Sexta Selvagem: Vagalume-do-Mar-Japonês

por Piter Kehoma Boll

As águas marinhas japonesas podem emitir uma bela luz azul à noite, especialmente quando perturbadas. Este fenômeno é causado por organismos bioluminescentes. Uma das espécies bioluminescentes mais famosas que produz luz no mar é a centelha-do-mar, um dinoflagelado. Aqui, contudo, a luz é causada por um crustáceo, o ostrácodo Vargula hilgendorfii, conhecido no Japão como 海蛍 (umihotaru, literalmente “vagalume-do-mar”). Assim, o nome vagalume-do-mar é comumente usado para se referir aos ostrácodos bioluminescentes do gênero Vargula, a maioria dos quais vive ao longo da costa pacífica da América o Norte e no Caribe, com Vargula hilgendorfii sendo a única espécie a ocorrer no Japão.

Luz líquida numa praia japonesa. Foto de Tdub Photo extraída de Kobi Lighting Studio.

Como todos os ostrácodos, o vagalume-do-mar-japonês é um crustáceo muito pequeno. Seu corpo mede cerca de 2–3 mm e possui olhos proporcionalmente grandes com cerca de 0,2 mm de diâmetro. Eles vivem no substrato arenoso de águas rasas de até 5 m de profundidade, sendo, portanto, bentônicos e tendo hábitos noturnos.

Uma vagalume-do-mar-japonês macho. A mancha preta é o olho. Extraído de Ogoh & Ohmiya (2005).

As áreas onde o vagalume-do-mar-japonês é encontrado são marcadas por correntes muito fortes. Visto que eles têm uma habilidade natatória muito pobre, não são muitos bons colonizadores de novas áreas, mas ao menos conseguem nadar bem o bastante para evitarem de ser carregados pelas correntes. Não obstante, a forte Corrente do Japão parece ter lentamente movido a espécie em direção ao norte desde a última era glacial.

Fêmeas do vagalume-do-mar-japonês são ligeiramente maiores que os machos. Quando copulam, eles se pareiam tocando seus lados ventrais deitados em direções opostas, meio como um yin yang. Sendo uma espécie ovovivípara, os ovos permanecem dentro da mãe até a eclosão, de forma que a fêmea dá à luz filhotes vivos. Recém-nascidos são muito menores que os adultos, é claro, mas se comportam exatamente como eles, de forma que a espécie não possui um estágio larval planctônico como a maioria dos crustáceos.

Animais individuais brilhando na areia. Foto de Tdub Photo, extraída de Kobi Lighting Studio.

A dieta do vagalume-do-mar-japonês é composta principalmente de detritos de todo tipo, incluindo animais mortos. Uma das formas mais fáceis de capturá-los é simplesmente pondo peixes mortos como armadilhas na água à noite e esperando que venham.

Quando a vagalume-do-mar-japonês é perturbado ou atacado, libera uma nuvem azul luminosa. Isso acontece pela ejeção de dois compostos, o substrato luciferina e sua enzima, luciferase. A luciferase catalisa a reação da luciferina com oxigênio molecular, o que emite a característica luz azul. Há um órgão refletor perto da extremidade posterior do animal que parece aumentar a potência da luz emitida à noite, o que pode melhorar sua habilidade de escapar de predadores.

O espelho natural no corpo do vagalume-do-mar-japonês pode aumentar sua luz. Extraído de Abe et al. (2000).

Enzimas luciferase são de interesse em pesquisa especialmente como genes repórteres. Quando cientistas querem saber se um gene específico está sendo expresso num organismo, eles podem conectar outro gene logo após ele de forma que este gene será necessariamente expresso juto com o gene de interesse. A luciferase do vagalume-do-mar-japonês, geralmente chamada de Vargula luciferase, tem sido estudada como gene repórter em mamíferos. Após criar a cadeia formada pelo gene de interesse + luciferase e inseri-lo numa célula, pode-se saber se o gene está sendo expresso ao aplicar luciferina nas células. Se elas brilharem azuis significa que o gene está de fato sendo expresso. Como se pode ver, mesmo uma minúscula criatura marinha pode ter uma influência profunda na pesquisa científica.

– – –

Curta nossa página no Facebook!

Siga-me (@piterkeo) no Twitter!

Precisa de ajuda para preparar seu artigo científico? Fale com a A1 Assessoria em Produção Acadêmica. Oferecemos serviços de tradução, revisão, formatação e preparação de figuras a preços acessíveis! Nosso email: a1academica@gmail.com

– – –

Mais ostrácodos:

Sexta-Selvagem: Camarão-semente-Vênus-de-dente-afiado (em 22 de junho de 2018)

Sexta Selvagem: Camarão-semente-da-cara (em 19 de julho de 2019)

– – –

Referências e leitura adicional:

Abe K, Ono T, Yamada K, Yamamura N, Ikuta K (2000) Multifunctions of the upper lip and a ventral reflecting organ in a bioluminescent ostracod Vargula hilgendorfii (Müller, 1890). Hydrobiologia 419: 73–82. doi: 10.1023/A:1003998327116

Abe K, Vannier J (1995) Functional morphology and significance of the circulatory system of Ostracoda, exemplified by Vargula hilgendorfii (Myodocopida). Marine Biology 124: 51–58. doi: 10.1007/BF00349146

Kobayashi K, Ohmiya Y, Shinohara D, Nabetani T, Niwa H (2001) Purification and properties of the luciferase from the marine ostracod Vargula hilgendorfii. Proceedings of the 11th International Symposium on Bioluminescence & Chemiluminescence: 87–90.

Maeda Y, Ueda H, Hara T, Kazami J, Kawano G, Suzuki E, Nagamune T (1996) Expression of a Bifunctional Chimeric Protein A-Vargula hilgendorfii Luciferase in Mammalian Cells. BioTechniques 20: 116–121. doi: 10.2144/96201rr01

Ogoh K, Ohmiya Y (2005) Biogeography of Luminous Marine Ostracod Driven Irreversibly by the Japan Current. Molecular Biology and Evolution 22(7): 1543–1545. doi: 10.1093/molbev/msi155

Thompson EM, Nagata S, Tsuji FI (1989) Cloning and expression of cDNA for the luciferase from the marine ostracod Vargula hilgendorfii. PNAS 86(17): 6567–6571. doi: 10.1073/pnas.86.17.6567

Thompson EM, Nagata S, Tsuji FI (1990) Vargula hilgendorfii luciferase: a secreted reporter enzyme for monitoring gene expression in mammalian cells. Gene 96(2): 257–262. doi: 10.1016/0378-1119(90)90261-O

Vannier J, Abe K (1993) Functional Morphology and Behavior of Vargula Hilgendor Fii (Ostracoda: Myodocopida) From Japan, and Discussion of Its Crustacean Ectoparasites: Preliminary Results From Video Recordings. Journal of Crustacean Biology 13(1): 51–76. doi: 10.1163/193724093X00444

1 comentário

Arquivado em crustáceos, Sexta Selvagem, Zoologia

Uma resposta para “Sexta Selvagem: Vagalume-do-Mar-Japonês

  1. Pingback: Sexta Selvagem: Macróstomo-de-Lignano | Natureza Terráquea

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s