai encontrar. Mas além de tornar as teias alimentares mais emaranhadas, ela aumenta o número geral de interações que as espécies experimentam? Afinal, apesar do aumento em riqueza de espécies, o tamanho populacional geralmente diminui. Por exemplo, enquanto há centenas de diferentes espécies de árvores na Floresta Amazônica, o número de indivíduos de cada espécie é muito menor do que o número de indivíduos de uma espécie em uma floresta temperada na Europa.

De modo a testar se um aumento na riqueza de espécies também significa um aumento de interações bióticas, um grupo de ecologistas do mundo todo fez parte de um experimento mundial usando nada mais que pequenas lagartinhas feitas de massa de modelar. Os modelinhos foram colocados em diferentes áreas das regiões polares às regiões equatoriais e o número de ataques que eles sofreram foi contado e agrupado de acordo com o tipo de predador, o que geralmente era fácil de identificar com base nas marcas deixadas nos modelos.

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Uma lagarta falsa em Tai Po Kau, Hong Kong. Todo de Chung Yun Tak, extraída de ScienceDaily.

Os resultados indicara que de fato há um aumento nas taxas de predação em direção ao equador, bem como em direção ao nível do mar. Áreas próximas aos polos ou a grandes elevações possuem um menor número de interações. Mas ainda mais interessante foi a revelação de que essa mudança é realmente guiada por pequenos predadores, especialmente artrópodes como formigas. As taxas de ataque de aves e mamíferos foram consideravelmente constantes através do globo.

Tal evidência sobre a importância de artrópodes predadores nos trópicos pode nos levar a reavaliar nossas ideias sobre a evolução das espécies nesses lugares, já que a maior preocupação de pequenos herbívoros como lagartas em florestas tropicais pode não ser as aves, mas mas formigas. E isso significa uma maneira completamente diferente de evoluir estratégias de defesa.

Nos vídeos abaixo você pode acompanhar a pesquisadora Larissa Boesing da USP dando maiores detalhes do estudo:

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Referência:

Roslin, T., Hardwick, B., Novotny, V., Petry, W., Andrew, N., Asmus, A., Barrio, I., Basset, Y., Boesing, A., Bonebrake, T., Cameron, E., Dáttilo, W., Donoso, D., Drozd, P., Gray, C., Hik, D., Hill, S., Hopkins, T., Huang, S., Koane, B., Laird-Hopkins, B., Laukkanen, L., Lewis, O., Milne, S., Mwesige, I., Nakamura, A., Nell, C., Nichols, E., Prokurat, A., Sam, K., Schmidt, N., Slade, A., Slade, V., Suchanková, A., Teder, T., van Nouhuys, S., Vandvik, V., Weissflog, A., Zhukovich, V., & Slade, E. (2017). Higher predation risk for insect prey at low latitudes and elevations Science, 356 (6339), 742-744 DOI: 10.1126/science.aaj1631

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Arquivado em Ecologia

Sexta Selvagem: Diatomácea-colar-de-roda

por Piter Kehoma Boll

A maioria de vocês deve saber o que são diatomáceas, algas microscópicas com carapaças de sílica que são muito abundantes nos oceanos do mundo e um dos principais produtores de oxigênio. Você pode ter visto imagens como esta abaixo, mostrando a diversidade de diatomáceas, mas você é  capaz de nomear uma espécie sequer?

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A bela, mas amplamente negligenciada por não-especialistas, diversidade de diatomáceas. Foto do usuário do Wikimedia Wipeter.*

Hoje decidi  trazer uma diatomácea à Sexta Selvagem e  me deixem contar: não foi nem um pouco fácil selecionar uma boa espécie com uma quantidade considerável de informações disponíveis e uma boa imagem. Mas ao final a vencedora do prêmio Primeira Diatomácea na Sexta Selvagem foi…

Thalassiosira rotula!

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Três indivíduos de Thalassiosira rotula conectados. Foto de micro*scope.**

Como com muitos microrganismos, esta espécie não possui nome comum e, como já é tradição aqui, eu decidi inventar um e escolhi o nome diatomácea-colar-de-roda. Diatomácea-colar parece ser um bom nome para espécies do gênero Thalassiosira, já que elas são formadas por vários indivíduos conectados entre si em um padrão que lembra um colar. Eu decidi chamar esta espécie particular de diatomácea-colar-de-roda por causa de seu epíteto específico, rotula, que significa rodinha em latim.

A diatomácea-colar-de-roda é uma espécie marinha encontrada no mundo todo perto da costa. É muito abundante e a espécie dominante em algumas áreas, de forma que possui uma grande importância ecológica. Pequenos crustáceos planctônicos, como copépodes, geralmente se alimentam da diatomácea-colar-de-roda e, como esses crustáceos são usados como alimento por animais muito maiores, a diatomácea-colar-de-roda é responsável por sustentar toda a teia alimentar.

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Referências:

Ianora, A., Poulet, S., Miralto, A., & Grottoli, R. (1996). The diatom Thalassiosira rotula affects reproductive success in the copepod Acartia clausi Marine Biology, 125 (2), 279-286 DOI: 10.1007/BF00346308

Krawiec, R. (1982). Autecology and clonal variability of the marine centric diatom Thalassiosira rotula (Bacillariophyceae) in response to light, temperature and salinity Marine Biology, 69 (1), 79-89 DOI: 10.1007/BF00396964

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Briga biológica: Devemos trazer os mamutes de volta?

por Piter Kehoma Boll

Todo mundo conhece os incríveis grandes animais que são encontrados na África e no Sudeste da Ásia. Elefantes, girafas, rinocerontes, hipopótamos, cavalos, leões, tigres… essas grandes criaturas, a maioria mamíferos, são geralmente chamadas de megafauna, a “grande fauna”.

Mamíferos tão grandes quanto o elefante-africano-da-savana já vagaram pelas Américas. Foto do usuário do flickr nickmandel2006*.

Mamíferos tão grandes quanto o elefante-africano-da-savana já vagaram pelas Américas. Foto do usuário do flickr nickmandel2006*.

As Américas outrora também tinham uma impressionante megafauna, cheia de mastodontes, mamutes, preguiças gigantes, tatus gigantes e tigres-dentes-de-sabre. Hoje em dia ela é restrita a alguns ursos e onças. O que aconteceu com o resto deles? Bem, a maioria se extinguiu no final do Pleistoceno, cerca de 11 mil anos atrás.

A América do Sul já teve mamíferos tão grandes quanto o elefante-Africano-da-savana, tal como a preguça-gigante. Imagem de Dmitry Bogdanov** (dibdg.deviantart.com)

A América do Sul já teve mamíferos tão grandes quanto o elefante-Africano-da-savana, tal como a preguiça-gigante. Imagem de Dmitry Bogdanov** (dibdg.deviantart.com)

Visto que os humanos já habitavam as Américas nesta época, sempre se especulou se humanos tiveram algo a ver com a extinção. É verdade que hoje em dia centenas, milhares de espécies estão ameaçadas devido a atividades humanas, então é fácil pensar que humanos são a melhor explicação para a extinção, mas há 10 mil anos o número de humanos no planeta era milhares de vezes menor do que é hoje e nossa tecnologia ainda era muito primitiva, de forma que é improvável que pudéssemos caçar uma espécie até a extinção nesse período… se estivéssemos trabalhando sozinhos.

Não, não estou falando de humanos cooperando com aliens! Nosso camarada foi a famosa mudança climática. Períodos de extremo calor durante o pleistoceno parecem ter tido um forte impacto sobre populações de muitos grandes mamíferos e, com a ajuda de humanos caçando-os e se espalhando como uma espécie invasora, os pobres gigantes pereceram.

Le Mammouth por Paul Jamin

Le Mammouth por Paul Jamin

Isso aconteceu há mais de 10 mil anos, DEZ MIL ANOS.

Na África, elefantes e grandes carnívoros são bem conhecidos pela sua importância em estruturar comunidades, especialmente devido às interações tróficas que moldam outras populações. A megafauna extinta das Américas muito provavelmente tinha o mesmo impacto no ecossistema. Como resultado, sugestões para restaurar esta megafauna extinta foram propostas, seja por clonagem de espécies extintas ou, mais plausivelmente, pela introdução de espécies com um papel ecológico similar.

Svenning et al. (2015) revisaram o assunto e argumentaram em favor da reintroduão da megafauna para restaurar papéis ecológicos perdidos no Pleistoceno, uma ideia chamada de “renaturalização pleistocênica” ou “renaturalização trófica”, como eles preferem. Eles apresentam alguns mapas que mostram a distribuição atual de grandes mamíferos e sua distribuição histórica no Pleistoceno, a qual eles chamam de “natural”. Eles também propõem algumas espécies para serem introduzidas de forma a substituir aquelas extintas, incluindo substituições de espécies extintas há até 30 mil anos. Agora isso é uma boa ideia? Eles acham que é, e um dos exemplos usados é a reintrodução de lobos no Parque Nacional de Yellowstone. Mas lobos são estavam extintos ali por milênios, nem são uma espécie diferente que substituiria o papel de uma extinta.

Uma alcateia de lobos no Parque Nacional de Yellowstone.

Uma alcateia de lobos no Parque Nacional de Yellowstone.

Rubenstein & Rubenstein (2016) criticaram a ideia, argumentando que deveríamos focar em proteger os ecossistemas restantes e não em tentar restaurar aqueles que foram corrompidos milhares de anos atrás. Eles também argumentam que usar espécies similares pode ter consequências não intencionadas. Svenning et al. responderam que isso é apenas uma opinião e que um programa sistemático de pesquisa em renaturalização trófica deveria ser desenvolvido. A reintrodução de cavalos no Novo Mundo e suas consequências não-catastróficas são outro ponto usado para responder às críticas.

Então qual é sua opinião? Devemos trazer mamutes, mastodontes, preguiças gigantes e tigres-dentes-de-sabre de volta? Devemos introduzir elefantes e leões nas Américas para desempenharem o papel que mastodontes e esmilodontes tinham?

Minha opinião é não. A ideia pode parecer bela, mas penso que é na verdade fantástica, fabulosa demais e sensacionalista. Cavalos podem ter voltado às Américas sem trazer destruição, mas não podemos ter certeza de nada, mesmo com vários estudos teóricos e em pequena escala. Todos sabemos o quão frequentemente introduzir espécies dá errado, muito errado. Olhem para os pobres Austrália e Havaí, por exemplo. Além disso, esses mamíferos gigantes se etinguiram HÁ DEZ MIL ANOS. Certamente os ecossistemas se adaptaram à sua extinção. A vida sempre encontra um jeito. Há ameaças piores a esses ecossistemas que devem ser abordadas, tal como a destruição iminente para construir mais cidades e criar mais gado e plantações.

Superem. Os mamutes se foram. Vamos tentar salvar os elefantes em vez disso, mas sem trazê-los para o cerrado brasileiro. Eles não pertencem a esse lugar. Eles pertencem à savana africana.

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Referências:

Rubenstein, D. R.; Rubenstein, D. I. From Pleistocene to trophic rewilding: A wolf in sheep’s clothing. PNAS, 113(1): E1. DOI: 10.1073/pnas.1521757113

Svenning, J-C.; Pedersen, P. B. M.; Donlan, C. J.; Ejrnæs, R.; Faurby, S.; Galetti, M.; Hansen, D. M.; Sandel, B.; Sandom, C. J.; Terborgh, J. W.; Vera, F. W. M. 2016. Science for a wilder Anthropocene: Synthesis and future directions for trophic rewilding research. PNAS, 113(4): 898-906. DOI: 10.1073/pnas.150255611

Svenning, J-C.; Pedersen, P. B. M.; Donlan, C. J.; Ejrnæs, R.; Faurby, S.; Galetti, M.; Hansen, D. M.; Sandel, B.; Sandom, C. J.; Terborgh, J. W.; Vera, F. W. M. 2016. Time to move on from ideological debates on rewilding. PNAS, 113(1): E2-E3. DOI: 10.1073/pnas.1521891113

Wade, L. 2016. Giant jaguars, colossal bears done in by deadly combo of humans and heat. Science News. DOI: 10.1126/science.aag0623

Wade, L. 2016. Humans spread through South America like an invasive species. Science News. DOI: 10.1126/science.aaf9881

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