Sexta Selvagem: Vespa-Cuco-Avermelhada

por Piter Kehoma Boll

Além dos bem conhecidos parasitas internos e externos que se alimentam dos recursos do hospedeiro, a natureza possui também outros tipos de parasitismo. Um dos tipos é o chamado parasitismo de ninhada, no qual um animal põe seus ovos no ninho de outro animal de forma que eles serão criados por pais adotivos, geralmente de uma espécie diferente. Os cucos são certamente os parasitas de ninhada mais famosos, pondo ovos nos ninhos de outras aves.

Mas parasitas de ninhada existem também entre outros grupos animais, incluindo, é claro, a diversa ordem Hymenoptera. Vespas da família Chrysididae são conhecidas como vespas-cucos porque põem seus ovos nos ninhos de outras vespas. Uma espécie desta família é Hedychrum rutilans, que eu decidi chamar de vespa-cuco-avermelhada.

Uma vespa-cuco-avermelhada nos Países Baixos. Foto do usuário v_s_ do iNaturalist.*

Adultos desta espécie medem até 1 cm de comprimento e possuem um corpo com um formato que lembra uma formiga. Sua característica mais marcante, no entanto, é sua cor metálica que é típica de vespas-cucos. Na vespa-cuco-avermelhada, o abdome e a parte anterior do tórax possuem um tom avermelhado, enquanto o resto do corpo é um tanto verde.

Vivendo na Europa e nas regiões mais setentrionais da África, a vespa-cuco-avermelhada é uma adorável bebedora de néctar quando adulta. Todavia, como larva, é um parasitoide. As fêmeas põem seus ovos dentro de outro inseto para que as larvas se alimentem do hospedeiro a partir de dentro. Contudo, como eu mencionei, as vespas-cucos são parasitas de ninhada, de onde o nome vespa-cuco. Assim, elas não caçam outros insetos para servirem de hospedeiros para suas larvas. Em vez disso, invadem os ninhos de outra espécie, o lobo-de-abelha-europeu, apresentado aqui semana passada, e põem seus ovos nas abelhas que o lobo-de-abelha-europeu caçou para sua própria prole.

Vespa-cuco-avermelha na França. Foto do usuário butor do iNaturalist.*

Quando o ovo da vespa-cuco-avermelhada eclode, a larva começa a se alimentar das abelhas paralisadas e podem até mesmo se alimentar da larva do lobo-de-abelha. Mas como uma fêmea da vespa-cuco consegue invadir o ninho do lobo-de-abelha sem ser notada?

A superfície dos insetos é coberta de hidrocarbonetos cuticulares (CHCs), os quais possuem várias funções. Eles protegem o corpo da água e possuem muitas funções para comunicação química, tanto intra- quanto interespecífica. Parasitoides, por exemplo, fazem uso de sinais de CHC para encontrarem seus hospedeiros, e muitas espécies, especialmente insetos sociais como abelhas e formigas, usam CHCs para reconhecer indivíduos de sua própria colônia e detectar invasores, incluindo parasitoides e parasitas de ninhada. Assim, um lobo-de-abelha poderia facilmente localizar uma vespa-cuco se esgueirando para dentro de seu ninho, mas a seleção natural fez as mudanças necessárias. A quantidade de CHCs na superfície de vespas-cucos está bem abaixo dos níveis normais na maioria dos insetos. Como resultado, seu cheiro é tão fraco que elas não conseguem ser percebidas num ninho empestado de CHCs de lobo-de-abelha.

Um espécime na Rússia. Foto e Shamal Murza.*

Uma estratégia que lobos-de-abelha parecem ter desenvolvido para reduzir os níveis de parasitismo pela vespa-cuco-avermelhada é aumentar sua atividade no fim do dia, quando a atividade das vespas-cucos é reduzida. Durante esse tempo. é mais fácil para lobos-de-abelha entrarem em seus ninhos sem serem detectados pelas vespas-cucos. Quando um lobo-de-abelha detecta uma vespa-cuco perto de seu ninho, ele a ataca ferozmente. Contudo uma vez que a vespa-cuco tenha entrado no ninho, o lobo-de-abelha é incapaz de reconhecê-la mesmo se der de cara com ela lá dentro devido à inabilidade de detectar o invasor quimicamente.

Os dois lados, é claro, sempre tentarão encontrar novas maneiras de sucederem. Afinal, a natureza é uma corrida armamentista sem fim.

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Referências:

Kroiss J, Schmitt T, Strohm E (2009) Low level of cuticular hydrocarbons in a parasitoid of a solitary digger wasp and its potential for concealment. Entomological Science 12:9–16. doi: 10.1111/j.1479-8298.2009.00300.x

Kroiss J, Strohm E, Vandenbem C, Vigneron J-P (2009) An epicuticular multilayer reflector generates the iridescent coloration in chrysidid wasps (Hymenoptera, Chrysididae). Naturwissenschaften 983–986. doi: 10.1007/s00114-009-0553-6

Strohm E, Laurien-Kehnen C, Boron S (2001) Escape from parasitism: spatial and temporal strategies of a sphecid wasp against a specialised cuckoo wasp. Oecologia 129:50–57. doi: 10.1007/s004420100702

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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