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Eles só se importam se você for fofo: como o carisma prejudica a biodiversidade

por Piter Kehoma Boll

Qual das duas espécies mostradas abaixo é mais carismática?

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Tangara chilensis (Tangará-do-paraíso). Foto do usuário do flickr ucumari.*

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Apocrypta guineensis (uma vespa-do-figo). Foto do usuário JMK do Wikimedia.**

Você provavelmente escolheria a primeira. E se eu perguntasse qual merece mais atenção e esforços para ser preservada, você provavelmente escolheria a ave também, ou ao menos a maioria das pessoas escolheria. Mas qual é o problema com isso? É isso que vou mostrar.

Como todos sabemos, a proteção da diversidade biológica é um assunto importante do mundo atual. Felizmente, há campanhas crescentes promovendo a preservação da biodiversidade, mas infelizmente elas são quase sempre direcionadas a um pequeno subconjunto de espécies. Você pode encontrar organizações buscando proteger tartarugas marinhas, tigres, águias ou pandas-gigantes, mas você consegue pensar em alguma querendo proteger besouros? A maioria dos programas de preservação visa criaturas grandes e carismáticas, como mamíferos, aves e plantas com flores, enquanto organismos menores e não tão fofos seguem negligenciados. E isso não é só verdade em ambientes que incluem pessoas não-biólogas, mas em todos os campos de pesquisa. E mais do que apenas levando a uma proteção de ecossistemas tendenciosa, esta preferência leva a milhares de espécies mal estudadas que poderiam trazer revoluções biotecnológicas para a humanidade.

Num estudo interessante publicado recentemente na Scientific Reports da Nature (veja referência abaixo), Troudet et al. analisaram a tendência taxonômica em dados de biodiversidade ao comparar a ocorrência de dados em vários grupos taxonômicos à diversidade desses grupos. Os resultados são impressionantes, apesar de não muito surpreendentes. Os grupos mais carismáticos, como aves, são, pode-se dizer, superestudados, com um excesso de registros, enquanto outros, como insetos, são altamente subestudados. Enquanto aves apresentam um total de 200 milhões de ocorrências acima do registro ideal, insetos tem cerca de 200 milhões abaixo do número ideal. E a situação não parece estar melhorando muito ao longo dos anos.

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A tendência é interessante e clara. A linha vertical indica o número “ideal” de ocorrências de cada grupo. Uma barra verde indica um excesso de ocorrências, enquanto uma barra vermelha indica uma falta de ocorrências. Aves e insetos estão em extremos opostos, mas certamente o desvio dos insetos é bem pior. Figura extraída de Troudet et al. (2017).***

Além disso, o estudo conclui que a principal razão para tal disparidade é simplesmente a preferência da sociedade, ou seja, os grupos mais estudados são os mais amados pelas pessoas em geral. O assunto é realmente um simples caso de carisma e tem pouco a ver com razões científicas ou de viabilidade.

A única maneira de mudar este cenário é se encontrarmos uma maneira de aumentar a percepção e o interesse do público geral sobre grupos menos carismáticos. Temos que torná-los interessantes para o público leigo de forma a receber seu apoio e aumentar o número de biólogos futuros que escolherão trabalhar com essas criaturas negligenciadas, mas muito importantes.

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Leia também:

Encontrados e depois perdidos: o lado não tão iluminado da taxonomia

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Referência:

Troudet, J.; Grandcolas, P.; Blin, A,; Vignes-Lebbe, R.; Legendre, F. (2017) Taxonomic bias in biodiversity data and societal preferences. Scientific Report 7: 9132. https://dx.doi.org/10.1038/s41598-017-09084-6

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**Creative Commons License
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***Creative Commons License
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Sexta Selvagem: Mosca-abelha-fofa

por Piter Kehoma Boll

Recentemente a revelação de um novo pokémon, Cutiefly, chamou muita atenção para a espécie do mundo real na qual ele é baseado. Então por que não trazê-la para a Sexta Selvagem de forma que vocês possam conhecer um pouco mais dessa criatura? Seu nome é Anastoechus nitidulus, o qual chamarei aqui de mosca-abelha-fofa, já que muitas pessoas a acham muito fofa.

A mosca-abelha-fofa é de fato bem fofa. Foto extraída de modernhorse.tumblr.com

A mosca-abelha-fofa é de fato bem fofa. Foto extraída de modernhorse.tumblr.com

A mosca-abelha-fofa pertence à família de moscas chamada Bombyliidae e comumente conhecidas como moscas-abelhas. O nome vem do fato de que os adultos geralmente se alimentam de néctar e pólen, assim como as abelhas, e alguns são importantes polinizadores.

Alimentando-se. Foto extraído do reddit, postada pelo usuário AnanasJonas.

Alimentando-se. Foto extraído do reddit, postada pelo usuário AnanasJonas.

Infelizmente, assim como com muitas espécies, a mosca-abelha-fofa pode ser muito popular entre os leigos e você encontra várias imagens legais dela na internet, tais como as de cima. Contudo, cientificamente, muito pouco se sabe de sua ecologia.

No entanto uma coisa é certa: apesar de ser fofa, ela não é uma criatura tão adorável. Sua vida adulta voando de flor em flor esconde um passado sombrio e maligno. Durante seu período como larva, moscas-abelhas são predadores ou parasitoides, o que significa que crescem comendo outros animais vivos, de dentro pra fora, em algo que certamente é bem horrível para a pobre vítima.

No caso da mosca-abelha-fofa, as coisas não são tão terríveis. Elas se alimentam de cápsulas de ovos de gafanhotos, especialmente do gênero Calliptamus, de forma que podemos dizer que elas são parasitoides de ovos e não de adultos, mas aí você se dá conta de que ovos têm embriões, então elas na verdade são comedoras de bebês!

O_O

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Referências:

References:

Brooks, A. (2012). Identification of Bombyliid Parasites and Hyperparasites of Phalaenidae of the Prairie Provinces of Canada, with Descriptions of Six Other Bombyliid Pupae (Diptera) The Canadian Entomologist, 84 (12), 357-373 DOI: 10.4039/Ent84357-12

Jazykov (Zakhvatkin), A. (2009). Parasites and Hyperparasites of the Egg-pods of injurious Locusts (Acridodea) of Turkestan Bulletin of Entomological Research, 22 (03) DOI: 10.1017/S0007485300029904

Wikipedia. Bombyliidae. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Bombyliidae >. Acesso em 26 de julho de 2016.

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Sexta Selvagem: Tapiti

por Piter Kehoma Boll

O que seria melhor para celebrar a Páscoa que trazer um coelhinho para a Sexta Selvagem?

Conheça o tapiti (Sylvilagus brasiliensis), também conhecido como coelho-do-mato ou, no Brasil, muitas vezes simplesmente como lebre. É um coelho muito fofo encontrado do sudeste do México até o norte da Argentina e o sul do Brasil, sendo a espécie de coelho mais disseminada na América do Sul.

Fofo como qualquer coelho, o tapiti também é bem camuflado. Foto de Dick Culbert.

Fofo como qualquer coelho, o tapiti também é bem camuflado. Foto de Dick Culbert.

Medindo cerca de 30 cm de comprimento e tendo um dorso marrom com um salpicado preto, o tapiti pode se esconder facilmente em seu ambiente, o qual inclui florestas, cerrados e campos do nível do mar até 4.800 m de altitude. A aparência camuflada é provavelmente a razão de ser avistado tão raramente, mesmo sendo uma espécie muito comum. O fato de também ser ativo principalmente durante a alvorada e o ocaso também diminui as chances de ser visto propriamente. A IUCN o classifica como “Pouco Preocupante”.

Se você mora nas Américas Central e do Sul, tente prestar atenção enquanto caminha pelo mato. Talvez tenha a oportunidade de avistar algum.

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Referências:

Wikipedia. Tapeti. Disponível em: < https://en.wikipedia.org/wiki/Tapeti >. Accesso em 24 de março de 2016.

EOL – Encyclopedia of Life. Sylvilagus brasiliensis. Disponível em: < http://eol.org/pages/118008/ >. Accesso em 24 de Março de 2016.

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