Sexta Selvagem: Verme-Fita-Comum-do-Cavalo

por Piter Kehoma Boll

Platelmintos são o quarto maior filo de animais depois de artrópodes, moluscos e cordados e a maioria das espécies conhecidas até o momento pertence ao clado Neodermata, o qual inclui espécies parasitas como as “aduelas” e os vermes-fita, alguns dos quais infectam humanos. Entre os vermes-fita, as espécies que infectam humanos e pertencem ao gênero Taenia, chamadas solitárias, são certamente as mais populares, mas estima-se que todos os vertebrados possam ter pelo menos um verme-fita como parasita, de forma que é só questão de tempo e oportunidade para descobri-los todos.

Entre as espécies conhecidas como parasitas de cavalos, a mais disseminada é Anoplocephala perfoliata, que decidi chamar de verme-fita-comum-do-cavalo. Como vermes-fita em geral, o verme-fita-comum-do-cavalo adulto vive no intestino de seu hospedeiro definitivo, neste caso um cavalo.

Diferente de espécies de Taenia, que podem crescer até vários metros de comprimento, espécies de Anoplocephala são muito menores. O corpo inteiro de espécimes adultos mede cerca de 5 a 8 cm de comprimento e 1 a 2 cm de largura, e é dividido nas mesmas partes vistas em outros vermes-fita. A parte mais anterior do corpo incluir o escólex, que possui quatro grandes ventosas. Apesar de o escólex da maioria dos vermes-fita medir menos de 1 mm, no verme-fita-comum-do-cavalo ele atinge até 3 mm.

Um espécime preservado. Foto extraída de alchetron.com

Após o escólex há um pequeno pescoço de tecido não diferenciado que cresce constantemente para produzir novas proglótides, as quais formam o resto do corpo. As proglótides são conectadas uma à outra como uma corrente e as mais posteriores são continuamente perdidas e soltas no ambiente. Cada proglótide contém órgãos sexuais masculinos e femininos e é liberada quando contém ovos maduros.

Proglótides maduras são liberadas no ambiente através das fezes dos cavalos e liberam os ovos no solo e na vegetação. Os ovos podem sobreviver até 9 meses fora de um hospedeiro. Durante esse tempo, eles esperam ser acidentalmente ingeridos por ácaros oribatídeos que vivem em pastagens. Se isso acontece, os ovos eclodem dentro do ácaro devido à ação mecânica das partes bucais dos ácaros e liberam a larva de primeiro ínstar chamada de oncosfera.

Ovo de Anoplocephala perfoliata. A pequena esfera de 20 µm de diâmetro é a encosfera esperando para ser liberada. Foto de Martin K. Nielsen, extraída de msdvetmanual.com

Quando a oncosfera atinge o intestino do ácaro, é ativada, provavelmente via íons neste ambiente, e usa um grupo de ganchos para penetrar os tecidos do ácaro. Após cerca de 8 a 20 semanas, a oncosfera se desenvolve em um cisticercoide. Este estágio se parece com um verme-fita em miniatura invertido dentro de uma vesícula em forma de bexiga, já contendo um protoscólex dentro.

Enquanto os cavalos estão pastando, eles sempre ingerem alguns invertebrados junto com a grama. Se eles por acaso ingerirem um ácaro infectado, os cisticercoides são liberados durante a digestão, evertem o protoscólex e se prendem às paredes intestinais do cavalo. Lá, o verme-fita se desenvolve num adulto, recomeçando o ciclo.

Presos ao intestino dos cavalos, os vermes-fita não se alimentam do sangue ou de outros tecidos como muitos parasitas fazem. Em vez disso, eles coletam nutrientes diretamente do trato digestivo do cavalo, absorvendo-os pela superfície do corpo.

Por muito tempo se pensou que o verme-fita-comum-do-cavalo fosse um parasita inofensivo, visto que a maioria dos cavalos não apresenta nenhum sintoma e os vermes costumam ser descobertos apenas ao se dissecar o cavalo após sua morte por outras causas. As áreas preferidas para o verme-fita-comum-do-cavalo se prender são o ceco e a junção ileocecal, mas em animais com infecções severas alguns indivíduos podem ser encontrados em locais subótimos através dos intestinos delgado e grosso. Em cavalos tão infectados, os vermes-fita podem causar cólicas e mesmo obstrução intestinal.

Um grande número de vermes-fita adultos em um cavalo com uma infecção severa. Créditos a Tomczuk et al. (2014).*

O verme-fita-comum-do-cavalo pode infectar outros equídeos também, como burros e zebras. Ironicamente, cavalos domesticados são os indivíduos mais infectados justamente porque os donos os tratam com anti-helmínticos. A maioria dos medicamentos anti-helmínticos modernos não afetam vermes-fita e só removem outros parasitas, como nematódeos, o que reduz a competição e permite que os vermes-fita proliferem.

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Mais platelmintos parasitas:

Sexta Selvagem: Verme-listrado-de-verde (em 9 de março de 2018)

Sexta Selvagem: Aduela-do-Salmão (em 11 de janeiro de 2019)

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Referências:

Gasser RB, Williamson RMC, Beveridge I (2005) Anoplocephala perfoliata of horses – significant scope for further research, improved diagnosis and control. Parasitology 131(1): 1–13. https://doi.org/10.1017/S0031182004007127

Tomczuk K, Kostro K, Szczepaniak KO, Grzybek M, Studzińska M, Demkowska-Kutrzepa M, Roczeń-Karczmarz M (2014) Comparison of the sensitivity of coprological methods in detecting Anoplocephala perfoliata invasions. Parasitology Research 113(6): 2401–2406. doi: 10.1007/s00436-014-3919-4

Wikipedia. Anoplocephala perfoliata. Available at < https://en.wikipedia.org/wiki/Anoplocephala_perfoliata >. Access on 11 June 2020.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 4.0 Internacional.

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