Combatendo mosquitos Aedes com plantas carnívoras

por Piter Kehoma Boll

Dois mosquitos do gênero Aedes, Aedes aegypti e Aedes albopictus, são espécies invasoras em regiões tropicais e subtropicais a nível global. Enquanto A. aegypti é nativo da África, A. albopictus é originalmente do sudeste da Ásia, mas ambas as espécies foram disseminadas por humanos e continuam a expandir sua área de ocorrência.

As duas espécies são conhecidas como vetores de várias doenças que afetam humanos, especialmente aquelas causadas por espécies de Flavovirus, o que inclui febre amarela, dengue e zika. Chikungunya, causada por uma espécie de Alphavirus, também é transmitida a humanos por eles. Além disso, eles também podem transmitir alguns nematódeos, como o verme-do-coração que infecta o coração de cães e outros carnívoros.

Aedes aegypti picando um humano e tendo uma deliciosa e sangrenta refeição. Foto de James Gathany.

Por A. aegypti e A. albopictus serem uma ameaça tão grande à saúde pública, se livrar deles é prioridade. Aqui no Brasil, há uma campanha nacional massiva para reduzir a habilidade de Aedes de se reproduzir. Para isso, recomenda-se evitar recipientes com água parada em locais abertos, tal como vasos de flores, baldes, barris, pneus usados e praticamente tudo que possa reter água tempo o bastante para o desenvolvimento das larvas. Tenho que dizer, no entanto, que isso tudo parece ser em vão. Os mosquitos continuam a se espalhar e os casos de dengue continuam a aumentar. O fato é que os mosquitos vão achar um lugar para porem seus ovos. Se eles não encontrarem no quintal, encontrarão na floresta ou num terreno baldio.

Em vez de forçá-los a porem os ovos onde não podemos ver, deveríamos estimulá-los a porem os ovos em torno de nós e então matar as larvas. Vários predadores aquáticos já foram testados como aliados potenciais, incluindo peixes larvívoros, ninfas de libélula, copépodes, planárias e até outros mosquitos cujas larvas comem larvas de Aedes! O uso destes predadores apresentou resultados diversos. Peixes larvívoros são difíceis de manter em tanques em casa e ninfas de libélula são generalistas demais como predadores.

Agora um novo predador foi sugerido: uma planta! Sim, uma planta carnívora do gênero Utricularia, que inclui espécies conhecidas em inglês como bladderworts. Em português costumam ser chamadas simplesmente de utriculárias. Estas plantas aquáticas possuem estruturas em forma de bexiga (bladder em inglês) que funcionam como armadilhas para capturar pequenos animais. A bexiga é oca e possui uma pressão interna negativa em relação ao ambiente que a envolve. Essa pressão negativa é criada por água sendo constantemente bombeada para fora da bexiga através das paredes por transporte ativo. A abertura da bexiga é coberta por uma pequena tampa que impede que a água a reencha quando a armadilha está armada. Em volta da tampa, há um grupo de protuberâncias em forma de cerdas. Quando um animal está se movendo pela água e move uma dessas cerdas, elas deformam a tampa ligeiramente, quebrando o selo e permitindo que água entre na bexiga. A pressão negativa então suga água rapidamente para dentro, arrastando o animal consigo. Aí é só questão de tempo para o pobre bichinho ser digerido.

Veja a planta em ação.

Um grupo de pesquisadores da Universidade de Rhode Island, EUA, testou se Utricularia macrorhiza, a utriculária-comum-norte-americana, poderia ser um predador eficiente de larvas de mosquitos. Adicionando U. macrorhiza a tanques com as larvas de A. aegypti e A. albopictus, eles conseguiram matar de 95 a 100% das larvas em apenas 5 dias. Esse é um ótimo resultado, não acham?

Utriculária com várias larvas de Aedes (marcadas com asteriscos) em suas armadilhas. Créditos a Couret et al. (2020).*

Como utriculárias são muito mais fáceis de criar em tanques e outros recipientes no quintal do que animais predadores como peixes e libélulas, elas são uma nova alternativa promissora para o controle das populações destes insetos transmissores de doenças.

Então, está animado em criar umas plantas carnívoras aquáticas para ajudar a combater esses mosquitos hediondos?

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Referências:

Couret J, Notarangelo M, Veera SLeClaire-Conway N, Ginsberg HS, LeBrun RL (2020) Biological control of Aedes mosquito larvae with carnivorous aquatic plant, Utricularia macrorhizaParasites Vectors 13, 208. https://doi.org/10.1186/s13071-020-04084-4

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 4.0 Internacional.

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Arquivado em Botânica, Comportamento, Doenças, Entomologia, Parasitas, Vírus

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