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Retallack sofre da síndrome de Williamson? A controvérsia da Ediacara terrestre

por Piter Kehoma Boll

Neste mês, um artigo publicado na Nature afirma que a famosa biota de Ediacara, um conjunto de fósseis do período Ediacarano (cerca de 635 a 542 milhões de anos atrás) da era Neoproterozóica, não é composta de criaturas marinhas, mas sim de líquens terrestres. Quem fez esta afirmação? Gregory Retallack, um geólogo da Universidade de Oregon.

Retallak trabalha nesta hipótese desde os anos 1990 e as principais evidências apresentadas por ele são relacionadas a aspectos geológicos, como a cor vermelha da rocha, que de acordo com ele teria origem terrestre. Outra afirmação é de que, se essas criaturas fossem animais de corpo mole, elas não teriam sido tão bem preservadas, sem compactação, já que alguns fósseis possuem características tridimensionais.

Bem, eu não sou geólogo e não tenho conhecimento suficiente para discutir do ponto de vista geológico, nem sou um especialista na biota de Ediacara, mas como biólogo eu acho que posso compartilhar alguns pensamentos.

Primeiro, pelo que parece, as ideias de Retallack não são aceitas pela maioria dos paleontólogos. No início, a visão inovadora da biota de Ediacara como terrestre era interessante, mas os argumentos para suportá-la não são suficientes e ainda há explicações mais simples e mais prováveis para os aspectos incomuns das rochas ediacaranas. Contudo isto não impediu Retallack de seguir com sua ideia e outros paleontólogos estão ficando cansados de revisar seus artigos.

Este comportamento lhe parece familiar? Ele de certa forma me lembra o de Williamson, de quem falei um tempo atrás, como você pode ler aqui.

Assim como Williamson insiste em sua ideia de hibridogênese apesar de todos os fatos apontarem em outras direções, da mesma forma Retallack insiste em sua hipótese de líquens terrestres.

Dickinsonia teria sido um líquen terrestre de acordo com Retallack. Foto pelo usuário Verisimilus da Wikipedia. Extraído de en.wikipedia.org

Dickinsonia teria sido um líquen terrestre de acordo com Retallack. Foto pelo usuário Verisimilus da Wikipedia. Extraído de en.wikipedia.org

Retallack afirma que fósseis como Dickinsonia e Charnia, apesar do seu plano corporal bilateralmente simétrico, eram líquens. Alguém conhece líquens tão simétricos? E para sustentar essa hipótese, ele simplesmente joga qualquer tipo de explicação “fúngica” para todos os fósseis, considerando os mais radialmente simétricos como colônias de bactérias e os mais semelhantes a animais como simples corpos de frutificação de fungos. E para explicar coisas como os fósseis de rastros, ele fala sobre lesmas terrestres (lesmas terrestres durante o Proterozoico? Sério?) ou mixomicetos.

Mas então pode-se pensar: ele possui qualquer referência para sustentar suas ideias? E a resposta é: com certeza, seus PRÓPRIOS trabalhos anteriores. Não há outros paleontólogos afirmando o mesmo além dele próprio. Isso se parece exatamente com o que eu chamo de síndrome de Williamson.

Tenho certeza que encontraremos algumas pessoas aceitando sua ideia, mais provavelmente leigos, e eles muito provavelmente usarão o argumento clássico de que “todas as grandes descobertas científicas começaram sendo rejeitadas pela maior parte da comunidade científica”. E eu direi isso de novo: Sim, muitas teorias foram rejeitadas inicialmente e depois provou-se estarem certas, mas você não pode se esquecer de que muito mais teorias foram rejeitadas e depois provou-se estarem erradas. E uma vez que você prova que algo é errado ou pelo menos muito, muito improvável, você deve pensar em outra explicação possível e mais provável e não seguir insistindo num conto de fadas.

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Referências:

Cobb, M. 2012. The enigmatic Ediacaran biota just got more enigmatic. Or did it? Why Evolution Is True. Disponível online em <http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/12/20/the-enigmatic-ediacaran-biota-just-got-more-enigmatic-or-did-it/ >

Retallack, G. 2012. Ediacaran life on land. Nature. DOI: 10.1038/nature11777

Retallack, G. 2007. Growth, decay and burial compaction of Dickinsonia, an iconic Ediacaran fossil. Alcheringa: An Australasian Journal of Palaeontology, 31 (3), 215-240 DOI: 10.1080/03115510701484705

Switek, B. 2012. Controversial claim puts life on land 65 million years early. Nature. DOI:10.1038/nature.2012.12017

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Arquivado em Ecologia, Evolução, Paleontologia

Os furos na Ideia do Triceratops velho

Por Carlos Augusto Chamarelli

Você deve se lembrar de algum tempo atrás, havia saído nas notícias em todo lugar que o “Triceratops nunca existiu”. Como poderia um dinossauro tão consolidado na cultura popular simplesmente não ter existido? Na realidade, isso é balela, até mesmo o próprio Jack Horner o disse. O que este paleontólogo de Montana quis dizer é que ele nada mais era que uma forma jovem, e que o estágio adulto era na verdade representado por outro dinossauro ceratopsiano (dinossauros com chifres e escudos) conhecido como Torosaurus, cujo escudo podia chegar até dois metros e meio de comprimento. A ideia é que conforme o Triceratops crescia, seu escudo se tornava maior e, para diminuir o peso desse enfeite, furos apareceriam, como observados em muitos outros ceratopsianos. Visto as semelhanças entre os dois animais, e sua coincidência de locais onde são achados, Horner concluiu que os dois deveriam ser o mesmo.

Visto aqui numa reconstrução extremamente precisa e realista.

Visto aqui numa reconstrução extremamente precisa e realista. “Triceratops”, por Kate Rohde. Extraído de kwgallery.com

O que devia ser noticiado era “Torosaurus nunca existiu”: Em nomenclatura zoológica, um princípio básico é que quando uma espécie recebe dois nomes diferentes, o nome mais antigo publicado corretamente, chamado de sinônimo sênior, tem preferência e deve ser usado para nomear a espécie, excluindo o sinônimo júnior. E já que o Triceratops, nomeado em 1889, foi descrito há muito mais tempo que o Torosaurus, 1891, Triceratops é o sinônimo sênior e, portanto, o nome oficial. Mas naturalmente a mídia percebeu que a maioria das pessoas não sabe o que é um Torosaurus, então embaralharam tudo com uma pintada de sensacionalismo para dar mais ibope, o que é muito surpreendente.

Deixando problemas nomenclaturais de lado, existem alguns pontos nessa teoria que ainda me fazem pensar que não podemos declarar com certeza a inexistência de um ou outro dinossauro. Dentre eles, um ponto menos conhecido da teoria de Horner, embora tenha sido divulgado um artigo sobre isso, é que antes de se tornar um Torosaurus, o Triceratops se tornaria outra coisa primeiro. Essa outra coisa seria o Nedoceratops (anteriormente Diceratops).

Quando acharem um com apenas um chifre na cabeça ele será conhecido como Uniceratops. Provavelmente.

Quando acharem um com apenas um chifre na cabeça ele será conhecido como Uniceratops. Provavelmente. Crânio do Nedoceratops. Foto por Andrew A. Farke, 2011. Extraído de wikipedia.org

O Nedoceratops hatcheri tem uma longa história de debates sobre sua validez como uma espécie separada ou um sinônimo para o Triceratops, alguns argumentam que as aberturas no crânio seriam causadas por patologias que degenerariam o osso, por exemplo. Para Horner, estas indicariam o início da transformação no Torosaurus, mas é por aí que as coisas ficam estranhas: como exatamente estas aberturas se formariam do nada?

Horner demonstra através de análises de raio-x que o escudo do Triceratops não é inteiramente sólido, e é de fato mais fino onde seriam os orifícios do Torosaurus, então à primeira vista seria perfeitamente plausível que o Torosaurus fosse um Triceratops velho, mas mesmo os ossos dos dinossauros sendo notavelmente plásticos e permitirem muitas transformações conforme cresciam, o retrocesso da estrutura óssea a ponto de se tornar tão fina até formar aberturas – perfeitamente arredondadas – é algo um tanto difícil de admitir mesmo com a mente aberta.

Haja pescoço para suportar esse crânio.

Haja pescoço para suportar esse crânio. Crânios do holótipo do Torosaurus latus. Desenho por Marsh, 1893. Extraído de wikipedia.org

Observando outros ceratopsianos, vemos que não é assim que ocorre: vamos dar uma olhada mais de perto no pequeno Protoceratops, um pequeno ceratopsiano da Ásia descoberto na Mongólia em 1923. Os achados de Protoceratops são compostos de indivíduos de vários estágios de crescimento, em especial ninhos inteiros com ovos preservados foram encontrados, o que nos permite ter uma boa ideia do crescimento desses animais desde recém-nascidos até adultos.

"Digam e-X-tinto"

“Digam e-X-tinto”. Sequência de crescimento do Protoceratops. Foto por Harry Nguyen, 2008.

Como você pode observar na imagem, o escudo apresenta orifícios mesmo em indivíduos muito jovens. O mesmo é observado em outras espécies de ceratopsianos, mas nenhuma é tão completa quando a do Protoceratops. Partindo deste princípio, se o Torosaurus era de fato um Triceratops em fase adulta, o orifício no escudo deveria estar presente em indivíduos jovens, mas isso não acontece, como observado no único crânio descoberto de um Triceratops bebê.

Eu não consigo falar nada sobre um Triceratops bebê a menos que seja que deviam ser muito fofos.

Eu não consigo falar nada sobre um Triceratops bebê exceto que deviam ser muito fofos. Réplica do crânio de um Triceratops filhote. Foto por Brokensphere, 2009.

Desconheço qual a idade estimada deste indivíduo em particular, mas julgando pelo seu tamanho e características, ele poderia muito bem ser um recém nascido. Como é possível observar, o escudo, ainda muito pequeno, é desprovido de orifícios naturais: o pequeno buraco visto no lado esquerdo foi causado pelo desgaste durante a fossilização, como observado nas margens do escudo, mas não há nenhum presente no lado direito, e nem nenhum indivíduo num estágio de maturação posterior. O que quero dizer é que se fosse verdade que o Torosaurus era um Triceratops adulto, os orifícios deveriam estar presentes desde as formas mais jovens como no Protoceratops, não importa o quão pequeno fosse comparado ao de outros ceratopsianos.

A menos que tivesse só uma fenestra de um lado.

A menos que tivesse só uma fenestra de um lado. Detalhe do escudo do Triceratops filhote, com a marcação onde seriam as fenestras.

Mas eu dou crédito a Horner por apresentar evidência sólida de que o escudo do Triceratops era “esponjoso”, uma característica de indivíduos jovens, o que significa que sim, o Triceratops que conhecemos provavelmente não representa indivíduos adultos. Ainda sim, é um pouco difícil afirmar que o Torosaurus era sua forma adulta. Há algumas alternativas que poderiam explicar o que seria um Triceratops adulto. A primeira é um tanto mais especulativa, e se baseia na existência de um dinossauro mais semelhante ao Triceratops, mas muito maior, conhecido como Eotriceratops. Descrito em 2007, seus achados foram encontrados na formação Horseshoe Canyon de Alberta, e alguns achados indicam restos em Hell Creek, Montana, onde o Triceratops é normalmente encontrado.

Triceratops gigante é o melhor Triceratops. Imagem por Conty.

Triceratops gigante é o melhor Triceratops. Eotriceratops (com o crânio achado até agora) e Triceratops comparados. Imagem por Conty. Extraído de wikipedia.org

Ainda existem debates sobre seu tamanho real, mas mesmo assim é possível afirmar de que era maior que o Triceratops; no entanto, é estimado ter vivido alguns milhões de anos antes dele. Se as estimativas da existência do Eotriceratops puderem ser vistas como estimativas inexatas e existir uma margem de erro, há a possibilidade que este fosse um Triceratops adulto, mas ainda assim é difícil apontar algo concreto com o que sabemos até agora.

Outra possibilidade mais provável é que simplesmente ainda não encontramos indivíduos completamente adultos, o que, aliás, também é usado como argumento por Horner já que nunca foram achados Torosaurus jovens, mas isso é um falso silogismo. Eu poderia, por exemplo, argumentar que pterossauros davam a luz a filhotes vivos já que nunca foram encontrados fósseis de seus ovos. Exceto que, para a surpresa de todos, foram encontradas evidências destes, e eram ovos de casca mole; o que há de mais nisso? Ovos de casca mole são encontrados em espécies que não cuidam de seus filhotes, o que implica que a ideia do pterossauro cuidando de seus filhotes como um pássaro em seu ninho é altamente improvável.

Mas nada que desminta que carregassem humanos a vulcões. Lu Junchang, Instituto de Geologia, Pequim.

Mas nada que desminta que carregassem humanos até vulcões. Pterossauro fêmea preservado junto com seu ovvo. Foto por Lu Junchang, Instituto de Geologia, Pequim. Extraído de CBC.

Em outras palavras, pode ser que nenhum Torosaurus jovem ou Triceratops adulto fora até agora encontrado simplesmente por que paleontólogos dependem de sorte e paciência, mas um dia talvez sejam recompensados com tal achado. Afinal encontramos coisas como o Tiktaalik, o elo perdido entre os peixes e os tetrápodes primitivos, então porque não?

O último furo na teoria de Horner é a especiação de ceratopsianos. Isto é, o processo evolutivo pelo qual as espécies vivas se formam. Horner apresenta uma série de crescimento do casuar, Casuarius casuarius, demonstrando como as formas jovens são diferentes quando comparadas às adultas já que as características destas só são desenvolvidas muito depois, comparado ao que acontece nos mamíferos, e como o mesmo poderia ser aplicado aos dinossauros que poderiam ter formas jovens confundidas como espécies separadas

Nada de errado aqui.

Nada de errado aqui. Sequência de crescimento do Casuarius casuarius, extraída da palestra de Horner.

No entanto, é preciso lembrar que, no caso do casuar, existe outra espécie; o casuar-anão (Casuarius benetti), que se o nome é qualquer pista, é uma espécie menor de casuar nativa de Papua-Nova Guiné e ilhas próximas. Sua área se sobrepõe com uma população de casuares maiores na Nova Guiné, e o crânio dos indivíduos adultos em particular é caracterizado pela falta de uma crista pronunciada como a de seus parentes da Austrália, e poderiam ser posicionados nesta mesma série de crescimento como um indivíduo jovem se não soubéssemos que são espécies diferentes, ou ainda como indivíduos fêmeas se considerarmos que o casuar da Austrália não possui diferenças no formato da crista entre os sexos, mas indivíduos sem crista sendo achados juntos poderia causar um pouco de confusão.

Ops.

Ops. Crânio do Casuarius benetti. Foto por Bird Skull Collection. Extraído de skullsite.com

Agora imagine um lugar com muitas espécies semelhantes, tal como a savana africana e sua imensa variedade de antílopes. Muitas podem apresentar características semelhantes umas às outras, mas todas são únicas de seu próprio jeito, mesmo com esqueletos virtualmente idênticos. Então naturalmente se um paleontólogo alienígena no futuro escavasse fósseis de antílope, eles também poderiam pensar que o pequeno dik-dik é um bebê de gazela, que também seria a forma jovem do pala-pala, já que eles apenas possuem seus ossos com que trabalhar.

Talvez o motivo pelo qual o Torosaurus seja tão semelhante ao Triceratops seja porque estes são parentes próximos, vivendo nas mesmas áreas, mas não necessariamente a mesma espécie. De fato, a outra espécie de Triceratops conhecida, T. prorsus, possui um escudo mais alongado e com nódulos menos pronunciados nas bordas comparado ao T. horridus, que é o que estamos mais acostumados a ver. Ainda talvez o Torosaurus seja de fato o Triceratops, mas não o que conhecemos, mas uma subespécie diferente, mas para se ter certeza é preciso mais achados fósseis que possam dar evidências.

No fim, a ideia de Horner é interessante, mas incoerente com o que observamos. Alguns dizem que o que ele está fazendo é um tipo de zombação construtiva, fazendo afirmações agravantes para incentivar os outros paleontólogos a mostrarem seus trabalhos, o que aparentemente funcionou visto que desde fora publicada sua hipótese, vários outros trabalhos acerca do Triceratops foram feitos. Mas o mais importante é saber que ele continua firme e forme, e muito bem vivo, mesmo que apenas como um nome, para uma magnífica criatura que povoou a Terra há 65 milhões de anos.

Mais uma vez, espero que tenham gostado desse artigo; como de costume, dúvidas ou comentários eu farei o possível para responder. Até a próxima, paleontólogos do espaço!

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Referências e material adicional:

Scannella, J., & Horner, J. 2011. ‘Nedoceratops’: An Example of a Transitional Morphology PLoS ONE, 6 (12) DOI: 10.1371/journal.pone.0028705

TEDxVancouver – Jack Horner – The Shape-Shifting Skulls of Dinosaurs . 2009. Disponível online em: <http://www.youtube.com/watch?v=xYbMXzBwpIo&gt;. Acesso em 5 de dezembro de 2011.

Wikipedia. Triceratops. Disponível online em: <en.wikipedia.org/wiki/Triceratops>. Acesso em 5 de dezembro de 2011.

Wikipedia. Eotriceratops. Disponível online em:  <en.wikipedia.org/wiki/Eotriceratops>. Acesso em 5 de dezembro de 2011.

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A síndrome do dinossauro de cauda rígida

por Carlos Augusto Chamarelli

Olá pessoal, PK aqui, o que significa que é hora de uma boa e velha crítica paleoartística e contestação de ideias atuais! Então sigam o tópico de hoje: caudas de dinossauros.

Por muito tempo, desde sua descrição formal na metade do século XIX, acreditava-se que os dinossauros arrastavam suas caudas da mesma forma que os répteis, já que répteis são tidos como letárgicos e portanto seria o mesmo com dinossauros, por que eram répteis. Pelo menos assim era o pensamento da época até por volta dos anos 70 quando a “renascença dos dinossauros” entrou em cena, introduzindo novas idéias baseadas nos estudos dos fósseis, e que substituiu a imagem dos répteis gigantes vagarosos e moradores de pântanos para a de animais ativos e de sangue quente.

Jamais se esqueçam do Brontosaurus.

Jamais se esqueçam do Brontosaurus. Pintura de um desatualizado Apatosaurus por Zdenek Burian.

E considerando nosso tópico, a mais importante dessas mudanças é de que eles agora possuíam caudas erguidas acima do chão. Mas as coisas a partir desse ponto foram colina abaixo: os dinossauros começaram a ser ilustrados com caudas cada vez mais elevadas até o ponto em que, aproximadamente nos últimos 10 anos, dinossauros sempre são mostrados com caudas completamente paralelas ao chão e por vezes quase apontando para cima! Pessoalmente, eu estou convencido de que essa ideia é algo que os ilustradores – tanto amadores quanto profissionais – simplesmente entenderam de forma equivocada. Em outras palavras: embora dinossauros pudessem manter suas caudas paralelas ao chão, eles provavelmente não o fariam o tempo inteiro.

Um fator importante sobre dinossauros que eu tenho a ligeira sensação de que alguns artistas deixam passar, ou simplesmente ignoram em favor de um efeito mais dramático, é de que dinossauros eram animais da mesma forma que os que vivem hoje em dia, e como tal, eles certamente ficariam cansados de tempos em tempos. Entenda: não existe sequer um animal no mundo que mantenha qualquer um de seus membros em uma certa posição por muito tempo, e é ilógico pensar que dinossauros seriam uma exceção. Manter suas caudas elevadas em uma postura horizontal por tanto tempo como sugerido por tais reconstruções seria decididamente exaustivo. Portanto parece ser razoável concluir que os dinossauros, pelo menos em alguns momentos, tinham suas caudas caídas e relaxadas.
Rafael e eu discutimos essa possibilidade, e ele me lembrou de um importante detalhe: alguns dinossauros foram encontrados com tendões fossilizados em suas caudas. Naturalmente tive que investigar e analisar se a minha ideia teria algum fundo de verdade. Uma dessas evidências é encontrada no primeiro fóssil documentado de Corythosaurus, seu holótipo, descoberto por Barnum Brown em 1912, o que pra mim é perfeita já que ornitópodes são os piores ofensores da síndrome da cauda rígida dentre os dinossauros.

Convenientemente numa posição semelhante ao nado, que motivou a idéia por anos.

Convenientemente numa posição semelhante ao nado, que motivou a ideia por anos. Holótipo do Corythosaurus por Barnum Brown, 1916.

O holótipo do Corythosaurus é um espécime incrível, não só seu esqueleto foi encontrado praticamente completo, há também impressões de pele que evidenciam a pele escamosa característica da maioria dos dinossauros. Mas dê uma olhada mais de perto na causa; mais especificamente, na base, logo acima do quadril. Essas marcas em linhas retas distintas que você vê foram feitas pelos tendões que, supostamente, auxiliavam o animal a manter sua cauda na mesma posição horizontal vista no esqueleto. Onde isso deixa a ideia de que eles ficavam com a cauda caída? Vá em frente, eu te dou alguns segundos…

Já deu pra notar? Eu posso fazer ficar mais claro com outra imagem:

Pontesuspensassauro.

Pontesuspensassauro. Desenho do holótipo do Corythosaurus por Barnum Brown, 1916.

Como observado, esses tendões estão presentes principalmente na base da cauda. Não apenas isso, mas, a meu ver, considere que as vértebras caudais possuem um formato ligeiramente irregular quando alinhada horizontalmente, mas nem tanto se houvesse uma curva para baixo. Essa mesma característica é observada em outros dinossauros, como saurópodes. O que esse fóssil aparenta sugerir é de que os tendões apenas auxiliariam o Corythosaurus a manter a primeira metade de sua cauda elevada. Para qual vantagem seria? Para responder essa questão devemos entender melhor como os outros tipos de dinossauros utilizam suas respectivas caudas e o quanto é possível inferir dessas comparações.

Caudas são primariamente usadas para o equilíbrio, e em alguns animais podem servir como armas, enquanto outros as utilizam para chamar a atenção de potenciais parceiros ou sinalizar membros de um bando, e outros até a usam para se locomover melhor em árvores ou na água. Nos casos em que o animal não parece ter nenhum uso em especial para elas, o que normalmente acontece é que a cauda tem tão pouco impacto no estilo de vida do animal que ela se degenera com o passar das gerações e resultam em tocos ou desaparecimento quase completo, como aconteceu com o ser humano. Dinossauros, no geral, tinham caudas grandes, sendo uma de suas características mais notáveis que os diferem de qualquer outro animal de grande porte atual – com exceção é claro das aves e dinossauros semelhantes que não eram exatamente aves, como o pequeno Epidexipteryx; neste caso houve uma troca, desfavorecendo uma cauda óssea e a substituindo por uma cauda penada mais leve.

Eu lembro da vez que vi um criacionista afirmando que as penas em fósseis de dinossauros assim eram falsificações feitas por artistas. Foi triste e hilário.

Eu lembro da vez que vi um criacionista afirmando que as penas em fósseis de dinossauros assim eram falsificações feitas por artistas. Foi triste e hilário. Holótipo do Epidexipteryx. Foto de National Geographic.

Em dinossauros de armadura – anquilossauros, nodossauros e estegossauros -, com seu perfil atarracado e pernas fortes, ter uma cauda para se equilibrar não é necessário, mas ainda sim eles possuíam caudas bem desenvolvidas por um único motivo: eram armas mortais. Estegossauros possuíam espigões, nodossauros possuíam fileiras de placas afiadas e anquilossauros possuíam uma massa óssea na ponta que formava uma formidável arma contra predadores.

Eles não eram muito bons em martelar pregous pois destruiam a parede toda.

Eles não eram muito bons em martelar pregos pois destruíam a parede toda. Detalhe da cauda de um Euoplocephalus. Foto por Ghedoghedo. Extraído de wikipedia.org

Saurópodes, pelo menos os que não possuíam pescoços de comprimentos extremos, não necessitavam de caudas tão longas para balanceá-los; seu torso era o suficiente. Estes então estariam livres para usá-las como armas já que não poderiam afastar predadores apenas com seu tamanho, e de fato, alguns saurópodes como o Diplodocus tinham caudas extremamente compridas que terminavam em ossos finos que podiam ser usados como um chicote, e o Shunosaurus da China possuía uma clava não tão diferente da dos anquilossauros. Ambos exemplos, embora muito maiores do que qualquer animal terrestre atual, eram anões para os padrões dos saurópodes.

Ou no caso o Spinophorosaurus, q é quase igual ao Shunosaurus.

Ou no caso o Spinophorosaurus, q é quase igual ao Shunosaurus. Remes K, Ortega F, Fierro I, Joger U, Kosma R, et al. (2009)

Na mesma lógica, os braquiossauros possuíam pernas dianteiras muito maiores que as traseiras, suportando um longo pescoço que permanecia quase completamente vertical, mas possuíam caudas muito curtas em comparação aos outros saurópodes. Tão curtas de fato que não me surpreenderia se formas com caudas ainda menores aparecessem se estes tivessem continuado a existir por mais tempo.

Lagarto braço, realmente.

Lagarto braço, realmente. Brachiosaurus brancai (agora Giraffatitan brancai) por Paul Olsen, 1988

Os exemplos mais estranhos pertencem aos ceratopsianos. Os ceratopsianos maiores que dominavam a América do Norte no final do Cretáceo são conhecidos por grandes escudos ósseos, longos chifres e corpos robustos… Além de uma cauda patética. Da mesma forma que os dinossauros de armadura, os ceratopsianos possuíam uma constituição mais robusta, mas diferentes deles suas caudas são tão curtas e finas que é difícil imaginar que elas fossem usadas para defesa ou contrabalancear seus crânios – o que é estranho já que estes parecem ter sido bem pesados apesar das fenestras em seus escudos, que diminuíam o peso desses adornos. Neste caso é possível que de fato a cauda tivesse um uso tão superficial que estaria em processo de atrofia.

Ainda mais estranhos são os paquicefalossauros. Estes dinossauros com parentesco com os ceratopsianos são conhecidos por seus crânios espessos que utilizavam em batalhas de cabeçadas (isso mesmo. Eu abordarei esse tópico em outro artigo), mas outra característica peculiar desse grupo são suas caudas, cobertas por uma rede de tendões entrelaçados na ponta, o oposto do que acontece nos dinossauros ornitísquios, mas semelhante ao que é visto em alguns tipos de terópodes, como os dromeossauros. Neste caso, a cauda incrivelmente rígida que essa estruturação formava evidencia que os paquicefalossauros favoreciam a agilidade.

Com estes pontos em consideração, parece razoável concluir que os ornitópodes tal como o Corythosaurus utilizavam caudas para se equilibrar, mas apenas quando estes se locomoviam em postura bípede. Suas pernas dianteiras eram finas demais para suportar o estresse que uma locomoção em alta velocidade em postura quadrúpede causaria. Visto que estes dinossauros carecem de defesas e tamanho avantajado, sua única chance contra predadores era de fato fugir, e diferente de outros os ornitópodes eram capazes de se locomover tanto numa postura bípede quanto numa postura quadrúpede.

Um Corythosaurus pastando as samambaias rasteiras e as folhas das árvores permaneceria com sua cauda caída, sem a necessidade de se equilibrar enquanto permanecia nas quatro patas; ao menor sinal de perigo eles adotariam uma postura bípede e utilizariam sua cauda para manter o equilíbrio durante a fuga, essencialmente funcionando mais como um terópode do que como um ceratopsiano, por assim dizer. Já afastado do perigo, os tendões relaxariam e sua cauda voltaria à posição caída, o animal provavelmente exausto.

corytho

Corythosaurus em posição relaxada (cima) e em fuga (baixo). Agradecimentos a Rafael por ter coragem em ilustrar minha idéia.

Adicionalmente, dinossauros herbívoros são conhecidos por adaptações que amplificavam sua capacidade de digerir matéria vegetal: o formato de sua bacia permitia intestinos mais extensos a fim de aproveitar o máximo do que consumiam, e ornitópodes representavam as formais mais avançadas desse modelo. De fato, seu trato intestinal parecia se estender um pouco mais na cauda do que a maioria dos dinossauros, embora provavelmente não fosse uma adição tão drástica, com certeza era bem vinda. É possível que os tendões acima da bacia também erguessem a estrutura da cauda o suficiente para dar espaço para essa expansão, mas isso é um pouco mais difícil de averiguar já que tecidos moles são um pouco mais difíceis de comparar apenas com fósseis.

Em conclusão, dinossauros possuíam caudas em vários formatos para vários usos, e só por que eles possuem tendões na cauda e sangue quente não significa que eles possuam uma barra de ferro como cauda. Embora o Corythosaurus tenha sido usado como o ponto inicial para essa idéia, é possível que outros dinossauros caíssem nessa categoria. Portanto se você ver uma ilustração de dinossauro de qualquer tipo passeando e dito dinossauro o fizer com sua cauda completamente paralela ao chão, você tem a minha permissão para gritar “ERRADO!”, pois o dinossauro provavelmente está cansado de ficar de cauda erguida.

Espero que tenham gostado desse artigo; quaisquer dúvidas ou comentários eu farei o possível para responder. Até a próxima!

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Referências e material adicional:

Leonardo, the mummified dinosaur. Disponível online em: : <www.youtube.com/watch?v=ihifMrV3-pY>. Acessado em 1º de dezembro de 2011.

Paul, G. S. et al. 2010: The Princeton Field Guide to Dinosaurs. Princeton University Press.

Wikipedia. Corythosaurus. Disponível online em: : <en.wikipedia.org/wiki/Corythosaurus>. Acessado em 1º de dezembro de 2011.

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