Arquivo da tag: algas

Sexta Selvagem: Musgo-Irlandês

por Piter Kehoma Boll

Crescendo abundantemente ao longo das costas do Atlântico Norte, nosso novo integrante da Sexta Selvagem é uma alga vermelha cartilaginosa conhecida comumente como musgo-irlandês e cientificamente como Chondrus crispus, que significa algo como “cartilagem crespa”.

chondrus_crispus

O musgo-irlandês geralmente aparece como uma massa de alga crespa macia e cartilaginosa com um tom vermelho ou roxo. Foto do usuário Kontos do Wikimedia.*

Atingindo cerca de 20 cm de comprimento, o musgo-irlandês fica preso ao substrato por uma base discoide e seu talo ramifica dicotomicamente quatro ou cinco vezes. A largura dos ramos pode variar de cerca de 2 a 15 mm e a cor varia ainda mais, indo de verde ou amarelado a vermelho escuro, roxo, marrom ou mesmo branco. Como com outras plantas, o musgo-irlandês tem uma forma gametófita (haploide) e uma esporófita (diploide). Os gametófitos tem uma iridescência azul (como visto na foto acima), enquanto os esporófitos possuem um padrão com pontos (também visto acima).

O musgo-irlandês é comestível e relativamente bem conhecido entre as comunidades vivendo onde ele cresce. Na Irlanda e na Escócia, ele é cozido com leite e adoçado para produzir um produto parecido com gelatina. A aparência cartilaginosa ou gelatinosa dessa alga e seus derivados é devido à presença de grandes concentrações de carragenina, um polissacarídeo que é amplamente usado na indústria alimentícia como agente engrossador e estabilizador e como uma alternativa vegana à gelatina.

Devido à sua importância econômica, o musgo-irlandês é cultivado em tanques para a extração de carragenina e outros produtos. Tanto o gametófito quanto o esporófito produzem carrageninas de tipos diferentes que podem ser usadas para diferentes propósitos.

– – –

Referências:

Chen, L. C.-M.; McLachlan, J. (1972) The life history of Chondrus crispus in culture. Canadian Journal of Botany 50(5): 1055–1060. http://doi.org/10.1139/b72-129

McCandless, E. L.; Craigie, J. S.; Walter, J. A. (1973) Carrageenans in the gametophytic and sporophytic stages of Chondrus crispus. Planta 112(3): 201–212.

Wikipedia. Chondrus crispus. Disponivel em < https://en.wikipedia.org/wiki/Chondrus_crispus >. Acesso em 1 de agosto de 2017.

– – –

*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Algas, Botânica, Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Cara-Comum

por Piter Kehoma Boll

É sempre difícil apresentar uma espécie menos carismática aqui. Não por elas serem menos interessantes para mim, mas porque não consigo encontrar boas informações disponíveis. Mas eu tento dar o melhor de mim para mostrar todos os aspectos de nossa incrível biodiversidade.

Hoje apresentarei outra alga, uma das mais complexas, a cara-comum, conhecida cientificamente como Chara vulgaris.

...armleuchteralgen

Um “campo” de cara-comum numa poça. Foto de Markus Nolf.*

Encontrada no mundo todo em ambientes de água doce, especialmente banhados e pântanos, a cara-comum pode na verdade ser um complexo de espécies. A planta costuma se tornar incrustada de carbonato de cálcio com o tempo, dando-lhe uma aparência pedregosa. Crescendo até 120 cm em comprimento/altura e tendo um talo central articulado com vários ramos saindo de cada nó, ela pode se assemelhar a uma cavalinha, mas sua estrutura é muito mais simples.

Se você olhar mais de perto, verá que o talo é formado por uma massa simples de células em cadeia, mas células bem grandes. Na verdade as células de espécies do gênero Chara estão entre as maiores células vegetais conhecidas. E tendo células tão grandes, as caras se tornaram especializadas em ciclose, um fenômeno pelo qual organelas e fluidos fluem através do citoplasma guiados por uma interação de moléculas de miosina que deslizam ao longo de moléculas de actina. E caso você não soubesse, miosina e actina são também as moléculas responsável pelas contrações musculares em animais.

chara_vulgaris

Uma olhada mais de perto no talo da cara-comum. Foto de Kristian Peters.*

A cara-comum é muito comum em campos de arroz e serve de substrato para bactérias fixadoras de nitrogênio. Assim, apesar de geralmente ser considerada uma erva-daninha nesses campos, sua presença na verdade pode ajudar a aumentar a fertilidade do solo em campos de arroz.

– – –

Referências:

Ariosa, Y., Quesada, A., Aburto, J., Carrasco, D., Carreres, R., Leganes, F., & Fernandez Valiente, E. (2004). Epiphytic Cyanobacteria on Chara vulgaris Are the Main Contributors to N2 Fixation in Rice Fields Applied and Environmental Microbiology, 70 (9), 5391-5397 DOI: 10.1128/AEM.70.9.5391-5397.2004

Wikipedia. Charales. Available at <https://en.wikipedia.org/wiki/Charales&gt;. Access on December 15, 2016.

Wikipedia. Cytoplasmic streaming. Available at < https://en.wikipedia.org/wiki/Cytoplasmic_streaming>. Access on December 15, 2016.

– – –

*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

Deixe um comentário

Arquivado em Botânica, Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Diatomácea-colar-de-roda

por Piter Kehoma Boll

A maioria de vocês deve saber o que são diatomáceas, algas microscópicas com carapaças de sílica que são muito abundantes nos oceanos do mundo e um dos principais produtores de oxigênio. Você pode ter visto imagens como esta abaixo, mostrando a diversidade de diatomáceas, mas você é  capaz de nomear uma espécie sequer?

diatoms

A bela, mas amplamente negligenciada por não-especialistas, diversidade de diatomáceas. Foto do usuário do Wikimedia Wipeter.*

Hoje decidi  trazer uma diatomácea à Sexta Selvagem e  me deixem contar: não foi nem um pouco fácil selecionar uma boa espécie com uma quantidade considerável de informações disponíveis e uma boa imagem. Mas ao final a vencedora do prêmio Primeira Diatomácea na Sexta Selvagem foi…

Thalassiosira rotula!

thalassiosira_rotula

Três indivíduos de Thalassiosira rotula conectados. Foto de micro*scope.**

Como com muitos microrganismos, esta espécie não possui nome comum e, como já é tradição aqui, eu decidi inventar um e escolhi o nome diatomácea-colar-de-roda. Diatomácea-colar parece ser um bom nome para espécies do gênero Thalassiosira, já que elas são formadas por vários indivíduos conectados entre si em um padrão que lembra um colar. Eu decidi chamar esta espécie particular de diatomácea-colar-de-roda por causa de seu epíteto específico, rotula, que significa rodinha em latim.

A diatomácea-colar-de-roda é uma espécie marinha encontrada no mundo todo perto da costa. É muito abundante e a espécie dominante em algumas áreas, de forma que possui uma grande importância ecológica. Pequenos crustáceos planctônicos, como copépodes, geralmente se alimentam da diatomácea-colar-de-roda e, como esses crustáceos são usados como alimento por animais muito maiores, a diatomácea-colar-de-roda é responsável por sustentar toda a teia alimentar.

– – –

Referências:

Ianora, A., Poulet, S., Miralto, A., & Grottoli, R. (1996). The diatom Thalassiosira rotula affects reproductive success in the copepod Acartia clausi Marine Biology, 125 (2), 279-286 DOI: 10.1007/BF00346308

Krawiec, R. (1982). Autecology and clonal variability of the marine centric diatom Thalassiosira rotula (Bacillariophyceae) in response to light, temperature and salinity Marine Biology, 69 (1), 79-89 DOI: 10.1007/BF00396964

– – –

*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

**Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 3.0 Não Adaptada.

Deixe um comentário

Arquivado em Algas, Sexta Selvagem

Novas Espécies: 21 a 31 de outubro

por Piter Kehoma Boll

Aqui está uma lista de espécies descritas de 21 a 31 de outubro. Ela certamente não inclui todas as espécies descritas. A maior parte das informações vem dos jornais Mycokeys, Phytokeys, Zookeys, Phytotaxa, Zootaxa, International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology e Systematic and Applied Microbiology, além de revistas restritas a certos táxons.

gelanoglanis_varii

A imagem mostra a cabeça diafanizada e corada de Gelanoglanis varii, um peixe-gato da bacia do Rio Tocantins recentemente descrito.

Arqueias

Bactérias

SARs

Plantas

Fungos

Esponjas

Cnidários

Platelmintos

Moluscos

Anelídeos

Nematódeos

Aracnídeos

Miriápodes

Crustáceos

Insetos

Peixes de nadadeiras rajadas

Lissanfíbios

Deixe um comentário

Arquivado em Taxonomia

Sexta Selvagem: Geleia-de-bruxa

por Piter Kehoma Boll

Quantas pessoas será que podem dizer que têm uma bactéria que lhes lembre da infância? Bom, pelo menos eu posso dizer que tenho.

Quando eu era criança e comecei a conhecer sobre o incrível mundo dos seres vivos que enchem nosso planeta, eu passava a maior parte do tempo do lado de fora olhando em cada cantinho do quintal e das matas próximas em busca de formas de vida interessantes. E uma que sempre chamou minha atenção era uma estranha massa gelatinosa verde-amarronzada que aparecia no chão na estação chuvosa.

nostoc_commune

Você já encontrou algo assim no chão? Foto do usuário do flickr gailhampshire.*

De início pensei ser algum tipo de alga verde, mas não fui capaz de identificar a espécie. Muitos anos depois eu finalmente descobri o que é, uma colônia de cianobactérias chamada Nostoc commune e comumente conhecida como gelatina-das-estrelas, manteiga-de-bruxa, geleia-de-bruxa, entre outros. Ela é  encontrada no mundo inteiro, dos trópicos até  as regiões polares.

Como em outras cianobactérias, a geleia-de-bruxa é formada por uma colônia de organismos unicelulares conectados em cadeia. Estas estão mergulhadas numa matriz gelatinosa de polissacarídeos que dá à colônia sua aparência gelatinosa.

nostoc_commune

Cadeias de Nostoc commune na matriz de polissacarídeos vistas sob o microscópio. Foto de Kristian Peters.**

Durante períodos secos, as colônias da geleia-de-bruxa dessecam e se tornam uma camada fina inconspícua no solo. Elas podem permanecer neste estado por décadas, talvez séculos, até que as condições ideais retornem.

Em alguns lugares, especialmente no Sudeste da Ásia, a geleia-de-bruxa é consumida como alimento, sendo um alimento tradicional no Ano Novo Lunar Chinês.

– – –

Referências:

Lipman, C. (1941). The Successful Revival of Nostoc commune from a Herbarium Specimen Eighty- Seven Years Old Bulletin of the Torrey Botanical Club, 68 (9) DOI: 10.2307/2481755

Tamaru, Y., Takani, Y., Yoshida, T., & Sakamoto, T. (2005). Crucial Role of Extracellular Polysaccharides in Desiccation and Freezing Tolerance in the Terrestrial Cyanobacterium Nostoc commune Applied and Environmental Microbiology, 71 (11), 7327-7333 DOI: 10.1128/AEM.71.11.7327-7333.2005

Wikipedia. Nostoc commune. Disponível em: < https://en.wikipedia.org/wiki/Nostoc_commune >. Acesso em 19 de setembro de 2016.

– – –

*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 2.0 Genérica.

**Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

Deixe um comentário

Arquivado em Algas, Bactérias, Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Euglena Vermelha

por Piter Kehoma Boll

Não seja tão idiota quanto o faraó egípcio no mito das pragas do Egito. Se acontecer de você encontrar um lago com água vermelha, como na imagem abaixo, certamente não é sangue. É simplesmente… uma alga tóxica!

Às vezes pode-se encontrar águas de um algo de cor vermelha. Foto extraída de naturamediterraneo.com/forum/, postada pelo usuário Carlmor.

Às vezes pode-se encontrar águas de um algo de cor vermelha. Foto extraída de naturamediterraneo.com/forum/, postada pelo usuário Carlmor.

A criatura responsável por esta coloração é nossa espécie do Sexta Selvagem de hoje: Euglena sanguinea, ou a euglena vermelha, um protista miscroscópico de água doce com uma distribuição cosmopolita. Estes organismos unicelulares possuem uma cor vermelha devido à presença de astaxantina, um pigmento também encontrado em alguns peixes, como salmão, e em crustáceos, como camarões e lagostas. Algumas aves também podem ter esse pigmento em suas penas. Em euglenas vermelhas, a astaxantina age como uma proteção contra radiação ultravioleta, de forma que quanto maior a incidência de radiaçãao UV, mais vermelhas as algas se tornam.

Uma fração de uma população de euglenas vermelhas sob o microscópio. Foto extraída de naturamediterranea.com/forum/, postada pelo usuário Carlmor.

Uma fração de uma população de euglenas vermelhas sob o microscópio. Foto extraída de naturamediterranea.com/forum/, postada pelo usuário Carlmor.

Quanto as condições são adequadas, geralmente devido a altas temperaturas e grandes quantidades de nutrientes, a euglena vermelha pode se tornar superpopulosa e cobrir toda a superfície de corpos d’água, fazendo-os parecerem vermelhos. A poluição da água, especialmente de esgoto doméstico, é uma das principais causas de aumento de nutrientes em corpos d’água e assim uma causa direta de florações de algas.

A euglena vermelha é conhecida por produzir euglenoficina, uma potente ictiotoxina, isto é, um composto que é tóxico para os peixes. Como resultado, florações de euglenas vermelhas podem levar a uma alta mortalidade de peixes, fazendo-as um organismo de grande importância para criadores de peixes.

– – –

Referências:

Gerber, S.; Häder, D-P. 2006. Effects of enhanced UV-B radiation on the red coloured freshwater flagellate Euglena sanguineaFEMS Microbiology Ecology, 13(3): 177-184. DOI: 10.1111/j.1574-6941.1994.tb00064.x

Wikipedia. Euglena sanguinea. Available at <https://en.wikipedia.org/wiki/Euglena_sanguinea&gt;. Access on  January 07, 2016.

Zimba, P. V.; Rowan, M.; Triemer, R. 2004. Identification of euglenoid algae that produce ichthyotoxin(s). Journal of Fish Diseases, 27: 115-117.

Deixe um comentário

Arquivado em Algas, Conservação, Ecologia, Poluição, Sexta Selvagem