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Sexta Selvagem: Orquídea-de-Darwin

por Piter Kehoma Boll

Orquídeas compreendem uma das mais numerosas famílias de plantas, então está mais do que na hora de ter uma orquídea na Sexta Selvagem. E qual escolha poderia ser melhor que a orquídea-de-Darwin, Angraecum sesquipedale?

Nativa de Madagascar, a orquídea-de-Darwin tem belas flores brancas em forma de estrela com uma aparência cerosa que são produzidas na natureza de Junho a Setembro. É uma orquídea epífita, crescendo em árvores, e suas raízes podem atingir vários metros de comprimento em torno dos troncos das árvores.

As flores brancas cerosas da orquídea-de-Darwin. Note os longos esporões pendendo das flores. Foto de Wildred Duckitt*.

As flores brancas cerosas da orquídea-de-Darwin. Note os longos esporões pendendo das flores. Foto de Wildred Duckitt*.

A característica mais distinta dessa espécie é a presença de um esporão muito longo, um tubo de até 43 cm de comprimento que contém o néctar. O epíteto “sesquipedale” é dado devido a essa estrutura, significando “um pé e meio de comprimento” em Latin, referindo-se ao comprimento do final do esporão à ponta da sépala dorsal. Após examinar várias flores, o naturalista Charles Darwin previu a existência de um polinizador com uma probóscide que seria longa o suficiente para atingir o néctar no final da espora. Mais tarde, Alfred Wallace notou que a mariposa-esfinge-de-Morgan (Xanthopan morganii), encontrada na África Oriental, possui uma probóscide quase longa o bastante para atingir o néctar e sugeriu que os naturalistas procurassem por espécies similares em Madagascar. De fato, algum tempo depois, espécimes da mariposa-esfinge-de-Morgan com uma probóscide muto longa, longa o bastante para atingir o final da espora, foram encontradas em Madagascar, confirmando a previsão de Darwin. Infelizmente isso aconteceu somente depois da morte de Darwin, de forma que ele nunca ficou sabendo da descoberta…

Atualmente há muitos cultivares e híbridos da orquídea-de-Darwin ao redor de todo o mundo.

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Referências:

Nilsson, L. A. 1988. The evolution of flowers with deep corolla tubes. Nature, 333: 147-149. DOI: 10.1038/334147a0

Wikipedia. Angraecum sesquipedale. Disponível em: < https://en.wikipedia.org/wiki/Angraecum_sesquipedale >. Acesso em 18 de junho de 2016.

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Sexta Selvagem: Flor-cadáver

por Piter Kehoma Boll

Acho que a maioria de vocês já conhece a Rafflesia arnoldii, a flor-cadáver, visto que ela é bem popular por várias razões. Mas às vezes é legal mostrar os clássicos, certo?

Descrita em 1822 por Robert Brown, a flor-cadáver é notável por ter a maior entre todas as plantas com flores (e sem flores também). Seu nome científico honra seus dois descobridores, o estadista Sir Thomas Stamford Bingle Raffles e o botânico Joseph Arnold, os quais coletaram o primeiro espécime em 1818. Ela é conhecida das ilhas indonésias de Sumatra e Bornéu, ocorrendo em florestas secundárias e primárias. É uma das três flores nacionais da Indonésia.

Rafflesia arnoldii. Foto de Henrik Hansson*.

Rafflesia arnoldii. Foto de Henrik Hansson*.

Ainda há muitas outras coisas esquisitas sobre ela para mencionar. Seu nome comum, flor-cadáver, é devido ao fato de as flores cheirarem a carne podre para atrair moscas da carniça dos gêneros Lucilia e Sarcophaga que as polinizam. Além disso, Rafflesia arnoldii também é uma planta parasita, extraindo todos os nutrientes de que precisa das raízes e caules de cipós do gênero Tetrastigma, de forma que ela não tem nem raízes nem folhas e passa a maior parte de sua vida escondida dentro da planta parasitada. A única estrutura visível é a flor, a qual leva meses para crescer, mas se mantém aberta somente por poucos dias.

Atualmente a flor-cadáver não é avaliada pela IUCN, de forma que não está designada como ameaçada, mas a perturbação humana em seu hábitat natural, incluindo o ecoturismo, parece diminuir o número de flores que abrem a cada ano.

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Referências:

Brown, R. 1821. XV. An Account of a new Genus of Plants, named Rafflesia. Transactions of the Linnean Society of London, 13 (1), 201-234 DOI: 10.1111/j.1095-8339.1821.tb00062.x

KEW Royal Botanic Gardens: Rafflesia arnoldii (corpse flower). Disponível em: <http://www.kew.org/plants-fungi/Rafflesia-arnoldii.htm > Acesso em 8 de fevereiro de 2013.

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Se você gosta de flores, deveria amar insetos

por Piter Keboma Boll

Todo mundo gosta de flores, certo? Elas são tão coloridas e bonitas e geralmente possuem um aroma maravilhoso. As pessoas amam tê-las em seus jardins e mulheres amam receber um belo buquê de flores de seus namorados.

Algumas plantas com flores, da esquerda para a direita: Rosa 'Hybrid Tea', Pachystachys lutea e Zinnia elegans. Todas as fotos por Piter K. Boll (isto é, eu mesmo)*.

Algumas plantas com flores, da esquerda para a direita: Rosa ‘Hybrid Tea’, Pachystachys lutea e Zinnia elegans. Todas as fotos por Piter K. Boll (isto é, eu mesmo)*.

Mas por quê as flores são tão bonitas? É claro que as flores vistas acima são derivadas de variedades artificialmente selecionadas por humanos para aumentar sua beleza, mas flores na natureza também são maravilhosas!

Flores que ocorrem naturalmente. Da esquerda para a direita: Oxalis sp., Ipomoea fimbriosepala e Zephyranthes robusta. Todas as fotos minhas de novo (Piter K. Boll)*

Flores que ocorrem naturalmente. Da esquerda para a direita: Oxalis sp., Ipomoea fimbriosepala e Zephyranthes robusta. Todas as fotos minhas de novo (Piter K. Boll)*

Certamente essa beleza não possui a intenção de agradar pessoas ou o que quer que seja. Isso é pura besteira e somente alguns religiosos poderiam ter uma ideia tão errada. Se as plantas possuem belas flores, isso precisa dar-lhes alguma vantagem.

Como todos sabem (ou assim espero), as plantas geralmente não podem se mover como os animais, de forma que elas estão condenadas a ficar quietas em seu lugar. Isso pode significar uma porção de problemas quando você está procurando por recursos como água, luz ou elementos básicos como nitrogênio. Assim a evolução levou ao surgimento de estruturas incríveis para fazer as plantas sobreviverem, como adquirir um caule rígido para se tornar mais alta ou desenvolver folhas menores ou maiores, espinhos, gavinhas, ou mesmo se tornar carnívoras. Mas as plantas também precisam se reproduzir e para isso elas precisam de um parceiro, mas visto que elas são presas ao substrato, elas precisam encontrar maneiras alternativas de juntar seus gametas.

A maioria das plantas primitivas resolve isso através da água ou do vento, apenas deixando suas estruturas reprodutivas partirem e esperando que elas cheguem ao seu destino. Como você pode ver, este método não é o melhor, visto que a fertilização ocorre totalmente por sorte. Além disso, estas maneiras são limitadas em relação aos locais em que são bem-sucedidas. Uma planta fertilizada pela água precisa estar dentro da água ou viver próxima ao solo ou em locais onde ela eventualmente ficará submersa; da mesma forma, uma planta que depende do vento precisa, é claro, estar onde o vento sopra.

Musgo (esquerda) depende de água para se reproduzir, enquanto coníferas (direita) precisam de vento. Mais uma vez, fotos de Piter K. Boll.*

Musgo (esquerda) depende de água para se reproduzir, enquanto coníferas (direita) precisam de vento. Mais uma vez, fotos de Piter K. Boll.*

Esses métodos, apesar de limitados, funcionaram bem o bastante por milhões de anos até algum ponto do período cretáceo, quando um grupo de animais começou a se diversificar de maneira impressionante: os insetos.

Insetos são pequenos e prolíficos. Eles possuem um esqueleto externo duro de quitina, o que previne a desidratação e muitos ferimentos, e muitos deles aprenderam a voar, assim sendo capazes de cruzar grandes distâncias e colonizar novos ambientes.

Os insetos existem, claro, pelo menos desde o Carbonífero. O mais famoso deles é a libélula gigante Meganeura. Mas durante o Cretáceo aqueles grupos que hoje são os mais diversos começaram a aparecer em fósseis: formigas, abelhas, cupins, borboletas, mariposas, pulgões e gafanhotos. Besouros, o grupo mais diverso de insetos hoje (contendo mais espécies que todos os outros artrópodes juntos) são encontrados em fósseis desde o Carbonífero, mas quase se tornaram extintos durante a divisão Permiano-Triássico que marca a extinção em massa mais terrível na Terra. Após esse evento trágico, eles se mantiveram mais discretos até uma exploração em diversificação no Cretáceo junto com os insetos já mencionados.

Bem, todos esses insetos precisavam comer pra caramba e começaram a se alimentar de plantas, incluindo seu pólen. Isso poderia ser um sério problema, mas as plantas acharam um jeito de lidar com isso modificando a si mesmas de forma que os insetos se tornaram algo útil a elas.Se os insetos eram atraídos pelo seu pólen, por que eles não poderiam carregá-lo para outras plantas, assegurando assim uma fertilização mais segura? Foi isso mesmo que as plantas fizeram, mas para atrair os insetos ainda mais para seus órgãos reprodutores, elas começaram a aumentar de tamanho e a adquirir belas cores. Isso tudo aconteceu através de seleção natural de mutações aleatórias, é claro. Ninguém está assumindo que as plantas ou os insetos realmente escolheram mudar, isso é besteira. O que estou tentando dizer (de forma mais simples) é que aquelas plantas que eram capazes de conectar alguns de seus grãos de pólen aos insetos, de forma que eles atingissem outras plantas que o inseto visitasse, eram mais bem sucedidas em se reproduzir. Da mesma forma, aquelas plantas com flores mais bonitas atraíam mais insetos e também eram mais bem sucedidas se reproduzindo.

Enfim, é por isso que devemos agradecer aos insetos por existirem, porque sem eles não teríamos flores tão bonitas para decorar nossas vidas. E se você gosta de flores, mas odeia insetos, bem, você está sendo muito injusto com a natureza.

Eu sei que alguns podem pensar “mas eu gosto de borboletas. Elas são bonitas e legais e fofas e polinizam tudo, então só preciso gostar destes insetos e não de todas aquelas coisas nojentas.”

Ah é mesmo? Então você gosta de borboletas? Estou certo de que você gosta desta:

Lagarta de Agraulis vanillae. Foto de Bill Frank, extraída de jaxshells.org

Lagarta de Agraulis vanillae. Foto de Bill Frank, extraída de jaxshells.org

A maioria das pessoas gosta de borboletas e odeia lagartas, mas elas são exatamente a mesma coisa. E na verdade esses insetos passam a maior parte da vida como larvas. Agora só para saciar sua curiosidade, é com isso que aquela lagarta se parece quando adulta:

Um adulto de Agraulis vanillae em um capítulo de Zinnia elegans. Foto de Piter K. Boll.*

Um adulto de Agraulis vanillae em um capítulo de Zinnia elegans. Foto de Piter K. Boll.*

Mas borboletas não são os únicos polinizadores e nem mesmo os mais comuns. Abelhas, como você sabe, são também muito importantes e os principais polinizadores de muitas plantas economicamente importantes, especialmente frutíferas. Vespas, moscas, mosquitos, moscas-escorpiões e mariposas também são importantes, mas não podemos esquecer dos besouros.

A maioria das angiospermas basais e primitivas são polinizadas por besouros, então esses caras devem estar por trás do surgimento e da diversificação de plantas com flores. Há muitas evidências para isso, como um aumento da diversidade de angiospermas no registro fóssil sendo contemporânea com um aumento de espécies de besouros.

Recentemente, algumas flores fósseis da época turoniana (cerca de 90 milhões de anos) foram encontradas em Sayreville, New Jersey. Elas foram chamadas de Microvictoria svitkoana devido à impressionante similaridade com a vitória-régia, Victoria amazonica, apesar de muito menores em tamanho.

Flor de Victoria amazonica, uma das angiospermas mais primitivas. É fácil notar que ela de certa forma ainda lembra um cone de conífera. Foto de Frank Wouters.*

Flor de Victoria amazonica, uma das angiospermas mais primitivas. É fácil notar que ela de certa forma ainda lembra um cone de conífera. Foto de Frank Wouters.*

Apesar de primitiva, é certamente uma flor muito bonito, e só pode existir graças a besouros do gênero Cyclocephala, como este:

Cyclocephala hardyi, um besouro que poliniza Victoria amazonica. Foto extraída de ssaft.com/Blog/dotclear/

Cyclocephala hardyi, um besouro que poliniza Victoria amazonica. Foto extraída de ssaft.com/Blog/dotclear/

O que achou dele? Até que é um rapaz legal, não é? Se você olhar mais de perto, verá que cada inseto é impressionante de sua própria forma, até mesmo baratas!

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Referências:

Béthoux, O. 2009. The Earliest Beetle Identified. Journal of Paleontology, 83(6), 931-937 DOI: 10.1666/08-158.1

Crepet, W. L. 1996. Timing in the evolution of derived floral characters: Upper Cretaceous (Turonian) taxa with tricolpate and tricolpate-derived pollen. Review of Palaeobotany and Palynology, 90, 339-359 DOI: 10.1016/0034-6667(95)00091-7

Gandolfo, M. A., Nixon, K. C. and Crepet, W. L. 2004. Cretaceous flowers of Nymphaeaceae and implications for complex insect entrapment pollination mechanisms in early Angiosperms. PNAS, 101 (21), 8056-8060 DOI:10.1073/pnas.0402473101

Seymour, R. S. and Matthews, P. G. D. 2006. The Role of Thermogenesis in the Pollination Biology of the Amazon Waterlily Victoria amazonica. Annals of Botany, 98 (6), 1129-1135 DOI: 10.1093/aob/mcl201

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