Sexta Selvagem: Fungo-da-Crespeira

por Piter Kehoma Boll

Fungos são essenciais para a manutenção da vida na Terra, mas alguns também são um pé da folha, como Taphrina deformans, conhecido por causar a doença chamada crespeira.

A crespeira é uma doença que afeta pessegueiros (bem como nectarinas, que não são nada mais que uma variedade de pêssego) e eventualmente pode ocorrer em amendoeiras também. As hifas crescem entre as células das folhas e secretam enzimas que degradam celulose, bem como ácido indol-3-acético, um tipo de auxina, isto é, um hormônio vegetal que induz crescimento e divisão celular. Como resultado, folhas infectadas começam a se enrolar para dentro e para baixo, passando de verde a amarelo pálido e eventualmente vermelho.

Taphrina deformans causando crespeira num pessegueiro em Portugal, Créditos a Duarte Frade.*

Quando o fungo-da-crespeira está maduro, produz hifas verticais que crescem em direção à superfície da folha, se espalham logo abaixo da cutícula e formam ascos, célula em forma de saco preenchidas por ascósporos, os esporos sexuais. Os ascos rompem a superfície da folha e causam um aspecto esbranquiçado. Os ascósporos produzem conídios, os esporos assexuais, e esses são liberados no ambiente, onde esperam as condições ideais para germinarem.

Os conídios frequentemente ficam presos aos ramos da árvore e crescem como uma levedura. Eles infectam folhas novas assim que elas começam a crescer. Para conseguirem germinar e infectar folhas, os conídios requerem cerca de 3 mm de chuva seguidos de 12 dias com umidade suficiente e temperaturas abaixo dos 19 °C. Como resultado, as infecções são muito mais comuns em regiões temperadas e não ocorrem todo ano, já que às vezes os requisitos não são cumpridos. Fungicidas são geralmente eficientes para parar as infecções, mas se a umidade é alta demais e o fungo se espalhou demais, o tratamento pode não ser eficiente o bastante.

Uma folha bem crespa com a superfície esbranquiçada causada pelos ascos. Foto de Jerzy Opioła.**

Folhas infectadas não conseguem realizar a fotossíntese de forma eficiente e morrem cedo. Como resultado, a planta se torna fraca e produz poucos frutos ou nenhum, o que pode causar a perda total de uma safra.

O genoma do fungo-da-crespeira foi sequenciado e se mostrou consideravelmente pequeno comparado ao de outros patógenos fúngicos. Todavia cerca de 5% de seus genes só são encontrados em outros fungos patogênicos, incluindo, por exemplo, enzimas capazes de quebrar a cutícula de plantas, o que é necessário para que a infecção ocorra.

Genes capazes de produzir hormônios vegetais, como a auxina mencionada acima, parecem estar ausentes em espécies proximamente relacionadas. Apesar de ter sido levantada a ideia de que eles foram adquiridos das próprias plantas via transferência horizontal de genes, uma análise mais profunda sugeriu que eles se formam por caminhos bem diferentes e provavelmente evoluíram independentemente.

Quando algo funciona, a natureza inventa mais de uma vez, apesar de às vezes a segunda vez servir como uma forma de enganar a primeira.

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Referências:

Cissé OH, Almeida JMGCF, Fonseca A, Kumar AA, Salojärvi J, Overmyer K, Hauser PM, Pagni M (2013) Genome Sequencing of the Plant Pathogen Taphrina deformans, the Causal Agent of Peach Leaf Curl. mBio 4(3):e00055-13. https://doi.org/10.1128/mBio.00055-13

Martin EM (1940) The morphology and cytology of Taphrina deformans. American Journal of Botany 27(9):743–751. https://doi.org/10.2307/2436901

Wikipedia. Taphrina deformans. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Taphrina_deformans>. Acesso em 25 de junho de 2020.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 4.0 Internacional.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

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