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Novas Espécies: 11 a 20 de setembro

por Piter Kehoma Boll

Aqui está uma lista de espécies descritas de 11 a 20 de setembro. Ela certamente não inclui todas as espécies descritas. A maior parte das informações vem dos jornais Mycokeys, Phytokeys, Zookeys, Phytotaxa, Zootaxa, International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology e Systematic and Applied Microbiology, além de revistas restritas a certos táxons.

petrolisthes-paulayi

Petrolisthes paulayi é um novo caranguejo descrito nos últimos 10 dias.

SARs

Plantas

Amebozoários

Fungos

Esponjas

Cnidários

Platelmintos

Anelídeos

Nematódeos

Aracnídeos

Miriápodes

Crustáceos

Hexápodes

Peixes cartilaginosos

Peixes  de nadadeiras rajadas

Lissanfíbios

Répteis

Mamíferos

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A história da Sistemática: Animais no Systema Naturae, 1758 (Parte 4)

por Piter Kehoma Boll

Esta é a quarta e última parte desta série de postagens. Veja aqui parte 1, parte 2 e parte 3.

Apresentarei aqui a sexta e última classe de animais: Vermes. Ela inclui basicamente qualquer coisa que não seja nem um vertebrado, nem um artrópode.

6. Vermes

Coração com um ventrículo e uma aurícula; pus frio.
Espiráculos ausentes?
Mandíbulas múltiplas, várias.
Pênis diversos em hermafroditas, andróginos.
Sentidos: tentáculos, cabeça ausente (raramente com olhos, sem orelhas e narinas).
Cobertura: às vezes calcária ou ausente, se não espinhos.
Suporte: nem pés, nem nadadeiras.

Vermes eram classificados de acordo com a forma do corpo em 5 ordens: Intestina, Mollusca, Testacea, Lithophyta e Zoophyta.

6.1 Intestina (internos ou intestinos), simples, nus e sem apêndices: Gordius (vermes-crina-de-cavalo), Furia (o verme lendário), Lumbricus (minhocas), Ascaris (lombrigas), Fasciola (fascíolas), Hirudo (sanguessugas), Myxine (feiticeiras) e Teredo (turus).

A heterogênea ordem Intestina de Linnaeus incluía (da esquerda para a direita, de cima para baixo) o verme-crista-de-cavalo-d'água (

A heterogênea ordem Intestina de Linnaeus incluía (da esquerda para a direita, de cima para baixo) o verme-crista-de-cavalo-d’água (Gordius aquaticus), a lendária fúria do inferno (Furia infernalis), a minhoca-comum (Lumbricus terrestris), a lombriga-humana (Ascaris lumbricoides), a fascíola-de-ovelha (Fasciola hepatica), a sanguessuga-medicinal-europeia (Hirudo medicinalis), a feiticeira-do-Atlântico (Myxine glutinosa), e o turu (Teredo navalis). Créditos a Jiři Duchoň (verme-crista-de-cavalo), Michael Linnenbach (minhoca), usuário do Wikimedia GlebK (sanguessuga), Arnstein Ronning (feiticeira), Poi Australia [poi-australia.com.au] (turu).

6.2 Mollusca (moles), simples, nus e com apêndices: Limax (lesmas terrestres), Doris (lesmas-marinhas-dorídeas), Tethys (lesmas-marinhas-tetidídeas), Nereis (poliquetos), Aphrodita (camundongos-do-mar), Lernaea (vermes-âncora), Priapus (vermes priapulídeos e anêmonas), Scyllaea (lesmas-marinhas-cileídeas), Holothuria (salpas e caravelas), Triton (possivelmente algum tipo de lesma marinha), Sepia (polvos,  lulas e sibas), Medusa (águas-vivas), Asterias (estrelas-do-mar), Echinus (ouriços-do-mar e bolachas-da-praia).

 

Entre os animais que Linnaeus pôs em Mollusca estão (da esquerda para a direita, de cima para baixo) a lesma-leopardo (

Entre os animais que Linnaeus pôs em Mollusca estão (da esquerda para a direita, de cima para baixo) a lesma-leopardo (Limax maximus), o dorídeo-de-verrugas (Doris verrucosa), o tetidídeo-de-franja (Tethys leporina, agora Tethys fimbria), o verme-trapo-esbelto (Nereis pelagica), o camundongo-do-mar (Aphrodita aculeata), o verme-âncora-comum (Lernaea cyprinacea), o verme-cacto (Priapus humanus, agora Priapulus caudatus), o nudibrânquio-do-sargasso (Scyllaea pelagica), a caravela-portuguesa (Holothuria physalis, agora Physalia physalis), a siba-comum (Sepia officinalis), a medusa-da-lua (Medusa aurita, agora Aurelia aurita), a estrela-do-mar-comum (Asterias rubens) e o ouriço-do-mar-comestível-europeu (Echinus esculentus). Créditos a Marina Jacob (lesma), usuário do Wikimedia Seascapeza (dorídeo), Pino Bucca (tetidídeo), Alexander Semenov (verme-trapo), Michael Maggs (camundongo-do-mar), glsc.usgs.gov (verme-âncora), Shunkina Ksenia (verme-cacto), Universidad de Olviedo (nudibrânquio-do-sargasso), Hans Hillewaert (siba, medusa e estrela-do-mar) e Bengt Littorin (ouriço-do-mar).

6.3 Testacea (cobertos com uma concha), simples, cobertos por um abrigo calcário: Chiton (quítons), Lepas (cracas e percebes), Pholas (folas e asas-de-anjo), Myes (amêijoas-moles), Solen (amêijoas-navalha), Tellina (telinas), Cardium (berbigões), Donax (conquilhas), Venus (amêijoas-vênus), Spondylus (ostras-de-espinhos), Chama (caixas-de-joias), Arca (amêijoas-arcas), Ostrea (ostras-verdadeiras), Anomia (ostras-de-sela), Mytilus (mexilhões), Pinna (conchas-de-pena), Argonauta (argonautas), Nautilus (náutilos), Conus (conos), Cypraea (búzios), Bulla (bulas), Voluta (volutas), Buccinum (búzios-de-ponta), Strombus (caramujos-marinhos), Murex (múreces), Trochus (piãozinhos), Turbo (turbantes), Helix (caracóis), Nerita (neritas), Haliotis (abalones), Patella (lapas e braquiópodes), Dentalium (dentálios) e Serpula (serpulídeos e caramujos-vermes).

A diversa ordem Testacea de Linnaeus incluía (da esquerda para a direita, de cima para baixo): o quíton-verde-ocidental (

A diversa ordem Testacea de Linnaeus incluía (da esquerda para a direita, de cima para baixo): o quíton-verde-ocidental (Chiton tuberculatus), o percebe-pescoço-de-ganso (Lepas anatifera), o fola-comum (Pholas dactylus), o corta-areia (Myes arenaria, agora Mya arenaria), a navalha-bainha (Solen vagina), a telina-da-alvorada (Tellina radiata), o berbigão-de-costela (Cardium costatum), a conquilha-abrupta (Donax trunculus), a vênus-de-verrugas (Venus verrucosa), a vieira-de-espinhos (Spondylus gaederopus), a caixa-de-joias-lázaro (Chama lazarus), a amêijoa-arca-de-Noé (Arca noae), a ostra-plana-europeia (Ostrea edulis), a concha-do-jingado-europeia (Anomia ephippium), o mexilhão-azul (Mytilus edulis), a concha-de-pena-rude (Pinna rudis), o argonauta-maior (Argonauta argo), o náutilo-de-câmaras (Nautilus pompilius), o cono-marmorado (Conus marmoreus), o búzio-tigre (Cypraea tigris), a bula-do-Pacífico (Bulla ampulla), a voluta-música (Voluta musica), o búzio-de-ponta-comum (Buccinum undatum), o caramujo-lutador-ocidental (Strombus pugilis), o múrex-estrepe (Murex tribulus), o piãozinho-manchado (Trochus maculatus), o turbante-tapete (Turbo petholatus), o caracol-romano (Helix pomatia), a nerita-dente-sangrento (Nerita peloronta), o abalone-orelha-de-Midas (Haliotis midae), a lapa-do-Mediterrâneo (Patella caerulea), o dentálio-presa-de-elefante (Dentalium elefantinum) e o caramujo-verme-da-areia (Serpula arenaria, agora Thylacodes arenarius). Créditos a James St. John (quíton), Ruben Vera (percebe), Valter Jacinto (fola), Oscar Bos [ecomare.nl] (corta-areia), Guido & Filippe Poppe [conchology.be] (navalha), femorale.com (telina, berbigão, vieira, amêijoa-arca, concha-do-jingado, bula, caramujo-lutador, nerita, abalone, dentálio), Hans Hillewaert (conquilha, vênus, náutilo, búzio-de-ponta), Richard Parker (caixa-de-joias, cono-marmorado), Jan Johan ter Poorten (ostra), usuário do Wikimedia Hectonichus (concha-de-pena, voluta), Bernd Hoffmann (argonauta), Samuel Chow (búzio), Frédéric Ducarme (turbante), H. Krisp (caracol-romano), usuário do wikimedia Esculapio (lapa), Matthieu Sontag (caramujo-verme).

6.4 Lithophyta (plantas-pedra), compostos, crescendo em uma base sólida: Tubipora (corais-órgãos), Millepora (corais-de-fogo), Madrepora (corais-de-predra e algas Acetabularia).

Três espécies listadas por Linnaeus em Lithophyta (da esquerda para a direita): coral-órgão (T

Três espécies listadas por Linnaeus em Lithophyta (da esquerda para a direita): coral-órgão (Tubipora musica), gengibre-do-mar (Millepora alcicornis), coral-ziguezague (Madrepora oculata). Créditos a Aaron Gustafson (coral-órgão), Nick Hobgood (gengibre-do-mar), NOA,, U. S.’ National Oceanic and Atmospheric Administration (coral-ziguezague).

6.5 Zoophyta (plantas-animais), crescendo como plantas, com pétalas animadas: Isis (corais-bambus), Gorgonia (leques-do-mar), Alcyonium (corais-moles), Tubularia (corais-canos), Eschara (briozoários e algas-vermelhas), Corallina (algas coralinas), Sertularia (briozoários e hidrozoários), Hydra (hidras, ciliados e rotíferos), Pennatula (penas-do-mar), Taenia (solitárias), Volvox (algas volvox e amebas).

Algumas espécies na ordem Zoophyta de Linnaeus era (da esquerda para a direita, de cima para baixo): o leque-do-mar-de-Vênus (

Algumas espécies na ordem Zoophyta de Linnaeus era (da esquerda para a direita, de cima para baixo): o leque-do-mar-de-Vênus (Gorgonia flabellum), os dedos-de-morto (Alcyonium digitatum), o hidroide-cano-de-aveia (Tubullaria indivisa), o briozoário-folhoso (Eschara foliacea, agora Flustra foliacea), a alga-coral (Corallina officinalis), o rabo-de-esquilo (Sertularia argentea), a vorticela-de-sulco (Hydra convallaria, agora Vorticella convalaria), a pena-do-mar-fosforescente  (Pennatula phosphorea), a solitária-do-porco (Taenia solium), e o volvox-globo. Créditos a Greg Grimes (leque-do-mar), Bengt Littorin (dedos-de-morto), Bernard Picton (hidroide-cano, pena-do-mar), biopix.com (briozoário), Lovell e Libby Langstroth (alga-coral), National Museums Northern Ireland (cauda-de-esquilo), D. J. Patterson (vorticella e volvox), Public Health Image Library (solitária).

Linnaeus pode ter cometido alguns erros classificando mamíferos, aves, anfíbios, peixes e insetos, mas nada se compara à bagunça que era sua classe Vermes. Ela incluía animais de muitos filos diferentes e até mesmo algas verdes e vermelhas! Às vezes o mesmo gênero incluía tanto animais quanto plantas.

E isso conclui nossa apresentação dos animais na edição de 1758 do Systema Naturae de Linnaeus.

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Referências:

Linnaeus. 1758. Systema Naturae per Regna Tria Naturae…

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Furia infernalis, um parasita lendário

por Piter Kehoma Boll

O ano era 1728. O jovem naturalista Carl Linnaeus estava explorando alguns banhados nas vizinhanças de Lund, Suécia, em busca de espécimes botânicos. Subitamente ele foi ferido por algo que foi sentido como um dardo súbito atingindo a pele. Linnaeus deduziu que a causa era um pequeno e fino verme que se enterrou fundo e rapidamente na carne, de forma que foi impossível tentar extraí-lo. O ferimento causou uma inflamação tão severa que sua vida ficou em perigo. Ele se recuperou, é claro, mas ficou tão profundamente impressionado pela experiência que deu um nome ao suposto animal, Furia infernalis, a fúria do inferno, e a introduziu em seu famoso Systema Naturae.

Vários naturalistas continuaram a espalhar a ideia da existência de tal animal e vários trabalhos tratando da criatura foram publicados por cientistas muito respeitados. O animal foi descrito como sendo um verme acinzentado da espessura de um fio de cabelo com extremidades negras que habita locais de banhado e se atira como um dardo sobre as partes expostas do corpo de humanos e outros animais que estejam em seu alcance. Os tormentos causados pelo verme depois de se enterrar rapidamente na carne eram tão excruciantes que levavam a vítima a um estado de loucura e fúria selvagem.

A Furia infernalis supostamente se parecia com algo assim.

A Furia infernalis supostamente se parecia com algo assim.

A ideia da existência de tal criatura logo ficou estabelecida na mente das pessoas. O animal supostamente vivia apenas na Escandinávia oriental e talvez na Rússia e nos países bálticos, mas não acontecia mais ao sul e nem na Noruega. Até mesmo alguns tratamentos médicos para curar a infecção foram publicados.

Um Linnaeus mais velho, mais sábio e com mais experiência, muitos anos depois, alterou sua opinião sobre a criatura. Ele admitiu que possivelmente foi levado a um erro em relação à natureza ou mesmo à existência da criatura e a considerou ser inteiramente fictícia. No entanto já era tarde demais. Novos casos de ataques continuaram a aparecer e o verme parecia ser um perigo especial para renas. Relatos sobre manadas inteiras de renas sendo mortas pela criatura eram tão frequentes que a compra de animais da suécia foi totalmente proibida durante os períodos em que a doença era registrada frequentemente.

Apesar de todo o alarme, ninguém nunca foi capaz de apresentar um espécime da criatura para validar sua existência. Em relação ao problema com as renas, descobriu-se posteriormente que era causado por larvas de cestódeos no cérebro, isto é, elas estavam afetadas por neurocisticercose.

Hoje em dia a Furia infernalis é considera um animal inteiramente fictício que pertence ao mundo da criptozoologia. Mas o que será que ferroou Linnaeus naquele banhado há três séculos?

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Referências:

Linnaeus, C. 1758. Systema Naturae per Regna Tria Naturae…

Brooke, A. C. 1827. On the Furia infernalis. Edinburgh New Philosophical Journal3: 39-43.

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A história da Sistemática: Animais no Systema Naturae, 1758 (parte 3)

por Piter Kehoma Boll

Esta é a terceira parte desta série de postagens. Veja aqui parte 1parte 2 e parte 4.

Nesta postagem apresentarei uma só classe: Insecta. Naquele tempo, porém, Insecta incluía não somente o que chamamos de insetos hoje, mas todos os artrópodes.

5. Insecta (Insetos)

Coração com um ventrículo e uma aurícula; pus frio.
Espiráculos: poros nas laterais do corpo.
Mandíbulas laterais.
Pênis entrando.
Sentidos: língua, olhos, antenas na cabeça sem cérebro (sem orelhas e narinas).
Cobertura: pele óssea armada para sustento.
Suporte: pés, em alguns asas.

Insetos foram classificados de acordo com o número e o aspecto das asas e incluía 7 ordens: Coleoptera, Hemiptera, Lepidoptera, Neuroptera, Hymenoptera, Diptera e Aptera.

5.1 Coleoptera (asas de estojo), com quatro asas, as anteriores completamente enrijecidas: Scarabaeus (escaravelhos), Dermestes (besouros-de-couro), Hister (besouros-palhaço), Attelabus (enrola-folhas), Curculio (gorgulhos), Silpha (besouros-carniceiros), Coccinella (joaninhas), Cassida (besouros-tartaruga), Chrysomela (besouros-das-folhas), Meloe (burrinhos), Tenebrio (besouros-da-farinha), Mordella (vira-flores), Staphylinus (besouros-de-casaco), Cerambyx (besouros-longicórnios), Leptura (besouros-longicórnios-das-flores), Cantharis (besouros-soldados, pirilampos), Elater (besouros-estaladores), Cicindela (besouros-tigre), Buprestis (besouros-joia), Dytiscus (carochas-d’água), Carabus (besouros-da-terra), Necydalis (besouros-vespa), Forficula (lacrainhas), Blatta (baratas), Gryllus (grilos, gafanhotos, louva-a-deuses, bichos-pau).

Espécies agrupadas por Linnaeus em Coleoptera (da esquerda para a direita, de cima para baixo): escaravelho-sagrado (

Espécies agrupadas por Linnaeus em Coleoptera (da esquerda para a direita, de cima para baixo): escaravelho-sagrado (Scarabaeus sacer), besouro-da-despensa (Dermestes lardarius), besouro-palhaço-de-quatro-manchas (Hister quadrimaculatus), enrola-folha-de-avelã (Attelabus coryli, atualmente Apoderus coryli), gorgulho-da-noz (Curculio nucum), besouro-carniceiro-escuro (Silpha obscura), joaninha-de-sete-pontos (Coccinella septempunctata), besouro-tartaruga-verde (Cassida viridis), besouro-do-choupo-vermelho (Chrysomela populi), burrinho-preto (Meloe proscarabaeus), besouro-da-farinha (Tenebrio molitor), vira-flor-pontudo (Mordella aculeata), besouro-de-casaco-de-asa-vermelha (Staphylinus eruthropterus), besouro-capricórnio-grande (Cerambyx cerdo), besouro-longicórnio-das-flores-listrado (Leptura quadrifasciata), besouro-soldado-fosco (Cantharis fusca), besouro-estalador-vermelho (Elater ferrugineus), besouro-tigre-verde (Cicindela campestris), besouro-joia-de-oito-pontos (Buprestis octoguttata), carocha-d’água-larga (Dytiscus latissimus), besouro-da-terra-duro (Carabus coriaceus), besouro-vespa-grande (Necydalis major), lacrainha-europeia (Forficula auricularia), barata-comum (Blatta orientalis) e grilo-comum (Gryllus campestris). Créditos ao usuário do Wikipedia Sarefo (escaravelho), Guttormm Flatab (besouro-da-despensa), Didier Descouens (besouro-palhaço, vira-flor), entomar [www.entomart.be] (enrola-folha, gorgulho, besouro-tartaruga), Dominik Stodulski (joaninha), usuário do Wikipedia Quarl (besouro-do-choupo, besouro-longicórnio-das-flores), Václav Hanzlík (besouro-de-casaco), Franz Xaver (besouro capricórnio), James K. Lindsey (besouro-soldado), Stanislav Krejčik (besouro-estalador), Olaf Leillinger (besouro-tigre), Biopix [www.biopix.com] (carocha-d’água), Gyorgy Csoka (besouro-vespa), Miroslav Deml (lacrainha), K Schneider (barata), Gilles San Martin (grilo).

5.2 Hemiptera (meias-asas): com quatro asas, as anteriores parcialmente enrijecidas: Cicada (cigarras), Notonecta (notonectas), Nepa (escorpiões-d’água), Cimex (percevejos), Aphis (pulgões), Chermes (pulgões-peludos), Coccus (cochonilhas), Thrips (tripes).

A ordem Hemiptera de Linnaeus incluía as seguintes espécies (da esquerda para a direita, de cima para baixo: cigarra-do-freixo (

A ordem Hemiptera de Linnaeus incluía as seguintes espécies (da esquerda para a direita, de cima para baixo: cigarra-do-freixo (Cicada orni), notonecta-comum (Notonecta glauca), escorpião-d’água-comum (Nepa cinerea), percevejo-da-cama-comum (Cimex lectularius), besouro-do-sabugueiro (Aphis sambuci), aldegídeo-da-galha-abacaxi (Chermes abietis, atualmente Adelges abietis), cochinilha-mole-marrom (Coccus hesperidum), tripes-do-dente-de-leão (Thrips physapus). Créditos ao usuário do Wikimedia Hectonichus (cigarra), Holger Gröschl (notonecta), usuário do Wikimedia XenonX3 (escorpião-d’água), James K. Lindsey (pulhão), Magne Flåten (aldegídeo), Whitney Cranshaw (cochonilha), thrips.w.interjowo.pl (tripes).

5.3 Lepidoptera (asas escamosas), com quatro asas escamosas: Papilio (borboletas), Phalaena (mariposas), Sphinx (mariposas-esfinge).

Entre as espécies postas por Linnaeus em Lepidoptera estavam (da esquerda para a direita): rabo-de-andorinha-Páris (

Entre as espécies postas por Linnaeus em Lepidoptera estavam (da esquerda para a direita): rabo-de-andorinha-Páris (Papilio paris), mariposa-gótica (Phalaena typica, agora Naenia typica), e mariposa-esfinge-do-ligustro (Sphinx ligustri). Créditos a usuário do Wikimedia Peellden (rabo-de-andorinha), Danny Chapman (mariposa-gótica) e usuário do Wikimedia Jdiemer (mariposa-esfinge).

5.4 Neuroptera (asas com nervuras), com quatro asas membranosas e um abdome não armado: Libellula (libélulas), Ephemera (efêmeras), Phrygaena (moscas-d’água), Hemerobius (asas-de-laço, formigas-leão, amieiras), Panorpa (moscas-escorpião), Raphidia (agulhinhas).

A ordem Neuroptera de Linnaeus incluída (da esquerda para a direita, de cima para baixo) a libélula-caçadora-de-quatro-manchas (

A ordem Neuroptera de Linnaeus incluída (da esquerda para a direita, de cima para baixo) a libélula-caçadora-de-quatro-manchas (Libellula quadrimaculata), a efêmera-comum (Ephemera vulgata), a mosca-d’água-maior (Phrygaena grandis), a asa-de-laço-marrom-comum (Hemerobius humulinus), a mosca-escorpião-comum (Panorpa communis), e a agulhinha-comum (Raphidia ophiopsis). Créditos ao usuário do Wikimedia Bj.schoenmakers (efêmera), Donald Hobern (mosca-d’água), usuário do Wikimedia AfroBrazilian (asa-de-laço), André Karwath (mosca-escorpião).

5.5 Hymenoptera (asas membranosas), com quatro asas membranosas e uma cauda armada: Cynips (vespas-da-galha), Tenthredo (moscas-serra), Ichneumon (vespas-parasitoides), Sphex (vespas-oleiras, vespas-cavadoras), Vespa (vespas e marimbondos), Apis (abelhas), Formica (formigas), Mutilla (formigas-de-veludo).

1758Linnaeus_hymenoptera

A ordem Hymenoptera de Linnaeus incluía (da esquerda para a direita, de cima para baixo) a vespa-da-galha-comum (Cynips quercusfolii), a mosca-serra-da-escrofulária (Tenthredo scrophulariae), vespa-parasitoide-comum (Ichneumon sarcitorius), vespa-oleira-sul-americana (Sphex argillacea, agora Zeta argillaceum), vespa-europeia (Vespa crabro), abelha-europeia (Apis mellifera), formiga-vermelha (Formicca rufa), e formiga-de-veludo-europeia (Mutilla europaea). Créditos ao usuário do Wikimedia Wofl (vespa-da-galha), James K. Lindsey (vespa-serra, vespa-parasitoide), Sean McCann (vespa-oleira), usuário do Wikimedia Flugwapsch62 (vespa), Böhringer Friedrich (abelha), Adam Opioła (formiga), Valter Jacinto (formiga-de-veludo).

5.6 Diptera (duas asas), com duas asas: Oestrus (moscas-do-berne), Tipula (mosquitões e mosquitinhos), Musca (moscas-domésticas, varejeiras, moscas-das-flores), Tabanus (mutucas), Culex (mosquitos), Empis (moscas-dardo, moscas-dançarinas), Conops (moscas-cabeçudas), Asilus (moscas-raptoras), Bombylius (moscas-abelha), Hippobosca (moscas-piolho).

Em Diptera, Linnaeus incluiu

Em Diptera, Linnaeus incluiu a mosca-do-berne-da-ovelha (Oestrus ovis), o mosquitão-de-jardim (Tipula hortorum), a mosca-doméstica (Musca domestica), a mutuca-do-boi (Tabanus bovinus), o mosquito-comum (Culex pipiens), a mosca-dançarina-do-norte (Empis borealis), a mosca-cabeçuda-amarela (Conops flavipes), a mosca-raptora-vespa (Asilus cabroniformis), a mosca-abelha-grande (Bombylius major) e a mosca-da-floresta (Hippobosca equina). Créditos ao usuário picotverd do diptera.info (mosca-do-berne), James K. Lindsey (mosquitão, mutuca, mosca-dançarina), Kamran Iftikhar (mosca-doméstica), David Barillet-Portal (mosquito), Martin Harvey (mosca-raptora), Richard Bartz (mosca-abelha) e usuário do Wikimedia Janswart (mosca-da-floresta).

5.7 Aptera (sem asas), sem asas: Lepisma (traças-dos-livros), Podura (rabos-de-mola), Termes (cupins e piolhos-da-cortiça), Pediculus (piolhos), Pulex (pulgas), Acarus (ácaros e carrapatos), Phalangium (opiliões, amblipígios e escorpiões-vinagre), Aranea (aranhas), Scorpio (escorpiões), Cancer (caranguejos, lagostas, camarões), Monoculus (camarões-girino, pulgas-d’água, caranguejos-ferradura), Oniscus (tatuzinhos-de-jardim), Scolopendra (centopeias), Julus (piolhos-de-cobra).

A bagunçada ordem Aptera incluía (da esquerda para a direita, de cima para baixo) a traça-dos-livros (

A bagunçada ordem Aptera incluía (da esquerda para a direita, de cima para baixo) a traça-dos-livros (Lepisma saccharina), o rabo-de-mola-aquático (Podura aquatica), o trogiídeo-pálido-maior (Termes pulsatorium, agora Trogium pulsatorium), o piolho-da-cabeça (Pediculus humanus), a pulga-humana (Pulex irritans), o ácaro-da-farinha (Acarus siro), o opilião-comum (Phalangium opilio), a aranha-de-jardim-angular (Aranea angulata, agora Araneus angulatus), o escorpião-de-garras-grandes (Scorpio maurus), a caranguejola (Cancer pagurus), o camarão-girino-comum (Monoculus apus, agora Lepidurus apus), o tatuzinho-de-jardim-comum (Oniscus asellus), a centopeia-gigante-da-Amazônia (Scolopendra gigantea), e o piolho-de-cobra-comum (Julus terrestris). Créditos para Christian Fischer (traça, rabo-de-mola), Josef Reischig (piolho), Michael Wunderli (pulga), Joel Mills (ácaro), Didier Descouens (opilião), Thomas Kraft (aranha), Guy Haimovitch (escorpião), Hans Hillewaert (caranguejola), Christian Fischer (camarão-girino), Fritz Geller-Grimm (tatuzinho-de-jardim), Katka Nemčoková (centopeia), Carmen Juaréz/Pedro do Rego (piolho-de-cobra).

Como pode-se perceber, Linnaeus era bem competente em classificar himenópteros, dípteros e lepidópteros. Suas ordens Coleoptera e Hemiptera também não eram tão ruins. Neuroptera era um pouco bagunçada, mas nada se compara a Aptera, onde ele pôs tudo que não tinha asas, de traças a aranhas, caranguejos e piolhos-de-cobra! É incrível como ele era acurado com certos grupos e um desastre completo com outros.

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Referências:

Linnaeus, C. 1758. Systema Naturae per regna tria naturae…

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A fabulosa aventura taxonômica do gênero Geoplana

por Piter Kehoma Boll

Planárias aquáticas são animais relativamente bem conhecidos por seu formato de flecha e dois olhinhos vesgos fofos. Planárias terrestres estão longe de terem toda a fama de suas primas aquáticas e muitas pessoas sequer sabem que elas existem. Talvez em parte isso seja resultado de estudos mais aprofundados sobre o mundo natural terem se originado na Europa, um continente onde planárias terrestres quase não existem. O primeiro destes animaizinhos a ser conhecido foi descrito em 1774 pelo naturalista dinamarquês Otto Friedrich Müller. Ele chamou o pequeno verme de Fasciola terrestris, pois pensou que se tratava de uma versão terrestre do verme parasita. Tratava-se de um pequeno verme cilíndrico, de dorso escuro e dois pequenos olhos na região anterior.

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Em 1788, o naturalista Johann Friedrich Gmelin transferiu a espécie para o gênero Planaria, descrito em 1776 por Müller. O verme agora se chamava, portanto, Planaria terrestris. O gênero, neste período, incluía tudo o que hoje se conhece como planária: vermes cuja boca se localiza no ventre, perto da região central do corpo. Provavelmente o termo se espalhou neste período e assim continua até hoje como um nome geral para estes animais.

Planaria_terrestris

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Planárias com muitos olhos foram transferidas em 1831 pelo naturalista Christian Gottfried Ehrenberg para um gênero novo, Polycelis. O termo significa “muitos pontos” e se refere aos pontos escuros que os olhos representam sobre o corpo.

Planaria_terrestris2

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Durante a viagem de Charles Darwin ao redor do mundo a bordo do Beagle, ele desembarcou na Mata Atlântica brasileira e encontrou várias espécies de planárias terrestres. Ele as classificou no gênero Planaria, mas salientou que formariam uma seção dentro do gênero pelo fato de serem terrestres, terem corpos mais convexos e muitas vezes com faixas coloridas. A primeira espécie nova listada por ele foi chamada de Planaria vaginuloides e foi coletada nas florestas do Rio de Janeiro. O epíteto vaginuloides foi escolhido porque Darwin as achou parecidas com lesmas do gênero Vaginulus.

Planaria_vaginuloides

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Um ano depois, em 1845, o naturalista Émile Blanchard encontrou uma espécie no Chile e a chamou de Polycladus gayi. O nome do gênero, Polycladus, faz referência ao intestino muito ramificado destes animais, enquanto o epíteto gayi homenageia o naturalista Claudio Gay. Só que Blanchard cometeu um erro grave: ele confundiu as extremidades anterior e posterior do animal e assim pensou que a abertura genital se encontrava na frente da boca!

Polycladus_gayi

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Em 1850, o naturalista Karl Moriz Diesing transferiu as planárias terrestres de Darwin para o gênero Polycelis pelo fato de elas possuírem vários olhos. Planaria vaginuloides agora era Polycelis vaginuloides.

Polycelis_vaginuloides

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Em 1851 o zoólogo Joseph Leidy encontrou outra espécie de planária terrestre na Europa, também pequena, cilíndrica e com dois olhos. Ele a chamou de Rhynchodemus sylvaticus. O termo Rhynchodemus significa algo como “corpo em forma de bico”. Ele sugeriu também a transferência de Planaria terrestris para o novo gênero, passando então a ser Rhynchodemus terrestris. As espécies de Darwin e Blanchard seguiram como Polycelis e Polycladus.

Rhynchodemus

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Então em 1857 uma coisa engraçada aconteceu: Uma nova revisão de planárias foi feita por William Stimpson. Ele, pela primeira vez, separou as planárias terrestres das aquáticas e as dividiu em duas famílias:

  1. Polycladidae: compreendendo apenas o gênero Polycladus pelo fato de ainda se pensar, nesta época, que o orifício genital ficava antes da boca.
  2. Geoplanidae: com o resto das planárias terrestres. As espécies nesta família foram divididas em três gêneros:
  • Rhynchodemus: espécies com dois olhos;
  • Bipalium: um gênero para espécies recentemente descobertas que possuem a cabeça em forma de meia-lua ou martelo. O nome vem do latim bi-, dois e pala, pá.
  • Geoplana: espécies com vários olhos. A palavra veio de uma junção de geo, terra e plana, pelo formato plano destes bichos, além de uma referência direta ao gênero Planaria, agora restrito a espécies aquáticas. A espécie Polycelis vaginuloides se tornou Geoplana vaginuloides. Chegamos, assim, ao gênero central desta história.
Geoplana_vaginuloides1

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Por uma coincidência gigantesca, neste mesmo ano de 1857, o naturalista Max Schultze, baseado em informações da literatura e das novas espécies coletadas no Brasil pelo naturalista Fritz Müller, também decidiu separar as planárias terrestres em outro gênero e também escolheu o nome Geoplana! Quais são as chances de isso acontecer? As publicações de Stimpson e de Schultze tinha algumas semanas de diferença e tudo indica que Schultze não tinha conhecimento da publicação de Stimpson. A diferença principal entre as duas é que Schultze ignorava o conhecimento das espécies classificadas como Bipalium. Ele também transferiu todas as planárias terrestres para Geoplana, de forma que Polycladus gayi, Rhynchodemus sylvaticus e Rhynchodemus terrestris eram agora Geoplana gayi, Geoplana sylvatica e Geoplana terrestris.

Geoplana_vaginuloides2

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O sistema de Stimpson, no entanto, prevaleceu, e os quatro gêneros seguiram em uso: Rhynchodemus, Bipalium, Geoplana e Polycladus. Entre as espécies descritas por Schultze e Müller estava Geoplana subterranea, uma espécie albina e sem olhos encontrada dentro da terra, que se alimenta de minhocas. Em 1861, Diesing decidiu separar esta espécie num gênero próprio, Geobia. Tínhamos agora 5 gêneros: Rhynchodemus, Bipalium, Geoplana, Geobia, Polycladus.

Geobia

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Em 1877, Henry Nottidge Moseley descreveu uma série de espécies da Oceania e do sudeste asiático. Boa parte delas foram incluídas no gênero Geoplana, mas algumas delas foram por ele inseridas em dois novos gêneros:

  1. Dolichoplana (“plana comprida”): espécies bastante compridas e estreitas com dois olhos como em Rhynchodemus;
  2. Caenoplana (“plana recente”): espécies que ele considerou serem intermediárias entre Geoplana e Dolichoplana pelo corpo ser mais alongado e os numerosos olhos serem restritos às laterais do corpo.
Caenoplana

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Dez anos depois, em 1887, J. J. Fletcher e A. G. Hamilton estudaram planárias terrestres australianas e concluíram que não havia necessidade de as espécies chamadas de Caenoplana por Moseley formarem um gênero separado e as uniram a Geoplana.

Geoplana

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Durante a década seguinte, o naturalista Arthur Dendy descreveu diversas espécies novas da Austrália e da Nova Zelândia, classificando todas no gênero Geoplana. O gênero ia crescendo, passando a compreender dezenas de espécies. Nos últimos anos do século XIX, diversos gêneros novos foram criados, muitos deles pelos trabalhos do zoólogo Ludwig von Graff.  Estes gêneros novos foram criados para espécies que possuíam características bem peculiares da anatomia, como uma cabeça diferenciada, por exemplo. Mesmo assim, o gênero Geoplana continuava crescendo. Qualquer planária achatada com muitos olhos que não possuísse uma característica bem distinta era jogada neste gênero. Este sistema seguiu por boa parte do século XX. Dezenas de espécies novas foram descritas pela zoóloga Libbie Hyman e por dois casais de zoólogos: os Marcus – Ernst Marcus e Eveline du Bois-Reymond Marcus – e os Froehlich – Claudio Gilberto Froehlich e Eudóxia Maria Froehlich. Estas espécies novas foram em sua maioria incluídas em Geoplana. O gênero nesta época era amplamente distribuído na América do Sul e na Austrália.

Geoplana2

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Durante este tempo, E. M. Froehlich definiu que Geoplana vaginuloides seria a espécie-tipo do gênero Geoplana. Talvez você agora esteja se perguntando “que é uma espécie-tipo?”. Bem, em taxonomia, quando um gênero novo é criado, uma das espécies do gênero precisa ser considerada a espécie-tipo, que é a espécie “modelo” do gênero. É ela quem determina o que o gênero é. Uma vez que uma espécie se torna o tipo do gênero, ela não pode jamais passar para outro gênero, a não ser que o gênero inteiro deixe de existir. Afinal, ela é a espécie na qual a existência do gênero é baseada. Acontece que nos séculos XVIII e XIX não existia ainda essa política da espécie-tipo, a qual foi só posteriormente introduzida nas regras para a nomenclatura de organismos. Assim, Stimpson, ao criar o gênero Geoplana, não definiu uma espécie-tipo. E. M. Froehlich optou por definir Geoplana vaginuloides como a espécie-tipo porque era a primeira espécie na lista de Stimpson e a proposta foi aceita pela comunidade científica. Voltemos então ao assunto central. Como dito, o gênero Geoplana foi acumulando mais e mais espécies ao longo do século XX, tornando-se enorme. Então em 1990, os zoólogos Robert Ogren e Masaharu Kawakatsu decidiram pôr ordem na casa. Através de análises da anatomia interna das planárias, eles excluíram do gênero Geoplana todas as espécies da Oceania e proximidades, pois estas têm testículos localizados na região ventral do corpo, diferente das espécies da América do Sul, que os têm na região dorsal. Mesmo assim, deixar todo o pacote da América do Sul dentro de Geoplana ainda mantinha a bagunça. Assim, eles quebraram o gênero em vários gêneros menores. Os quatro gêneros principais foram definidos a partir de duas características do aparelho copulador: 1) Presença ou ausência de papila penial, isto é, pênis. Existem planárias que possuem pênis e outras que não possuem. 2) Posição dos ovidutos, isto é, os canais que levam os ovos dos ovários até uma cavidade chamada átrio feminino. Os ovidutos podem desembocar no átrio feminino pelo lado dorsal ou pelo lado ventral. A classificação destas duas características leva a quatro combinações possíveis:

  1. Espécies com papila penial e ovidutos desembocando dorsalmente. Estas espécies continuaram no gênero Geoplana, porque essa é a combinação que ocorre em Geoplana vaginuloides.
  2. Espécies com papila penial e ovidutos desembocando ventralmente. Estas espécies passaram para o gênero Gigantea.
  3. Espécies sem papila penial e ovidutos desembocando dorsalmente. Estas foram chamadas de Notogynaphallia.
  4. Espécies sem papila penial e ovidutos desembocando ventralmente. O extremo oposto do que é encontrado em Geoplana, estas espécies passaram para um gênero chamado Pasipha.

Geoplana3

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As coisas estavam começando a ficar mais ordenadas. Apesar de ainda ter mais de cem espécies, o gênero Geoplana era um pouco mais homogêneo agora. Mas no início do século XXI, estudos mais detalhados da anatomia interna das planárias demonstraram que outras partes do corpo também tinham importância taxonômica. Além disso, estudos moleculares agora eram disponíveis e o gênero foi posto à prova na filogenia molecular. O resultado já esperado foi confirmado. Um estudo de filogenia molecular realizado por Fernando Carbayo e colaboradores em 2013 revelou que o gênero Geoplana como definido por Ogren e Kawakatsu se mantinha sendo uma bagunça. As espécies se separaram em diversos grupos que precisaram ganhar seus próprios gêneros. Estes gêneros novos saídos de Geoplana foram: Barreirana, Cratera, Matuxia, Obama e Paraba.

Geoplana4

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No final a espécie-tipo, Geoplana vaginuloides, ficou quase sozinha. A única outra espécie que se agrupou com ela foi Geoplana chita. O gênero Geoplana, outrora com centenas de espécies espalhadas pelo mundo inteiro, agora só tem duas espécies restritas à Mata Atlântica entre o Rio de Janeiro e o Paraná. E adivinhem qual destes gêneros novos ficou com a maior parte das espécies outrora em Geoplana?

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Obama

Yes, we can!

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Referências:

Carbayo, F.; Álvarez-Presas, M.; Olivares, C. T.; Marques, F. P. L.; Froehlich, E. M.; Riutort, M. 2013. Molecular phylogeny of the Geoplaninae (Platyhelminthes) challenges current classification: proposal of taxonomic actions. Zoologica Scripta, 42: 508-528.

Darwin, C. 1844. Brief description of several terrestrial planariae, and of some remarkable marine species, with an account of their habits. Annals and Magazine of Natural History, Annales de Sciences Naturelles, 14: 241-251.

Diesing. K. M. 1850. Systema helminthum. Academia Caesareae Scientiarium.

Fletcher, J. J.; Hamilton, A. G. 1887. Notes on Australian land-planarians, with descriptions of some new species. Part I. Proceedings of the Linnean Society of New South Wales, 2: 349-374.

Froehlich, E. M. 1955. Sôbre espécies brasileiras do gênero GeoplanaBoletim da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, Série Zoologia, 19: 289-339.

Gay, Claudio. 1849. Historia fisica y politica de Chile. Vol. 3.

Gmelin, O. F. 1788. Systema Naturae. Moseley, H. N. 1877. Notes on the structure of several forms of land planarians with a description of two new genera and several new species, and a list of all species at present known. Quarterly Journal of Microscopical Sciences, 17: 274-292.

Ogren, R.; Kawakatsu, M. 1990. Index to the species of the family Geoplanidae (Turbellaria, Tricladida, Terricola) Part I: Geoplaninae. Bulletin of Fuji Women’s College, 28: 79-166.

Schultze, M.; Müller, F. 1857. Beiträge zur Kenntnis der Landplanarien. Abhandlungen der Naturforschenden Gesellschaft zu Halle, 4: 61-74.

Stimpson, W. 1857. Prodromus descriptionis animalium evertebratorum quae in expeditione ad Oceanum, Pacificum Septentrionalem a Republica Federata missa Johanne Rodgers Duce, observavit et descripsit. Pars I. Turbellaria Dendrocoela. Proceedings of the Academy of Natural Sciences of Philadelphia, 19-31.

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O que na Terra é Leimacopsis terricola? Um mistério platelmíntico.

por Piter Kehoma Boll

Ah, os velhos tempos…

Os séculos XVIII e XIX foram bem marcados por expedições mundiais de naturalistas a bordo de navios viajando ao redor do mundo. Charles Darwin é certamente o mais famoso deles, mas ele não foi o único.

Um destes naturalistas foi Karl Ludwig Schmarda, nascido em 1819. Ele estudou em Viena e foi posteriormente um professor em Graz, Áustria. De 1853 a 1857, ele viajou ao redor do mundo investigando várias localidades e coletando primariamente invertebrados. Depois de seu retorno, ele publicou um trabalho entitulado Neue wirbellose Thiere beobachtet und gesammelt auf einer Reise um die Erde 1853 bis 1857 (Novos animais invertebrados observados e amostrados em uma viagem ao redor da Terra, 1853 a 1857).

Entre os incontáveis animais que ele descreveu havia um verme que ele chamou de Prostheceraeus terricola. A descrição é como segue:

Prostheceraeus terricola. Schmarda.
Taf. VI. Fig. 69.

Char. : Corpus oblongo-lanceolatum. Dorsum convexum viride. Fascia mediana et margo purpureus. Tentacula subuliformia.

Der Körper ist weniger flach als in andern Planarien, länglich, hinten lanzettförmig zugespitzt, vorne beinahe quer abgeschnitten. Die Fühler sind kurz und pfriemenförmig zugespitzt. Der Rücken ist stark convex, fast grasgrün, mit einer purpurrothen Längslinie nach seinem ganzen Verlaufe. Der Rand nicht wellenförmig, purpurroth gesäumt. Die Hauchfläche ist grünlichgrau. Die Länge 20mm, grösste Breite 5mm. Die Augen sind am innern Rande und der Basis der Fühler. Die Gruppe im Nacken, habe ich nicht beobachtet. Die Mundöffnung ist im vordern Drittel. Die Geschlechtsöffnungen habe ich nicht aufgefunden.
Der Grund meiner unvollständigen Kenntniss dieser Thierform ist der Umstand, dass ich nur ein Exemplar in dem obern Theile des Quindiu-Passes ober der Region der Bergpalmen gefunden hatte, welches ich in Gallego skizzirte, das aber schon zu Grunde gegangen war, als ich es in meiner Abendstation in Tocho einer wiederholten nähern Prüfung unterziehen wollte.

Em português:

Corpo oblongo-lanceolado. Dorso convexo verde. Listras mediana e marginais roxas. Tentáculos em forma de furador.

O corpo é menos achatado que em outras planárias, alongado, atrás pontudo e lanceolado, na frente quase transversalmente cortado. Os sensores são curtos e em formato de furador. O dorso é fortemente convexo, quase verde-grama com uma linha roxa correndo completamente ao longo dele. Margem não ondulada e colorida de roxo. A superfície ventral é cinza esverdeado. Comprimento de 20 mm, largura máxima 5 mm. Os olhos são na borda interna e na base dos sensores. O grupo no pescoço em não observei. A abertura da boca é no terço anterior. A abertura sexual eu não encontrei.
A razão do meu conhecimento incompleto desta forma animal é devido à circunstância de encontrar apenas um espécime na parte superior da passagem Quindiu acima da região das palmeiras das montanhas, o qual rascunhei em Gallego, visto que ele já estava se deteriorando, para fazer uma revisão ao voltar para a estação em Tocho.

Aqui você pode ver um desenho do animal:

Desenho de Prostheceraeus terricola por Schmarda, 1859

Desenho de Prostheceraeus terricola por Schmarda, 1859

Schmarda pôs outros vermes no mesmo gênero, todos eles marinhos. O gênero é válido até hoje para espécies marinhas e elas são classificadas como pertencendo a Polycladida, aqueles belos platelmintos marinhos.

De fato, este animal na verdade se parece um pouco com um policladido, mas Schmarda o encontrou no topo das montanhas! Isso é bem incomum, e infelizmente ele encontrou somente um espécime.

Prostheceraeus giesbrechtii, outra espécie descrita por Schmarda (1859). Foto de Parent Géry.

Prostheceraeus giesbrechtii, outra espécie descrita por Schmarda (1859). Foto de Parent Géry.

Mais tarde, em 1862, K. M. Diesing fez uma revisão de turbelários e definiu que, como a criatura vivia na terra, ela certamente era uma coisa diferente de um policladido e a mudou para um novo gênero que ele chamou de Leimacopsis (semelhante a lesma):

XVIII. LEIMACOPSIS DIESING.
Prostheceraei spec. Schmarda.

Corpus elongato-lanceolatum, supra convexum. Caput corpore continuum antice truncatum, tentaculis duobus genuinis frontalibus. Ocelli numerosi tentaculorum. Os ventrale antrorsum situm, oesophago… Apertura genitalis. . . Terrestres, Americae tropicae.

1. Leimacopsis terricola DIESING.
Corpus elongato-lanceolatum, supra convexum, viride, vitta mediana corpori aequilonga et marginibus haud undulatis purpureis, subtus viridi-cinereum. Tentacula subuliformia, brevia. Ocelli ad marginem internum et ad basim tentaculorum. Os in anteriore corporis tertia parte. Longit. 10′”, latit. 2 1/3 “.
Prostheceraeus terricola Schmarda: Neue wirbell. Th. I. 1. 30. Tab. VI. 69.
Habitaculum. In parte superiore transitus Andium Quindiu, supra regionem Palmarum montanarum (Bergpalmen), specimen unicum (Schmarda).

É basicamente uma repetição da descrição de Schmarda e baseada somente nela. Parece que mais nenhum outro espécime fora encontrado até este tempo.

Anos mais tarde, em 1877, H. N. Moseley publicou um catálogo de todas as planárias terrestres conhecidas até o momento. Ele incluiu Leimacopsis terricola com a seguinte descrição:

Family. — Leimacopsidæ, Diesing.

Genus Leimacopsis. — Diesing, Revision der Turbellarien, Abtheilung Dendrocoelen, Sitzbt. Akad. Wiss., Wien, 1861, p. 488.
Leimacopsis terricola.—Diesing, 1. c.
Prostheraceus terricola. — Schmarda, ‘Neue Wirbellose Thiere,’ Th. 1, 1—30, Tab. VI, fig. 69.
With a pair of true frontal tentacles beset with numerous eyes. Occurs high up in the Andes at the pass of Quindiu, above the region of mountain palms.

Como pode-se ver, é novamente uma simples repetição da descrição de Schmarda baseada naquele único espécie de 20 anos antes, mas a partir de Diesing o animal passou a ser considerado uma planária terrestre em vez de um policladido.

Depois em 1899, Ludwig von Graff publicou sua grande monografia dos turbelários e eu estou certo de ter visto algo sobre Leimacopsis lá. Infelizmente nunca encontrei uma versão digital e não tenho uma cópia física de fácil acesso, mas de acordo com Ogren (1992), é só uma repetição de Schmarda. Graff, contudo, trocou a ortografia para Limacopsis, mas isso não é válido de acordo com o Código Internacional de Nomenclatura Zoológica.

Em 1914, finalmente um novo artigo, por O. Fuhrmann, foi publicado sobre planárias terrestres da Colômbia. Ele começa comentando que havia somente três espécies conhecidas para o país para esse momento, um deles sendo Limacopsis [sic] terricola. Contudo a espécie não foi encontrada de novo nessa ocasião…

Os anos se passaram e nada mudou. Em 1991, Ogren & Kawakatsu, em parte de seu índice de espécies de planárias terrestres, comentam que vários pesquisadores, incluindo E. M. Froehlich e L. H. Hyman, consideravam Leimacopsis terricola como sendo possivelmente uma lesma.

Em 1992, Robert Ogren escreveu uma revisão excelente desta espécie, a qual apresenta toda a informação que dei aqui e muito mais. Ele concluiu que o organismo é uma species inquerenda (que necessita de mais investigação) e nomen dubium (nome duvidoso). Não é possível considerar o animal nem como planária nem como molusco, ou qualquer outra coisa devido à falta de informação. Ogren o considerou como “claramente pertencendo ao mundo da criptozoologia”.

Como podemos ver, os criptídeos não precisam ser animais grandes como dinossauros ou pés-grandes. Mesmo pequenos vermes parecidos com lesmas dos Andes podem servir.

Leimacopsis terricola é certamente um organismo interessante. O que ele era realmente? Ele era real? Talvez uma pesquisa extensiva na árvore pudesse revelar algo… ou não. Vamos esperar… ou quem sabe… que tal ir para uma aventura na região andina colombiana em busca desta misteriosa criatura?

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Referências:

Diesing, K. M. 1862. Revision der Turbellarien. Abtheilung: Dendrocoelen. Keiserlich-Königlichen Hof- und Staatsdruckerei DOI: 10.5962/bhl.title.2108

Fuhrmann, O. 1914. Planaires terrestres de Colombie. In: Fuhrmann & Mayor (eds.) Voyage d’Exploration Scientifique en Colombie. Mémoires de la Société des sciences naturelles de Neuchâtel, 5 (2), 748-792

Moseley, H. 1874. On the Anatomy and Histology of the Land-Planarians of Ceylon, with Some Account of Their Habits, and a Description of Two New Species, and with Notes on the Anatomy of Some European Aquatic Species. Philosophical Transactions of the Royal Society of London, 164, 105-171 DOI: 10.1098/rstl.1874.0005

Ogren, R. E. 1992. The systematic position of the cryptic land organism, Leimacopsis terricola (Schmarda, 1859)(olim Prostheceraeus)(Platyhelminthes). Journal of The Pennsylvania Academy of Science, 66 (3), 128-134

Ogren, R. E. & Kawakatsu, M. 1991. Index to the species of the family Geoplanidae (Turbellaria, Tricladida, Terricola) Part II: Caenoplaninae and Pelmatoplaninae. Bulletin of Fuji Women’s College, 29, 35-58

Schmarda, L. K. 1859. Thiere beobachtet und gesammelt auf einer Reise um die Erde 1853 bis 1857. Lepizig: W. Engelmann. DOI: 10.5962/bhl.title.14426

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Sexta Selvagem: Fungo-Dente-Sangrento

por Piter Kehoma Boll

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Nossa espécie hoje é um belo fungo, Hydnellum peckii, o fungo-dente-sangrento. Ele foi descrito em 1913 por Howard J. Banker e nomeado em homenagem ao botânico C. H. Peck que o coletou em North Elba, Nova Iorque.

Sendo um cogumelo, sua parte visível é composta por seus corpos de frutificação que podem crescer a uma altura de até 10,5 cm. Quando úmidos, estes corpos de frutificação exsudam um suco vermelho, dando ao cogumelo sua bela aparência e seu nome comum. Encontrado ao longo da maior parte da América do Norte, bem como na Eurásia, ele cresce do solo e geralmente está associado com coníferas da família Pinaceae, como os gêneros Pinus, Picea, Tsuga, PseudotsugaAbies.

Espécime jovem de Hydnellum peckii. Foto do usuário da Wikipedia, Bernypisa.
Espécime jovem de Hydnellum peckii. Foto do usuário da Wikipedia, Bernypisa.

Apesar de não ser tóxico, ele possui um sabor tão amargo que se torna não-comestível. De qualquer maneira não seria bom comê-lo, visto que ele acumula o elemento pesado Césio-137 em seu micélio.

H. peckii revelou possuir atromentina, um anticoagulante efetivo similar à heparina que também possui atividade antibacteriana contra a bactéria Streptococcus pneumoniae, inibindo uma enzima essencial para a biossíntese de seus ácidos graxos. Outros usos da atromentina incluem um estimulante para a musculatura lisa e um indutor de apoptose em células U937 de leucemia.

Não somente bonito, ele também é muito útil para propósitos médicos e ecológicos.

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Referências:

Banker, H. J. 1913. Type Studies in the Hydnaceae: V. The Genus Hydnellum. Mycologia, 5 (4), 194-205 DOI:10.2307/3753385

Shiryaev, A. 2008. Diversity and distribution of thelephoroid fungi (Basidiomycota, Thelephorales) in the Sverdlovsk region, Russia. Folia Cryptogamica Estonica, 44, 131-141

Vinichuk, M. M.; Johanson, K. J. & Taylor, A. F. S. 2004. 137Cs in the fungal compartment of Swedish forest soils Science of The Total Environment, 323, 243-251 DOI: 10.1016/j.scitotenv.2003.10.009

Wikipedia. Hydnellum peckii. Available online at <http://en.wikipedia.org/wiki/Hydnellum_peckii>. Access on August 10, 2012.

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