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Sexta Selvagem: Cigarra-Tinidora

por Piter Kehoma Boll

Há mais de 3 mil espécies de cigarra no mundo e elas são frequentemente associadas com o verão, quando se tornam adultas e seus cantos são ouvidos vindo das árvores. Hoje vou focar numa espécie australiana, Psaltoda claripennis, conhecida como em inglês como “clanger cicada”, nome que adaptei como “cigarra-tinidora”.

A cigarra-tinidora é encontrada no leste da Austrália e é comum em Brisbane e arredores, onde é facilmente vista em galhos de árvores, às vezes em grupos. Elas possuem um dorso amarronzado com alguns segmentos escuros, às vezes pretos, no abdome. O lado ventral é pálido, exceto pelo abdome, o qual é marrom, e as pernas, que são amarelas. Os olhos são vermelho-claros a vermelho-amarronzados e as asas são transparentes com nervuras verdes. Os machos medem cerca de 30 mm de comprimento e as fêmeas são ligeiramente menores, com cerca de 25 mm.

Macho (esquerda) e fêmea (direita) de cigarra-tinidora em Brisbane, Austrália. Extraído de brisbaneinsects.com.

Não consegui encontrar muita informação sobre sua história natural. Esta espécie na verdade era só mais uma entre muitas espécies de cigarra até alguns anos atrás quando uma descoberta interessante foi feita.

As asas de cigarras são estruturas lindas e geralmente são muito limpas. De fato, muitas espécies de insetos encontram formas de manter suas asas limpas mesmo em ambientes muito contaminados e uma das razões para isso é que asas de insetos são extremamente hidrofóbicas, isto é, elas repelem água da mesma forma que muitas folhas de plantas. Visto que a água tem dificuldade de se prender às asas, microrganismos associados à água também não conseguem chegar a elas.

Mas as asas da cigarra-tinidora são mais do que só hidrofóbicas. Estudos mostraram que cada célula de bactérias gram-negativas que acaba tocando a superfície da asa se deforma e morre. O mesmo não acontece com bactérias gram-positivas, no entanto. À medida que os estudos progrediram, os pesquisadores passaram a entender o arranjo estrutural das asas. A superfície delas é formada por pilares muito pequenos, com apenas 30 nm de altura, e distantes 170 nm um do outro. Quando uma bactéria gram-negativa cai nos pilares, suas membranas moles começam a escorregar para o espaço entre eles e se esticam o suficiente para romper. A pobre célula acaba como uma massa disforme e morta. Bactérias gram-positivas possuem paredes celulares mais rígidas e são resistentes ao esticamento, mas um tratamento com micro-ondas reduziu a rigidez e permitiu que elas também fossem mortas.

Nanoestrura da asa da cigarra-tinidora e representação de como uma bactéria morre ao tocá-la. Créditos a Pogodin et al. (2013).

Mais pesquisas sobre esta estrutura podem levar ao desenvolvimento de novos materiais que permanecem estéreis mesmo após contato com um patógeno.

Mais uma vez a diversidade de formas de vida nos trouxe maneiras de melhorar a sociedade. Quantas outras coisas úteis estão escondidas nas florestas e nos campos? Preservar os ecossistemas é o melhor para todos os habitantes deste planeta.

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Referências:

Xue F, Liu J, Guo L, Zhang L, Li Q (2015) Theoretical study on the bactericidal nature of nanopatterned surfaces. Journal of Theoretical Biology 385:1–7. https://doi.org/10.1016/j.jtbi.2015.08.011

Hasan J, Webb HK, Truong VK et al. (2013) Selective bactericidal activity of nanopatterned superhydrophobic cicada Psaltoda claripennis wing surfaces. Applied Microbiology and Biotechnologt 97:9257–9262. https://doi.org/10.1007/s00253-012-4628-5

Pogodin S, Hasan J, Baulin VA et.al. (2013) Biophysical Model of Bacterial Cell Interactions with Nanopatterned Cicada Wing Surfaces. Biophysical Journal 104(4): 835–840. https://doi.org/10.1016/j.bpj.2012.12.046

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