Sexta Selvagem: Esfagno-Vermelho

por Piter Kehoma Boll

Entre os muitos tipos diferentes de ecossistemas encontrados na Terra, os paúis ou turfeiras são particularmente interessantes. Estas peculiares áreas úmidas são basicamente uma grande quantidade de matéria vegetal encharcada, tanto viva quanto morta. Geralmente muito ácidas, as turfeiras possuem taxas de decomposição muito baixas, de forma que a matéria vegetal se acumula mais e mais, às vezes atingindo vários metros de profundidade.

Os principais organismos responsáveis pela formação de turfeiras são musgos do gênero Sphagnum, conhecidos como esfagnos ou musgos-da-turfa (turfa sendo a matéria vegetal que forma as turfeiras). Encontrados pelo mundo todo, os esfagnos possuem a habilidade de absorver enormes quantidades de água, como uma esponja, e em condições secas podem liberar essa água nas áreas circundantes, ajudando-as a permanecerem úmidas.

Esfagno-vermelho no Canadá. Créditos à usuária maddieology do iNaturalist.*

Uma espécie de esfagno, o esfagno-vermelho, Sphagnum capillifolium, é encontrado na metade norte da América do Norte e na Europa, sendo uma espécie importante e geneticamente diversa. De fato, é provável que o esfagno-vermelho seja na verdade um complexo de muitas espécies muito similares. Seu nome científico, capillifolium, significando “folha-de-cabelo”, se refere ao formato peculiar da planta, que cresce em ramos retos e densamente próximos que se curvam para fora no topo, lembrando mechas de cabelo.

Espécimes mais verdes nos EUA. Foto de Joe Walewski.*

Apesar de a maioria das espécies de esfagno serem verdes como qualquer planta típica, o esfagno-vermelho e espécies proximamente relacionadas podem ter uma cor avermelhada. Contudo esta cor não é causada por pigmentos nos plastídeos, mas por um pigmento, esfagnorrubina, encontrado nas paredes celulares. A presença ou não de esfagnorrubina parece ser determinada por certas combinações de temperatura, luminosidade e hormônios. A função exata da esfagnorrubina é desconhecida, mas foi sugerido que ela possa ajudar a proteger a planta de herbivoria. Também é possível que a cor avermelhada funcione como um protetor solar, protegendo os cloroplastos da planta de radiação intensa, já que a esfagnorrubina absorve luz UV e azul.

Uma massa bem vermelha e bem encharcada na Escócia. Foto de Andrew Melton.*

Esfagnos no geral não são atrativos para herbívoros porque contêm grandes quantidades de compostos fenólicos, como taninos, que lhes dão um gosto adstringente e amargo. Estes compostos fenólicos também são a principal razão pela qual a turfa demora tanto para se decompor. Como resultado, turfeiras funcionam como imensos reservatórios de carbono, e cerca de 10 a 15% de todo o estoque de carbono no planeta está na forma de esfagno. De fato, a quantidade de carbono fixada por todas as outras formas de vida fototossintetizantes na Terra todo ano é menor que a quantidade mantida em turfeiras.

Espécimes ligeiramente avermelhados na Inglaterra. Foto de Jeremy Barker.*

Sphagnum é, portanto, um gênero essencial para manter os níveis de dióxido de carbono na atmosfera baixos, e o esfagno-vermelho é ainda mais importante porque ele parece ser uma espécie bem tolerante que pode sobreviver tanto em ambientes sombreados quanto ensolarados, bem como em condições com níveis altos e baixos de nitrogênio. Assim, ele pode resistir a interferências humanas melhor que outros esfagnos.

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Referências:

Bonnett SAF, Ostle N, Freeman C (2009) Short-term effect of deep shade and enhanced nitrogen supply on Sphagnum capillifolium morphophysiology. Plant Ecology 207: 347–358. https://doi.org/10.1007/s11258-009-9678-0

Gerdol R, Bonora A, Marchesini R, Gualandri R, Pancaldi S (1998) Growth Response of Sphagnum capillifolium to Nighttime Temperature and Nutrient Level: Mechanisms and Implications for Global Change. Arctic and Alpine Research 30(4): 288–395. https://doi.org/10.1080/00040851.1998.12002914

Verhoeven JTA, Liefveld WM (1997) The ecological significance of organochemical compounds in Sphagnum. Acta botanica neerlandica 46(2): 117–130. http://natuurtijdschriften.nl/record/541086

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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