Sexta Selvagem: Mutuca-de-Hipopótamo

por Piter Kehoma Boll

Se você já viveu no interior ou visita o interior frequentemente, deve estar ciente da existência de um grupo incômodo de moscas que mordem humanos e outros animais, as chamadas mutucas, que compõem a família Tabanidae. A espécie de hoje é membro desta família e é cientificamente conhecida como Tabanus biguttatus e comumente pode ser chamada de mutuca-de-hipopótamo.

Esta espécie é encontrada através da África e algumas áreas do Oriente Médio, sendo, aparentemente, muito mais comum no leste e no sudeste da África. Como ocorre com todas as mutucas, a mutuca-de-hipopótamo possui uma larva semiaquática que vive em áreas lamacentas. Elas são predadores ferozes e predam outros animais vivendo no mesmo habitat, tal como larvas de tipulídeos, e podem se alimentar também de animais mortos. Quando as larvas estão prestes a empupar, elas constroem um cilindro de lama, o cobrem com uma tampa circular com apenas um pequeno buraco que as permita respirar, e permanecem ali até se tornarem adultos. Esta é, aparentemente, uma estratégia para evitar dessecação.

Mutuca-de-hipopótamo macho na África do Sul. Foto de Ryan Tippett.*

Mutucas-de-hipopótamo adultas medem cerca de 2 cm de comprimento, sendo mutucas relativamente grandes, e mostram um dimorfismo sexual considerável. Como ocorre em todos os tabanídeos, os machos são menores e possuem olhos compostos maiores que as fêmeas. Os olhos dos machos são tão grandes que tocam um ao outro, cobrindo todo o topo da cabeça. Fêmeas, por outro lado, possuem olhos menores com um espaço considerável entre eles. O corpo tanto do macho quanto da fêmea é predominantemente preto. Os machos possuem duas manchas triangulares brancas no abdome enquanto as fêmeas possuem o tórax coberto de pelos que variam de branco a dourado com uma pequena mancha preta em forma de coração no meio.

Mutuca-de-hipopótamo fêmea na África do Sul. Créditos à usuária bdwright do iNaturalist.*

Mutucas-de-hipopótamo machos adultas são inofensivas e se alimentam apenas de néctar. Fêmeas, por outro lado, precisam de sangue de mamíferos para conseguirem proteína suficiente para o desenvolvimento dos ovos. Elas atacam muitas espécies de mamíferos de grande porte, incluindo humanos, gado e até cães, mas possuem uma forte preferência por hipopótamos, de onde o nome comum.

Duas mutucas-de-hipopótamo fêmeas se alimentando num facocero-do-sul (Phacochoerus africanus spp. sundevallii). Foto do usuário happyasacupake do iNaturalist.*

Mutucas-de-hipopótamo, como todos os tabanídeos, são moscas diurnas e amam locais ensolarados. Elas evitam áreas sombreadas, então animais em áreas abertas são muito mais vulneráveis. Para conseguir sangue, uma fêmea se aproxima dos animais e lhes corta a pele com suas peças bucais afiadas, fazedo-os sangrarem e lambendo o sangue. A mordida é muito dolorida, como você deve saber se já foi picado por uma mutuca. Se não é perturbada, a mosca pode ficar até três minutos bebendo sangue.

Close das duas moscas nas costas do facocero. Foto do usuário happyasacupake do iNaturalist.*

A atividade de beber sangue das mutucas-de-hipopótamo fêmeas, e de tabanídeos em geral, as torna prováveis vetores mecânicos de alguns parasitas, incluindo espécies do gênero de flagelados Tripanossoma, bem como Bacillus anthracis, a bactéria que causa o antraz, uma doença consideravelmente comum em hipopótamos.

Mutucas-de-hipopótamo são um incômodo tão grande para hipopótamos que o comportamento deles é altamente afetado pela presença das moscas, muito mais que presença de qualquer predador de grande porte. Muitas vezes os hipopótamos permanecem na água unicamente para se livrarem destes insetos irritantes.

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Referências:

Callan EM (1980) Larval feeding habits of Tabanus biguttatus and Amanella emergens in South Africa (Diptera: Tabanidae). Revue de Zoologie Africaine 94(4): 791-794.

Tinley KL (2009) Some observations on certain tabanid flies in North-Eastern Zululand (Diptera: Tabanidae). Proceedings of the Royal Entomological Society of London. Series A, General Entomology, 39(4-6), 73–75. doi: 10.1111/j.1365-3032.1964.tb00789.x

Tremlett JG (2009) Mud cylinders formed by larvae of Tabanus biguttatus Wied. (Diptera: Tabanidae) in Kenya. Proceedings of the Royal Entomological Society of London. Series A, General Entomology, 39(1-3), 23–24. doi: 10.1111/j.1365-3032.1964.tb00779.x

Wiesenhütter E (1975) Research into the relative importance of Tabanidae (Diptera) in mechanical disease transmission. Journal of Natural History, 9(4), 385–392. doi: 10.1080/00222937500770281 

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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