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Sexta Selvagem: Vespa-da-Figueira-Lacerdinha

por Piter Kehoma Boll

Durante as últimas três semanas, apresentei uma figueira, a figueira-lacerdinha, uma lacerdinha que a parasita, a lacerdinha-da-figueira, e um ácaro que parasita a lacerdinha, o ácaro-da-lacerdinha-da-figueira. Todavia eu ainda não escrevi sobre uma das criaturas mais interessantes que interage com uma figueira: seu polinizador.

No caso da figueira-lacerdinha, seu polinizador é a vespa-de-figueira Eupristina verticillata, que decidi chamar de Vespa-da-Figueira-Lacerdinha. Como todas as vespas-de-figueira, esta espécie é muito pequena e completamente adaptada para viver com figos. Elas não podem sobreviver sem a espécie exata de figueira com que interagem, e a figueira em questão não pode sobreviver sem a espécie exata de vespa. Como isso funciona?

Vamos começar nossa história com uma fêmea adulta de vespa-da-figueira-lacerdinha. As fêmeas são pretas e muito pequenas, medindo cerca de 1 a 1,2 mm de comprimento somente. Esta fêmea está voando por aí procurando um figo jovem que servirá como seu ninho e sua sepultura.

Assim é uma fêmea de vespa-da-figueira-lacerdinha. Foto de Forest & Kim Starr.*

Um figo, caso você não saiba, não é um fruto verdadeiro no sentido botânico. Ele é na verdade um tipo especial de inflorescência chamado sicônio que é basicamente um saco preenchido de flores. As paredes internas de um figo contêm muitas flores masculinas e femininas minúsculas e a única maneira de chegar a elas é através de um pequeno furo na ponta do figo. E este furo só está aberto durante os estágios iniciais do desenvolvimento do figo.

Figos da figueira-lacerdinha no seu primeiro estágio de desenvolvimento. Você pode ver o furo marcado por uma “aréola” mais escura ao redor. Este é o lugar por onde uma vespa fêmea entra no figo. Créditos ao usuário do Wikimedia Vinayaraj.**

Quando a fêmea de vespa-da-figueira-lacerdinha está voando por aí, está procurando por um figo que esteja neste exato estágio de desenvolvimento. Uma vez que ela o encontre, ela se arrasta para dentro do figo através daquele furinho. Ela geralmente perde as asas enquanto faz isso porque a passagem é estreita demais. Ela até mesmo precisa usar suas mandíbulas especialmente adaptadas para a ajudarem a passar. Uma vez dentro do figo, ela procura pelas flores femininas que estão na base no figo, longe da entrada. As flores masculinas, localizadas logo na entrada, ainda não estão maduras. Contudo as vespas fêmeas chegam com pólen que pegaram em outro lugar (você vai aprender isso daqui a pouco). Quando ela chega nas flores femininas, introduz seu ovopositor (a longa estrutura no final do abdome que é usada para pôr os ovos) dentro da flor feminina e põe um ovo dentro do ovário da flor. Seu ovopositor precisa ter o tamanho exato para alcançar o ovário e pôr o ovo. Se ele é curto demais, ela não é capaz de completar sua tarefa. E enquanto ela se move de flor em flor para pôr os ovos, acaba as polinizando. Depois de terminar, a vespa morre ainda dentro do figo.

Os ovários que receberam um ovo começam a crescer e formar uma galha (um “tumor de planta”) por influência do inseto e servem como abrigo e alimento para as larvas que eclodem dos ovos. Uma larva cresce, empupa e se torna adulta dentro de uma só galha. Quando as vespas finalmente chegam ao estágio adulto, deixam a galha na qual nasceram. Isso acontece quando o figo atinge seu estágio maduro.

Os machos são os primeiros a emergir. Eles são ainda menores que as fêmeas e possuem uma cor entre o amarelo e o marrom-claro. Eles roem seu caminho através da galha e, uma vez fora dela (mas ainda dentro do figo), começam desesperadamente a procurar vespas fêmeas para inseminar. Eles fazem isso arrebentando outras galhas e, quando uma fêmea é encontrada presa dentro, a inseminam. Depois disso, os machos cavam um buraco através do figo para o lado de fora e morrem logo depois, nunca vivenciando o mundo externo.

Uma vespa-da-figueira-lacerdinha macho (à direita) comparado com uma fêmea. Foto de Forest & Kim Starr.*

As vespas fêmeas então deixam as galhas e se movem em direção ao buraco aberto pelo macho. Enquanto fazem isso, elas se movem por cima das flores masculinas, agora maduras, e ficam cobertas de pólen. Depois de deixar o figo, elas procuram outro figo que esteja no primeiro estágio de desenvolvimento, recomeçando o ciclo.

Quando uma fêmea deixa um figo maduro, ela precisa encontrar um figo imaturo logo em seguida porque estará morta em um par de dias. Em outras palavras, a única forma de isso funcionar é se houver figos no estágio certo durante o ano todo, e é isso que acontece. Diferente da maioria das espécies de plantas, que produzem flores em uma época específica do ano, figueiras estão sempre floridas. Bem, não exatamente. Uma figueira individual produz figos em um período específico do ano. Todos os figos daquela árvore amadurecem ao mesmo tempo, ou seja, uma figueira tem uma sincronia de maturação de flores intraindividual. Contudo, outras árvores da mesma espécie possuem momentos diferentes para produzir flores, ou seja, há uma assincronia de maturação de flores interindividual. Isso garante que a vespa sempre encontrará um figo que seja adequado para seu estágio de maturação quando há figueiras suficientes em volta e também garante que a figueira não será fertilizada pela próprio pólen.

Como eu mencionei ao apresentar a figueira-lacerdinha, esta árvore só consegue produzir frutos viáveis quando a vespa está presente, de forma que populações introduzidas fora da área nativa só se reproduzirão se as vespas também forem introduzidas. Contudo, a vespa será incapaz de sobreviver se não houver figueiras o bastante para fornecer figos o ano todo. É uma relação delicada entre um inseto minúsculo, frágil e de vida curta e uma árvore enorme, resistente e de vida longa. E eles precisam um do outro para sobreviver.

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Referências:

Cook J, Rasplus J-Y (2003) Mutualists with attitude: coevolving fig wasps and figs. TRENDS in Ecology and Evolution 18(5): 241–248.

Kjellberg F, Jousselin E, Hossaert-McKey M, Rasplus J-Y (2005) Biology, Ecology, and Evolution of Fig-pollinating Wasps (Chalcidoidea, Agaonidae). In Raman A, Schaefer CW, Withers TM (Eds.) Biology, ecology and evolution of gall-inducing arthropods. v.2. New Hampshire, Science, p.539-572.

McPherson JR (2005) A Recent Expansion of its Queensland Range by Eupristina verticillata, Waterston (Hymenoptera, Agaonidae, Agaoninae), the Pollinator of Ficus microcarpa l.f. (Moraceae). Proceedings of the Linnean Society of New South Wales: 126: 197–201.

Weiblen DG (2002) How to be a fig wasp. Annual Review of Entomology 47: 299–330.

Wiebes JT (1992) Agaonidae (Hymenoptera, Chalcidoidea) and Ficus(Moraceae): fig waps and their figs, VIII (Eupristina s.l.). Proceedings of the Koninklijke Nederlandse Akademie van Wetenschappen 95(1): 109–125.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 3.0 Não Adaptada.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

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Se você gosta de flores, deveria amar insetos

por Piter Keboma Boll

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Todo mundo gosta de flores, certo? Elas são tão coloridas e bonitas e geralmente possuem um aroma maravilhoso. As pessoas amam tê-las em seus jardins e mulheres amam receber um belo buquê de flores de seus namorados.

Algumas plantas com flores, da esquerda para a direita: Rosa 'Hybrid Tea', Pachystachys lutea e Zinnia elegans. Todas as fotos por Piter K. Boll (isto é, eu mesmo)*.
Algumas plantas com flores, da esquerda para a direita: Rosa ‘Hybrid Tea’, Pachystachys lutea e Zinnia elegans. Todas as fotos por Piter K. Boll (isto é, eu mesmo)*.

Mas por quê as flores são tão bonitas? É claro que as flores vistas acima são derivadas de variedades artificialmente selecionadas por humanos para aumentar sua beleza, mas flores na natureza também são maravilhosas!

Flores que ocorrem naturalmente. Da esquerda para a direita: Oxalis sp., Ipomoea fimbriosepala e Zephyranthes robusta. Todas as fotos minhas de novo (Piter K. Boll)*
Flores que ocorrem naturalmente. Da esquerda para a direita: Oxalis sp., Ipomoea fimbriosepala e Zephyranthes robusta. Todas as fotos minhas de novo (Piter K. Boll)*

Certamente essa beleza não possui a intenção de agradar pessoas ou o que quer que seja. Isso é pura besteira e somente alguns religiosos poderiam ter uma ideia tão errada. Se as plantas possuem belas flores, isso precisa dar-lhes alguma vantagem.

Como todos sabem (ou assim espero), as plantas geralmente não podem se mover como os animais, de forma que elas estão condenadas a ficar quietas em seu lugar. Isso pode significar uma porção de problemas quando você está procurando por recursos como água, luz ou elementos básicos como nitrogênio. Assim a evolução levou ao surgimento de estruturas incríveis para fazer as plantas sobreviverem, como adquirir um caule rígido para se tornar mais alta ou desenvolver folhas menores ou maiores, espinhos, gavinhas, ou mesmo se tornar carnívoras. Mas as plantas também precisam se reproduzir e para isso elas precisam de um parceiro, mas visto que elas são presas ao substrato, elas precisam encontrar maneiras alternativas de juntar seus gametas.

A maioria das plantas primitivas resolve isso através da água ou do vento, apenas deixando suas estruturas reprodutivas partirem e esperando que elas cheguem ao seu destino. Como você pode ver, este método não é o melhor, visto que a fertilização ocorre totalmente por sorte. Além disso, estas maneiras são limitadas em relação aos locais em que são bem-sucedidas. Uma planta fertilizada pela água precisa estar dentro da água ou viver próxima ao solo ou em locais onde ela eventualmente ficará submersa; da mesma forma, uma planta que depende do vento precisa, é claro, estar onde o vento sopra.

Musgo (esquerda) depende de água para se reproduzir, enquanto coníferas (direita) precisam de vento. Mais uma vez, fotos de Piter K. Boll.*
Musgo (esquerda) depende de água para se reproduzir, enquanto coníferas (direita) precisam de vento. Mais uma vez, fotos de Piter K. Boll.*

Esses métodos, apesar de limitados, funcionaram bem o bastante por milhões de anos até algum ponto do período cretáceo, quando um grupo de animais começou a se diversificar de maneira impressionante: os insetos.

Insetos são pequenos e prolíficos. Eles possuem um esqueleto externo duro de quitina, o que previne a desidratação e muitos ferimentos, e muitos deles aprenderam a voar, assim sendo capazes de cruzar grandes distâncias e colonizar novos ambientes.

Os insetos existem, claro, pelo menos desde o Carbonífero. O mais famoso deles é a libélula gigante Meganeura. Mas durante o Cretáceo aqueles grupos que hoje são os mais diversos começaram a aparecer em fósseis: formigas, abelhas, cupins, borboletas, mariposas, pulgões e gafanhotos. Besouros, o grupo mais diverso de insetos hoje (contendo mais espécies que todos os outros artrópodes juntos) são encontrados em fósseis desde o Carbonífero, mas quase se tornaram extintos durante a divisão Permiano-Triássico que marca a extinção em massa mais terrível na Terra. Após esse evento trágico, eles se mantiveram mais discretos até uma explosão em diversificação no Cretáceo junto com os insetos já mencionados.

Bem, todos esses insetos precisavam comer pra caramba e começaram a se alimentar de plantas, incluindo seu pólen. Isso poderia ser um sério problema, mas as plantas acharam um jeito de lidar com isso modificando a si mesmas de forma que os insetos se tornaram algo útil a elas.Se os insetos eram atraídos pelo seu pólen, por que eles não poderiam carregá-lo para outras plantas, assegurando assim uma fertilização mais segura? Foi isso mesmo que as plantas fizeram, mas para atrair os insetos ainda mais para seus órgãos reprodutores, elas começaram a aumentar de tamanho e a adquirir belas cores. Isso tudo aconteceu através de seleção natural de mutações aleatórias, é claro. Ninguém está assumindo que as plantas ou os insetos realmente escolheram mudar, isso é besteira. O que estou tentando dizer (de forma mais simples) é que aquelas plantas que eram capazes de conectar alguns de seus grãos de pólen aos insetos, de forma que eles atingissem outras plantas que o inseto visitasse, eram mais bem sucedidas em se reproduzir. Da mesma forma, aquelas plantas com flores mais bonitas atraíam mais insetos e também eram mais bem sucedidas se reproduzindo.

Enfim, é por isso que devemos agradecer aos insetos por existirem, porque sem eles não teríamos flores tão bonitas para decorar nossas vidas. E se você gosta de flores, mas odeia insetos, bem, você está sendo muito injusto com a natureza.

Eu sei que alguns podem pensar “mas eu gosto de borboletas. Elas são bonitas e legais e fofas e polinizam tudo, então só preciso gostar destes insetos e não de todas aquelas coisas nojentas.”

Ah é mesmo? Então você gosta de borboletas? Estou certo de que você gosta desta:

Lagarta de Agraulis vanillae. Foto de Bill Frank, extraída de jaxshells.org
Lagarta de Agraulis vanillae. Foto de Bill Frank, extraída de jaxshells.org

A maioria das pessoas gosta de borboletas e odeia lagartas, mas elas são exatamente a mesma coisa. E na verdade esses insetos passam a maior parte da vida como larvas. Agora só para saciar sua curiosidade, é com isso que aquela lagarta se parece quando adulta:

Um adulto de Agraulis vanillae em um capítulo de Zinnia elegans. Foto de Piter K. Boll.*
Um adulto de Agraulis vanillae em um capítulo de Zinnia elegans. Foto de Piter K. Boll.*

Mas borboletas não são os únicos polinizadores e nem mesmo os mais comuns. Abelhas, como você sabe, são também muito importantes e os principais polinizadores de muitas plantas economicamente importantes, especialmente frutíferas. Vespas, moscas, mosquitos, moscas-escorpiões e mariposas também são importantes, mas não podemos esquecer dos besouros.

A maioria das angiospermas basais e primitivas são polinizadas por besouros, então esses caras devem estar por trás do surgimento e da diversificação de plantas com flores. Há muitas evidências para isso, como um aumento da diversidade de angiospermas no registro fóssil sendo contemporânea com um aumento de espécies de besouros.

Recentemente, algumas flores fósseis da época turoniana (cerca de 90 milhões de anos) foram encontradas em Sayreville, New Jersey. Elas foram chamadas de Microvictoria svitkoana devido à impressionante similaridade com a vitória-régia, Victoria amazonica, apesar de muito menores em tamanho.

Flor de Victoria amazonica, uma das angiospermas mais primitivas. É fácil notar que ela de certa forma ainda lembra um cone de conífera. Foto de Frank Wouters.*
Flor de Victoria amazonica, uma das angiospermas mais primitivas. É fácil notar que ela de certa forma ainda lembra um cone de conífera. Foto de Frank Wouters.*

Apesar de primitiva, é certamente uma flor muito bonita, e só pode existir graças a besouros do gênero Cyclocephala, como este:

Cyclocephala hardyi, um besouro que poliniza Victoria amazonica. Foto extraída de ssaft.com/Blog/dotclear/
Cyclocephala hardyi, um besouro que poliniza Victoria amazonica. Foto extraída de ssaft.com/Blog/dotclear/

O que achou dele? Até que é um rapaz legal, não é? Se você olhar mais de perto, verá que cada inseto é impressionante de sua própria forma, até mesmo baratas!

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Referências:

Béthoux, O. 2009. The Earliest Beetle Identified. Journal of Paleontology, 83(6), 931-937 DOI: 10.1666/08-158.1

Crepet, W. L. 1996. Timing in the evolution of derived floral characters: Upper Cretaceous (Turonian) taxa with tricolpate and tricolpate-derived pollen. Review of Palaeobotany and Palynology, 90, 339-359 DOI: 10.1016/0034-6667(95)00091-7

Gandolfo, M. A., Nixon, K. C. and Crepet, W. L. 2004. Cretaceous flowers of Nymphaeaceae and implications for complex insect entrapment pollination mechanisms in early Angiosperms. PNAS, 101 (21), 8056-8060 DOI:10.1073/pnas.0402473101

Seymour, R. S. and Matthews, P. G. D. 2006. The Role of Thermogenesis in the Pollination Biology of the Amazon Waterlily Victoria amazonica. Annals of Botany, 98 (6), 1129-1135 DOI: 10.1093/aob/mcl201

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