Arquivo da tag: Ascomycota

Sexta Selvagem: Bolor-Cinzento

por Piter Kehoma Boll

Na Sexta Selvagem de hoje mostraremos como a beleza é só uma questão de perspectiva. Sendo um fungo ascomiceto conhecido comumente como bolor-cinzento, a espécie de hoje geralmente é encontrada crescendo em vegetais em decomposição, especialmente frutas como o morango na foto abaixo:

Botrytis_cinerea1

Bolor-cinzento crescendo num morango. A maioria das pessoas não consideraria isso como uma imagem bonita. Foto do usuário Rasbak do Wikimedia.*

O bolor-cinzento tem uma nomenclatura biológica controversa, assim como muitos outros fungos. O nome mais comum é Botrytis cinerea, usado para seu estágio assexual (anamorfo), que é o mais comum. Seu estágio sexual (teleomorfo) é conhecido como Botryotina fuckeliana. Eu acho que esse problema, que era comum ao dar nome a fungos com estágio sexual de ocorrência rara ou desconhecida, já foi resolvido, mas como não sou um taxonomista de fungos, não posso falar muito sobre o assunto.

Mais do que somente ter um nome controverso, este fungo também tem uma interação controversa com humanos. Ele é uma praga notável em uvas e pode levar a dois diferentes tipos de infecção nelas. Uma delas é conhecida como “podridão cinzenta” e acontece em condições muito úmidas, levando à perda das uvas. A outra é chamada “podridão nobre” e é uma forma benéfica da infecção que acontece quando a condição úmida é seguida por uma seca, o que leva à produção de um vinho fino e doce devido à concentração de açúcares na uva.

Fora do mundo dos vinhos, contudo, o bolor-cinzento não é algo que você quer crescendo em suas plantações. Visto que ele ataca mais de 200 espécies, muitas delas sendo vegetais alimentícios importantes, há um grande interesse no desenvolvimento de estratégias para reduzir os dano que ele causa. E essas estratégias incluem o uso de pesticidas, óleos essenciais de plantas e mesmo outros organismos que podem parasitar o bolor-cinzento.

Mas não podemos negar que, se olharmos de perto, mesmo o bolor cinzento é belo:

Botrytis_cinerea

Uma linda florestinha de bolor-cinzento num morango. Foto de Macroscopic Solutions.**

– – –

Referências:

Wikipedia. Botrytis cinerea. Available at <https://en.wikipedia.org/wiki/Botrytis_cinerea&gt;. Access on June 2, 2017.

WILLIAMSON, B., TUDZYNSKI, B., TUDZYNSKI, P., & VAN KAN, J. (2007). Botrytis cinerea: the cause of grey mould disease Molecular Plant Pathology, 8 (5), 561-580 DOI: 10.1111/j.1364-3703.2007.00417.x

– – –

*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

**Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 2.0 Genérica.

Deixe um comentário

Arquivado em Fungos, Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Copo-de-elfo-escarlate

por Piter Kehoma Boll

Se você gosta de prestar atenção nos cogumelos crescendo no solo das florestas, pode ter encontrado esse camarada algumas vezes, especialmente se você vive no hemisfério norte. Cientificamente conhecido como Sarcoscypha coccinea, seu nomes comuns incluem copo-de-elfo-rubi, copo-de-elfo-escarlate, chapéu-de-elfo-escarlate ou simplesmente copo-escarlate.

O copo-de-elfo-escarlate é um ascomiceto, de forma que é mais proximamente relacionado às morelas e às trufas que aos cogumelos mais famosos com forma de guarda-chuva. Seu corpo de frutificação em forma de taça possui uma cor vermelho-viva por dentro e uma cor branca por fora. Ele pode ser encontrado crescendo em madeira podre em florestas na América do Norte e da Europa, apesar de também ter sido registrado na Austrália e no Chile.

sarcoscypha_coccinea

Belos copos-de-elfo-escarlates crescendo num tronco caído. Foto do usuário ceridwen do geograph.

Os corpos de frutificação do copo-de-elfo-escarlate podem variar dependendo das condições ambientais. Geralmente aqueles crescendo em madeira enterrada em locais protegidos do vento são os maiores, enquanto aqueles crescendo em madeira sobre o solo e expostos ao vento são geralmente menores. Não há consenso sobre se os corpos de frutificação são comestíveis ou não. Alguns autores o consideram comestível, enquanto outros não recomendam sua ingestão. Contudo há registros de pessoas comendo-os, e eles também são usados como medicamento por povos nativos americanos, tal como o povo Oneida.

– – –

Referências:

EOL. Encyclopedia of Life. Sarcoscypha coccinea. Disponível em < http://eol.org/pages/1009245/overview >. Acesso em 1 de março de 2017.

Wikipedia. Sarcoscypha coccinea. Disponível em <https://en.wikipedia.org/wiki/Sarcoscypha_coccinea >. Access em 1 de março de 2017.

– – –

*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 2.0 Genérica.

Deixe um comentário

Arquivado em Fungos, Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Líquen-solar-elegante

por Piter Kehoma Boll

Bipolar e alpino em distribuição, ocorrendo tanto em regiões árticas e antárticas quanto nos Alpes e áreas temperadas próximas, o líquen-solar-elegante (Xanthoria elegans) é uma bela e interessante criatura. Como todos os líquens, ele é formado por um fungo associado a uma alga.

Um líquen-solar-elegante crescendo sobre uma rocha nos Alpes. Foto do usuário do flickr Björn S...*

Um líquen-solar-elegante crescendo sobre uma rocha nos Alpes. Foto do usuário do flickr Björn S…*

O líquen-solar-elegante cresce em rochas e geralmente tem um formato circular e uma cor vermelha ou laranja. Crescendo muito lentamente, a uma taxa de 0.5 mm ao ano, ele é útil para estimar a idade da face de uma rocha por uma técnica chamada liquenometria. Conhecendo-se a taxa de crescimento de um líquen, pode-se assumir a idade do líquen pelo seu diâmetro e assim determinar o tempo mínimo em que a rocha está exposta, já que um líquen não pode crescer numa rocha se ela não está lá, certo? Esta taxa de crescimento não é tão regular entre todas as populações. Liquens crescendo perto dos polos geralmente crescem mais rápido porque parecem ter taxas metabólicas mais altas para sobreviver a climas mais frios.

Além do seu uso para determinar a idade de uma superfície de rocha, o líquen-solar-elegante é um organismo modelo em experimentos relacionados à resistência aos ambientes extremos do espaço sideral. Ele mostrou ter a habilidade de sobreviver e se recuperar de exposições ao vácuo, a radiações UV, raios cósmicos e temperaturas variáveis por até 18 meses!

Talvez quando finalmente chegarmos a um novo planeta habitável, descobriremos que o líquen-solar-elegante já chegou lá séculos antes de nós!

– – –

Referências:

Murtagh, G. J.; Dyer, P. S.; Furneaux, P. A.; Critteden, P. D. 2002. Molecular and physiological diversity in the bipolar lichen-forming fungus Xanthoria elegans. Mycological Research, 106(11): 1277–1286. DOI: 10.1017/S0953756202006615

Wikipedia. Xanthoria elegans. Available at: < https://en.wikipedia.org/wiki/Xanthoria_elegans >. Access on June 30, 2016.

– – –

Creative Commons License
*Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 2.0 Genérica.

Deixe um comentário

Arquivado em Algas, Botânica, Ecologia, Evolução, Fungos, Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Fungo-da-lagarta-chinês

por Piter Kehoma Boll

A maior parte de vocês deve ter ouvido falar daqueles fungos terríveis que transformam pobres insetos em zumbis, mas você sabia que um deles é usado na China como comida? Bem, o que NÃO é usado como comida pelos chineses, não é? Enfim, esse fungo é Ophiocordyceps sinensis (antigamente conhecido como Cordyceps sinensis), mas você pode chamá-lo de fungo-da-lagarta-chinês.

O fungo é conhecido como fungo-da-lagarta porque ele infecta larvas (lagartas) de várias mariposas-fantasmas (família Hepialidae). As lagartas vivem no subsolo em prados do Planalto Tibetano e se alimentam de raízes de muitas espécies de plantas. Elas eventalmente podem se infectar com os esporos do fungo, o que as leva a um fim terrível. Dentro da lagarta, o fundo começa a crescer, preenchendo o hospedeiro com hifas em forma de cordão e forçado-o a se mover para cima, mais perto da superfície, onde morre com a cabeça virada para cima. O fungo começa a crescer para fora da cabeça da lagarta morte e forma um pequeno botão. Depois que o inverno passou, o botão cresce para cima, emergindo do solo e formando um corpo de frutificação alongado que libera novos esporos no ambiente. Este é o estágio e que o fungo é colhido por humanos, junto com a lagarta.

O corpo de frutificação de Ophiocordyceps sinensis emergindo da cabeça de uma lagarta morta. Foto de Nicolas Merky.*

O corpo de frutificação de Ophiocordyceps sinensis emergindo da cabeça de uma lagarta morta. Foto de Nicolas Merky.*

O fungo possui vários usos médicos nas medicinas tibetana e chinesa. Ele é considerado como tendo efeitos afrodisíacos e rejuvenescedores e também é usado contra o câncer e para estimular o sistema imunológico, bem como para tratar doenças respiratórias e circulatórias, problemas dos rins e no fídago, fadiga, hiperglicemia, hiperlipidemia, astenia e muitas outras enfermidades. A medicina chinesa o considera como tendo um excelente balando de yin e yang, já que ele é “tanto animal quanto planta”. Vários metabólitos bioativos foram isolados do fungo e alguns deles demonstraram atividade antimicrobiana e antitumoral.

Como resultado desse uso como uma panaceia, o fungo tem sido colhido em excesso em seu habitat natural e é atualmente considerado uma espécie em perigo na China. Ele é, portanto, considerado raro hoje em dia e seu preço pode ser mais alto que o do ouro. O fungo pode ser cultivado em uma cultura líquida ou de grãos, mas tentativas de criá-lo dentro de lagartas não foram bem sucedidas.

– – –

Referências:

Zhang, Y.; Li, E.; Wang, C.; Li, Y.; Liu, X. 2012. Ophiocordyceps sinensis, the flagship fungus of China: terminology, life strategy and ecology. Mycology 3 (1): 2–10. DOI: 10.1080/21501203.2011.654354

Wikipedia. Ophiocordyceps sinensis. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Ophiocordyceps_sinensis >. Acesso em 26 de maio de 2016.

– – –

* Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

Deixe um comentário

Arquivado em Fungos, Sexta Selvagem