Sexta Selvagem: Nematódeo-de-Gafanhoto

por Piter Kehoma Boll

Cerca de um ano e meio atrás, apresentei o longo verme-do-grilo-da-mata com formato de barbante, um parasita que pode controlar o comportamento do grilo-da-mata e deixar seu corpo ao se tornar adulto. O verme-do-grilo-da-mata pertence ao filo Nematomorpha, comumente conhecidos como vermes crista-de-cavalo. Eles são proximamente relacionados ao filo Nematoda, os vermes cilíndricos. E assim como os vermes crista-de-cavalo, nematódeos também amam infectar grilos e gafanhotos.

Uma dessas espécies é Mermis nigrescens, conhecido como o nematódeo-de-gafanhoto. Este verme pode ser encontrado no mundo todo onde existem gafanhotos mas parece ser mais comum na Eurásia e nas Américas.

Uma fêmea adulta grávida. Foto do usuário Beentree do Wikimedia.**

Adultos do nematódeo-de-gafanhoto vivem no solo e são muito grandes para um nematódeo. Os machos medem cerca de 5 cm de comprimento e as fêmeas podem chegar a 20 cm, o que é muito maior que a maioria dos nematódeos que infectam insetos. Eles são, portanto, muito similares a vermes crina-de-cavalo em aparência e comportamento. O corpo possui uma superfície lisa e uma cor marrom-clara, com as fêmeas tendo uma mancha vermelho na cabeça, o cromatóporo, que funciona como um olho.

Após os adultos acasalarem na primavera ou no verão, os machos geralmente morrem, mas as fêmeas permanecem no solo durante o outono e o inverno e emergem na primavera seguinte após uma chuva. Elas apresentam uma listra preta correndo ao longo do corpo que é causada por milhares de ovos em seu interior. Elas sobem na vegetação por perto, até 3 m acima do solo, e põem seus ovos, que medem cerca de 0.5 mm de comprimento, sobre ela.

Uma fêmea escalando a vegetação. Foto do usuário Notafly do Wikimedia.**

Para conseguirem escalar a vegetação, as fêmeas apresentam fototaxia positiva, isto é, são atraídas por fontes luminosas, o que é o oposto do que acontece com a maioria dos nematódeo que possuem olhos. De fato, o olho da fêmea, o cromatóporo, é uma estrutura única, como um olho ímpar, e parece ter evoluído independentemente dos olhos de outros nematódeos. Sua cor vermelha é causada por uma hemoglobina, como a que faz nosso sangue ser vermelho, mas neste caso parece funcionar como um receptor de luz.

Um close no olho da fêmea e uma seção transversal através dele. Extraído de Burr et al. (2000).

Quando os ovos são ingeridos por um inseto ortóptero (geralmente um gafanhoto, mas às vezes uma esperança), eles eclodem quase imediatamente. Os vermes jovens perfuram o intestino do gafanhoto e entram em sua hemocele, a “cavidade do sangue” do corpo.

Um adulto em torno de seu hospedeiro morto, uma esperança. Foto do usuário Beentree do Wikimedia.**

Lá, o verme se desenvolve absorvendo nutrientes do sangue do inseto diretamente pela cutícula. Isso leva a uma redução grave nos níveis de açúcar no sangue do inseto, especialmente de trealose (o açúcar de armazenamento dos insetos) e nas proteínas corporais. Após chegar a 5 cm ou mais de comprimento, os vermes deixam o inseto, matando-o no processo, e continuam seu desenvolvimento no solo até atingirem o estágio adulto e começarem o ciclo mais uma vez.

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Referências:

Burr AHJ, Babinzski CPF, Ward AJ (1990) Components of phototaxis of the nematode Mermis nigrescens. Journal of Comparative Physiology A 167: 245–255. doi: 10.1007/BF00188117

Burr AHJ, Hunt P, Wagar DR, Dewilde S, Blaxter ML, Vanfleteren JR, Moens L (2000) A Hemoglobin with an Optical Function. Journal of Biological Chemistry 275: 4810–4815. doi: 10.1074/jbc.275.7.4810

Burr AHJ, Schiefke R, Bollerup G (1975) Properties of a hemoglobin from the chromatrope of the nematode Mermis nigrescens. Biochimica et Biophysica Acta (BBA) – Protein Structure 405(2): 401–411. doi: 10.1016/0005-2795(75)90105-1

Gordon R, Webster JM (1971) Mermis nigrescens: Physiological relationship with its host, the adult desert locust Schistocerca gregaria. Experimental Parasitology 29(1): 66–79. doi: 10.1016/0014-4894(71)90012-9

Rutherford TA, Webster JM (1974) Transcuticular Uptake of Glucose by the Entomophilic Nematode, Mermis nigrescens. Journal of Parasitology 60(5): 804–808. doi: 10.2307/3278905

Rutherford TA, Webster JM (1978) Some effects of Mermis nigrescens on the hemolymph of Schistocerca gregaria. Canadian Journal of Zoology 56(2): 339–347. doi: 10.1139/z78-046

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**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

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