Sexta Selvagem: Sofronite-Vermelha

por Piter Kehoma Boll

Orquídeas são flores ornamentais muito populares e vêm numa grande variedade de cores, tamanhos e formas. Encontrá-las em ambientes naturais não é sempre tão fácil, mas também não é difícil se você estiver visitando uma área de Mata Atlântica no Brasil.

Uma espécie de orquídea que é nativa deste bioma ameaçado é Cattleya coccinea, até muito recentemente conhecida como Sophronitis coccinea, razão pela qual ainda é frequentemente chamada de sofronite, ou Sophronitis, pelos orquidófilos. Mesmo entre orquidófilos, esta espécie geralmente não possui um nome comum, mas acho que “sofronite-vermelha” fica bem, apesar de, bem… quase todas as espécies do antigo gênero Sophronitis serem vermelhas.

Um espécime de Cattleya coccinea crescendo perto dos cânions entre Santa Catarina e o Rio Grande do Sul. Foto de João Gava Just.*

Ocorrendo em áreas de elevação média a alta do Espírito Santo para o sul até o Rio Grande do Sul e áreas vizinhas em Misiones, Argentina, a sofronite-vermelha é uma orquídea relativamente pequena que produz flores solitárias de um vermelho-escarlate brilhante. As duas pétalas são muito mais largas que as três sépalas, apesar de o labelo, a terceira pétala, tubular, ser mais estreita.

Apesar de às vezes mencionada como uma espécie ameaçada, a sofronite-vermelha é a espécie do grupo Sophronitis com a maior população natural e maior distribuição geográfica. Uma espécie proximamente relacionada, a sofronite-da-Mantiqueira, Cattleya mantiqueirae, está numa situação muito mais crítica e foi, inicialmente, considerada uma subespécie da sofronite-vermelha. Análises moleculares recentes, no entanto, questionaram a classificação atual de ambas as espécies e elas podem acabar se tornando novamente uma só espécie ou serem divididas em ainda mais espécies.

Close na flor. Foto de Naoki Takebayashi.**

A sofronite-vermelha floresce entre o fim do inverno e o começo da primavera, com o pico de floração entre agosto e outubro. A flor, normalmente só uma por vez, não tem cheiro nem néctar. Mesmo assim, a natureza conspícua da flor sugere que a planta seja polinizada por um animal orientado pela visão. Após algumas observações na natureza, o único polinizador identificado foi o beija-flor Chlorostilbon lucidus. A pequena ave visita as flores procurando por néctar, mas, sem achar nada, vai embora bem depressa, em menos de 5 segundos, mas isso é suficiente para levar o pólen de uma flor para outra. Abelhas, que são polinizadores comuns de outras espécies de Cattleya, não parecem ter qualquer interesse nesta espécie.

Apesar da aparência adorável, a sofronite-vermelha é uma mentirosa. Ela atrai um polinizador ingênuo prometendo alguma recompensa, mas faz a pobre criatura ir embora sem nada. Mas beleza nunca foi sinônimo de bondade apesar dos esforços humanos para achar que sim.

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Referências:

Caballero-Villalobos L, Silva-Arias GA, Buzatto CR, Nervo MH, Singer RB (2017) Generalized food-deceptive pollination in four Cattleya (Orchidaceae: Laeliinae) species from Southern Brazil. Flora 234: 195–206. doi: 10.1016/j.flora.2017.07.014

Rodrigues JF, van den Berg C, Abreu AG, Novello M, Veasey EA, Oliveira GCX, Koehler S (2014) Species delimitation of Cattleya coccinea and C. mantiqueirae (Orchidaceae): insights from phylogenetic and population genetics analyses. Plant Systematics and Evolution 301:1345–1359. doi: 10.1007/s00606-014-1156-z

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 2.0 Genérica.

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