Sexta Selvagem: Aranha-do-Mar-Grácil

por Piter Kehoma Boll

Chegamos à ducentésima Sexta Selvagem! E para concluir mais um grupo de cem espécies, vou apresentar mais uma vez um grupo que nunca apareceu aqui, as chamadas aranhas-do-mar!

A espécie que escolhi é Nymphon gracile, comumente chamada de aranha-do-mar-grácil. Ela ocorre no oceano Atlântico Norte na costa da Europa, especialmente entre a França e a Escandinávia.

Uma aranha-do-mar-grácil na Noruega. Foto de Asbjørn Hansen.**

Como a maioria das aranhas-do-mar, a aranha-do-mar-grácil possui um corpo muito fino ao qual quatro longos pares de pernas são conectados. Bem, longo aqui é uma medida relativa, porque a criatura inteira cabe na ponta de seu dedo. Na região anterior, há uma cabeça que inclui a probóscide, usada para ingerir o alimento, um par de quelíforos, análogos às quelíceras dos aracnídeos, um par de palpos e um par de ovígeros, apêndices longos e finos usados para carregar os ovos e os filhotes. A cabeça possui quatro pequenos olhos localizados muito próximos uns dos outros em uma mancha no meio do dorso bem na frente do primeiro par de patas e acima dos ovígeros. O quarto par de patas parece ficar bem no fim do corpo. O abdome é apenas vestigial.

Veja como é minúscula. Foto do usuário gogol do iNaturalist.*

A aranha-do-mar-grácil vive em águas raras e é frequentemente encontrada na praia se você prestar atenção. Ela se alimenta principalmente de hidroides, isto é, pequenos cnidários sésseis da classe Hydrozoa, e de briozoários, os quais captura com sua probóscide e os apêndices circundantes. Para distribuir nutrientes pelo corpo, a aranha-do-mar-grácil, como outras aranhas-do-mar, possui um intestino altamente ramificado que inclui ramos entrando nas pernas, provavelmente pela falta de um abdome funcional.

Durante o inverno, a aranha-do-mar-grácil se afasta da praia e acasala em águas mais profundas. Tanto os machos quanto as fêmeas possuem as gônadas dentro do primeiro segmento das pernas. Assim, quando os ovos começam a se desenvolver nos ovários da fêmea, suas pernas se tornam muito mais grossas que as do macho. Quando o acasalamento acontece, o macho se move para baixo da fêmea e captura, com seus ovígeros, os ovos que ela libera através de um único poro na base de cada perna. O macho então fertiliza os ovos liberando esperma de poros na base de suas pernas e os carrega com ele até o começo da primavera, quando ele volta para a praia e libera os juvenis sobre colônias de hidroides e briozoários.

Um macho carregando uma massa de ovos com seus ovígeros. As linhas escuras vistas dentro das pernas e dos quelíforos são os ramos do intestino. Foto de Julien Renoult.*

O genoma mitocondrial da aranha-do-mar-grácil foi o primeiro a ser sequenciado para os picnogonídeos. Ele apresenta uma série de relocações gênicas comparado a outros artrópodes, o que pode explicar, ao menos parcialmente, por que este grupo é tão incomum. Poderíamos dizer que a aranha-do-mar-grácil, e as aranhas-do-mar em geral, evoluíram para se tornarem apenas pernas. Elas são basicamente um grupo de pernas sem corpo!

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Referências:

Isaac MJ, Jarvis HJ (1973) Endogenous tidal rhythicity in the littoral pycnogonid Nymphon gracile (Leach). Journal of Experimental Marine Biology and Ecology 13(1): 83–90. doi: 10.1016/0022-0981(73)90049-X

King PE, Jarvis JH (1970) Egg development in a littoral pycnogonid Nymphon gracile. Marine Biology 7: 294–304. doi: 10.1007/BF00750822

Podsialowski L, Braband A (2006) The complete mitochondrial genome of the sea spider Nymphon gracile (Arthropoda: Pycnogonida). BMC Genomics 7: 284. doi: 10.1186/1471-2164-7-284

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial Sem Derivações 2.0 Genérica.

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