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Ter poucas fêmeas transforma jabutis machos em estupradores

por Piter Kehoma Boll

A guerra entre os sexos e os infindáveis conflitos que resultam disso são um tema comum em pesquisa comportamental e evolutiva e já  foi discutida aqui várias vezes.

Como sabemos bem, até mesmo por exemplos de nossa própria espécie, os machos raramente são bons pais, estando mais interessados em produzir tantos descendentes quanto possível com pouco esforço. As fêmeas, por outro lado, devido ao seu grande investimento em ovos (e geralmente outros recursos para a prole) são mais seletivas e não aceitam qualquer macho para acasalar.

Uma das soluções mais comuns para machos resolverem este conflito sexual é por copulação forçada, ou estupro como é chamado quando acontece com a nossa espécie. Às vezes essa copulação forçada é extrema, com machos deixando as fêmeas muito machucadas para fazê-las se renderem. Uma destas espécies violentas é o jabuti-de-Hermann, Testudo hermanni, um jabuti encontrado pelas áreas mediterrâneas da Europa.

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“Vou te dar um trato, sua safada!”. Esta foto de um macho jovem tentando montar numa fêmea adulta pode parecer engraçada, mas o sexo não é divertido para jabutis fêmeas. Foto do usuário Palauenco5 do Wikimedia.*

Copulação forçada é muito mais comum em espécies em que os machos são maiores e mais fortes que as fêmeas. Este não é o caso com jabutis, mas os machos de jabuti-de-Hermann encontraram uma forma de lidar com isso. Eles perseguem as fêmeas, às vezes por horas, empurrando-as, mordendo-as, às vezes ao ponto de fazê-las sangrarem, e eventualmente as pobres fêmeas se entregam. Também é comum que os machos “estimulem” a cloaca da fêmea com suas caudas pontudas, o que resulta numa cloaca inchada e às vezes em ferimentos sérios que deixam as fêmeas com cicatrizes e deformidades horríveis. Sim, não é uma face bonita da natureza.

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A cauda de um macho. Photo do usuário Bizarria do Wikimedia.**

Um estudo recente com duas populações de jabuti-de-Hermann na Macedônia revelou que a agressividade dos machos está relacionada com a disponibilidade de fêmeas. O grupo de pesquisadores estudou uma população em que a razão fêmea:macho era perto de 1:1 e outra com um número extremamente maior de machos ao ponto de haver uma fêmea para cada 17,5 machos.

Os resultados indicaram que na população mais balanceada a cópula forçada era menos comum e geralmente apenas fêmeas adultas apresentavam ferimentos causados por machos, enquanto que na população com mais machos a falta de fêmeas levou os machos a enlouquecerem ao ponto de forçar a cópula até com fêmeas imaturas. A situação como um todo é claramente maladaptativa, á que as fêmeas acabam feridas e os machos exaustos e nenhuma prole é gerada.

Eu só consigo ver duas saídas possíveis para uma população assim: ou fêmeas mais resistentes serão selecionadas ou a população vai se tornar extinta depois que todas as fêmeas morrerem por violência masculina.

Como podemos ver, conflito sexual é um desses efeitos colaterais deletérios que a seleção natural criou. Afinal ninguém é perfeito, nem mesmo as leis fundamentais da vida.

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Referência:

Golubović, A.; Arsovski, D.; Tomović, L.; Bonnet, X. (2018) Is sexual brutality maladaptive under high population density? Biological Journal of the Linnean Society 124(3): 394–402. https://doi.org/10.1093/biolinnean/bly057

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*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

**Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

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Arquivado em Comportamento, Evolução, Zoologia

A história da Sistemática: Animais no Systema Naturae (parte 2)

por Piter Kehoma Boll

Esta postagem é uma continuação de A história da Sistemática: Animais no Systema Naturae, 1758 (parte 1). Por isso assegure-se de ler a outra postagem primeiro!

Aqui falarei de outras duas classes na classificação de Linnaeus: Amphibia e Pisces. Confira as classes Mammalia e Aves na primeira parte,a classe Insecta na terceira e a classe Vermes na quarta.

3. Amphibia (Anfíbios)

Coração com um ventrículo e uma aurícula; sangue frio e vermelho.
Pulmões respirando arbitrariamente
Mandíbula incumbente.
Pênis duplo. Ovos em sua maioria membranáceos.
Sentidos: língua, narinas, olhos, muitos ouvidos.
Cobertura: coriácea, nua.
Suporte: variados, em alguns nenhum.

Os anfíbios eram classificados de acordo com a anatomia dos membros e incluíam três ordens: Reptiles, Serpentes e Nantes. Elas são mostradas abaixo com seus respectivos gêneros.

3.2 Reptiles (rastejantes), possuindo quatro patas: Testudo (tartarugas e jabutis), Draco (lagartos planadores), Lacerta (lagartos, salamandras e crocodilianos), Rana (rãs e sapos).

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Quatro espécies que Linnaeus pôs em Reptiles (da esquerda para a direita): tartaruga-grega (Testudo graeca), dragão-voador (Draco volans), lagarto-ágil (Lacerta agilis) e rã-comum (Rana temporaria). Créditos para Gisella D. (tartaruga), Charles J. Sharp (dragão-voador), Krzysztof Mizera (lagarto) e Monika Betley (rã).

3.2 Serpentes (arrastantes), sem membros: Crotalus (cascavéis), Boa (jiboias), Coluber (corredoras, víboras, najas, pítons), Anguis (cobras-de-vidro, jiboias-da-areia), Amphisbaena (cobras-de-duas-cabeças ou lagartos-vermes), Caecilia (cobras-cegas).

Seis espécies postas por Linnaeus em Serpentes (da esquerda para a direita, de cima para baixo): cascavel-dos-bosques (

Seis espécies postas por Linnaeus em Serpentes (da esquerda para a direita, de cima para baixo): cascavel-dos-bosques (Crotalus horridus), jiboia-constritora (Boa constrictor), corredora-azul (Coluber constrictor), licranço (Anguis fragilis), cobra-de-duas-cabeças-branca (Amphisbaena alba), cobra-cega-de-barba (Caecilia tentaculata). Créditos a Pavel Ševela (jiboia), usuário do Wikimedia Marek_bydg (licranço), Diogo B. Provete (cobra-de-duas-cabeças) e bio-scene.org (cobra-cega).

3.3 Nantes (natantes), tendo nadadeiras: Petromyzon (lampreias), Raja (raias), Squalus (tubarões), Chimaera (quimeras), Lophius (peixes-pescadores) e Acipenser (esturjões).

A ordem Nantes compreendia, entre outros (da esquerda para a direita, de cima para baixo), a lampreia-marinha (

A ordem Nantes compreendia, entre outros (da esquerda para a direita, de cima para baixo), a lampreia-marinha (Petromyzon marinus), a raia-de-dorso-espinhento (Raja clavata), a melga (Squalus acanthias), a quimera (Chimaera monstrosa), o peixe-pescador (Lophius piscatorius), e o esturjão (Acipenser sturio). Créditos a usuário do Wikimedia Fungus Guy (lampreia), usuário do Wikimedia Citron (quimera), usuário do Wikimedia Meocrisis (peixe-pescador) e usuário do flickr Aah-Yeah (esturjão).

4. Pisces (Peixes)

Coração com um ventrículo e uma aurícula; sangue vermelho e frio.
Brânquias externas, comprimidas.
Mandíbula incumbente.
Pênis ausente. Ovos sem albumina.
Sentidos: língua, narinas (?), olhos (sem ouvidos).
Cobertura: escamas imbricadas.
Suporte: nadadeiras.

Peixes incluíam 5 ordens, as quais eram definidas principalmente pela posição das nadadeiras ventrais em relação às peitorais: Apodes, Jugulares, Thoracici, Abdominales e Branchiostegi.

4.1 Apodes (sem pés), sem nadadeiras ventrais.: Muraena (enguias), Gymnotus (carapós), Trichiurus (peixes-alfanje), Anarhichas (peixes-lobo), Ammodytes (enguias-de-areia), Stromateus (peixes-manteiga), Xiphias (peixes-espada).

(Da esquerda para a direita, de cima para baixo) A moreia-mediterrânea (

(Da esquerda para a direita, de cima para baixo) A moreia-mediterrânea (Muraena helena), o carapó (Gymnotus carapo), o cauda-de-cabelo-cabeçudo (Trichiurus lepturus), o peixe-lobo (Anarhichas lupus), a enguia-de-areia-menor (Ammodytes tobianus), o peixe-manteiga-azul (Stromaeus fiatola) e o peixe-espada (Xiphias gladius) foram classificados como Apodes. Créditos a Tato Grasso (moreia), segrestfarms.com (carapó), Daizu Azuma (cauda-de-cabelo), usuário do Wikimedia Haplochromis (peixe-lobo) e Muhammad Moazzam Khan (peixe-espada).

4.2 Jugulares, nadadeiras ventrais à frente das peitorais: Callionymus (dragãozinhos e cabeças-chatas), Uranoscopus (contempladores-das-estrelas), Trachinus (peixes-aranha), Gadus (bacalhaus, eglefins etc), Blennius (blênios), Ophidion (brótulas, peixes-fita etc).

Seis espécies incluídas na ordem Jugulares (da esquerda para a direita, de cima para baixo): dragãozinho-comum (

Seis espécies incluídas na ordem Jugulares (da esquerda para a direita, de cima para baixo): dragãozinho-comum (Callionymus lyra), contemplador-das-estrelas-do-Atlântico (Uranoscopus scaber), peixe-aranha-maior (Trachinus draco), bacalhau-do-Atlântico (Gadus morhua), blênio-borboleta (Blennius ocellaris), peixe-cobrelo (Ophidion barbatum). Créditos a Hans Hillewaert (dragãozinho), Roberto Pillon (contemplador-das-estrelas), Hans-Petter Fjeld (bacalhau, CC-BY-SA), Gianni Neto (blênio), Steano Guerrieri (peixe-cobrelo).

4.3 Thoracici (torácicos), nadadeiras ventrais embaixo das peitorais: Cyclopterus (peixes-lapa), Echeneis (rêmoras), Coryphaena (dalfinhos e peixes-navalha), Gobius (cabozes), Cottus (alcabozes, cabeças-de-touro etc), Scorpaena (peixes-escorpião), Zeus (são-pedros, cabisbaixos etc), Pleuronectes (linguados), Chaetodon (peixes-borboleta, peixes-anjo, cirurgiões etc), Sparus (douradas, sargos etc), Labrus (bodiões, peixes-papagaio etc), Sciaena (corvinas, mordiscadores), Perca (percas, garoupas, tilápias), Gasterosteus (esgana-gatas, peixes-leão, peixes-piloto etc), Scomber (carapaus e atuns), Mullus (salmonetes), e Trigla (trilhas).

Dezessete espécies classificadas por Linnaeus como Thoracici (da esquerda para a direita, de cima para baixo):

Dezessete espécies classificadas por Linnaeus como Thoracici (da esquerda para a direita, de cima para baixo): peixe-lapa (Cyclopterus lumpus), chupa-tubarão (Echeneis naucrates), dalfino (Coryphaena equiselis), caboz-negro (Gobius niger), cabeça-de-touro-europeu (Cottus gobio), rascasso-vermelho (Scorpaena scrofa), são-pedro (Zeus faber), platilha (Pleuronectes platessa), peixe-borboleta-listrado (Chaetodon striatus), dourada (Sparus aurata), bodião-preto (Labrus merula), corvina-marrom (Sciaena umbra), perca-europeia (Perca fluviatilis), esgana-gata-de-três-espinhos (Gasterosteus aculeatus), sarda (Scomber scombrus), salmonete-da-vasa (Mullus barbatus) e trilha (Trigla lyra). Créditos a Simon Pierre Barrette (peixe-lapa), usuário do Wikimedia Wusel007 (chupa-tubarão), NOAA/FPIR Observer Program (dalfino), Stefano Guerrieri (caboz e bodião), Hans Hillewart (cabeça-de-touro), usuário do Wikimedia Elapied (racasso), usuário do Wikimedia Kleines.Opossum (são-pedro), usuário do Wikimedia Gargolla (platilha), Bernard E. Picton (peixe-borboleta), Roberto Pillon (dourada e salmonete), Albert Kok (corvina), usuário do Wikimedia Dgp.martin (perca), usuário do Wikimedia JaySo83 (esgana-gata), NOAA (sarda) e Massimiliano Marcelli (trilha).

4.4 Abdominales (abdominais), nadadeiras ventrais atrás das peitorais: Cobitis (verdemãs e quatro-olhos), Silurus (bagres), Loricaria (cascudos), Salmo (salmões, trutas, eperlanos etc), Fistularia (peixes-corneta), Esox (lúcios, gares, barracudas etc), Argentina (argentinas), Atherina (lados-de-pratas), Mugil (tainhas), Exocoetus (peixes-voadores), Polynemus (barbudos), Clupea (arenques, anchovas etc), e Cyprinus (carpas, peixes-dourados etc).

Treze espécies que eram parte da ordem Abdominales (da esquerda para a direita, de cima para baixo):

Treze espécies que eram parte da ordem Abdominales (da esquerda para a direita, de cima para baixo): verdemã (Cobitis taena), siluro (Silurus glanis), acari (Loricaria cataphracta), salmão-do-Atlântico (Salmo salar), peixe-corneta-de-manchas-azuis (Fistularia tabacaria), lúcio-do-norte (Esox lucius), argentina-europeia (Argentina sphyraena), lados-de-prata-do-Mediterrâneo (Atherina hepsetus), tainha-olhalvo (Mugil cephalus), peixe-voador-tropical-de-duas-asas (Exocoetus volitans), barbudo-do-paraíso (Polynemus paradiseus), arenque-do-atlântico (Clupea harengus), carpa-comum (Cyprinus carpio). Créditos para J. C. Harf (verdemã), Dieter Florian (siluro), Hans-Petter Fjeld (salmão), usuário do Wikimedia Jik jik (lúcio) Roberto Pillon (lado-de-prata e tainha), usuário do Wikimedia Kolisberg (peixe-voador), segrestfarms.com (barbudo) e usuário do Wikimedia Kils (arenque).

4.5 Branchiostegi, sem opérculos ou nadadeiras branquiais: Mormyrtus (peixes-elefante), Balistes (cangulos, peixes-atiradores), Ostracion (peixes-cofre, peixes-vaca), Tetraodon (baiacus e peixes-lua), Diodon (peixes-balão), Centriscus (apara-lápis), Syngnathus (peixes-cachimbo e cavalos-marinhos) e Pegasus (mariposas-marinhas).

As oito espécies mostradas acima eram todas parte da ordem Branchiostegi (da esquerda para a direita, de cima para baixo):

As oito espécies mostradas acima eram todas parte da ordem Branchiostegi (da esquerda para a direita, de cima para baixo): Mormyrus caschive, cangulo-rei (Balistes vetula), peixe-cofre-amarelo (Ostracion cubicus), baiacu-fahaka (Tetraodon lineatus), peixe-balão-de-nadadeira-manchada (Diodon hystrix), apara-lápis-de-escudo (Centriscus scutatus), peixe-cachimbo-comum (Syngnathus acus), e mariposa-marinha-de-cauda-longa (Pegasus volitans). Créditos para Johny Jensen (Mormyrus), James St. John (cangulo), usuário do flickr zsispeo (peixe-cofre), Reserva de la Biosfera Cabildo de Gran Canaria (peixe-balão), John E. Randall (apara-lápis e mariposa-marinha) e Hans Hillewaert (peixe-cachimbo).

Como pode-se perceber, a classificação de Linnaeus para anfíbios e peixes era ainda pior que a de mamíferos e aves, especialmente a classificação de anfíbios. Está claro que Linnaeus odiava o que ele chamou de anfíbios mais do que qualquer coisa. Ele os descreve como as piores criaturas, tendo uma aparência horrível, e agradecendo a Deus por não ter criado muitos deles.

Provavelmente uma das coisas mais bizarras é o fato de Linnaeus ter posto lagartos e crocodilos no mesmo gênero! Bem, se ele odiava “anfíbios” tanto assim, acho que ele não era muito familiarizado com sua anatomia.

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Referência:

Linnaeus, Carl. 1758. Systema Naturae per Regna Tria Nature…

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