Sexta Selvagem: Salvínia-Gigante

por Piter Kehoma Boll

Vamos sair do mar essa semana, mas ainda permanecer na água para lhes trazer uma samambaia peculiar. Comumente conhecida como salvínia-gigante ou musgo-d’água-gigante, seu nome científico é Salvinia molesta e ela vem do sudeste do Brasil.

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Frondes de Salvinia molesta crescendo no Havaí. Foto de Forrest & Kim Starr.*

A salvínia-gigante é uma samambaia aquática que flutua na superfície da água e possui uma anatomia peculiar. Ela não possui raízes e produz folhas em conjuntos de três. Duas delas ficam na superfície da água, lado a lado, e a terceira é submersa, agindo como uma raiz modificada. A lado superior da superfície das folhas (que são anatomicamente seus lados inferiores) possui muitos pequenos pelos que as tornam uma superfície à prova d’água e o lado de baixo possui pelos muito longos que se parecem com raízes.

Preferindo águas lentas ou paradas, a salvínia-gigante cresce muito rápido em condições ideais e se tornou uma espécie invasora em várias partes do mundo. Ela foi exportada do Brasil para ser usada em aquários e lagos em jardins e acabou nos ambientes naturais. Enquanto se espalha, a salvínia-gigante pode cobrir toda a superfície de corpos d’água, bloqueando a luz para outras plantas e algas, o que diminui a fotossíntese e reduz a quantidade de oxigênio na água. Adicionalmente, ela pode entupir condutos de água, bloqueando o fluxo natural e artificial da água.

O problema causado pela salvínia gigante em áreas onde se tornou invasora levou ao desenvolvimento de métodos de controle. Um dos mais simples é simplesmente remover as plantas mecanicamente, mas isso é difícil em áreas com grandes infestações, visto que mesmo pequenas populações remanescentes podem se recuperar depressa. Outra alternativa é o uso de controle biológico usando Cyrtobagus salviniae, um gorgulho minúsculo que se alimenta da salvínia-gigante em seu ambiente natural.

Nem tudo sobre a salvínia-gigante é ruim na verdade. Sua anatomia foliar peculiar levou à descoberta do que foi apropriadamente chamado de “efeito salvínia”, um fenômeno pelo qual uma cama de ar se torna estável sobre uma superfície submersa, como nas folhas de espécies de Salvinia. Pelo desenvolvimento de estruturas artificiais que fazem uso desse fenômeno, é possível produzir equipamentos que se movem suavemente na água, como navios com fricção reduzida.

Um estudo consideravelmente recente também descobriu que alguns compostos extraídos da salvínia-gigante são eficientes no controle de células tumorais humanas.

Nossa relação com essa planta peculiar é portanto de amor e ódio.

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Referências:

Coetzee, J. A.; Hill, M. P.; Byrne, M. J.; Bownes, A. (2011) A Review of the Biological Control Programmes on Eichhornia crassipes (C.Mart.) Solms (Pontederiaceae),Salvinia molesta D.S.Mitch. (Salviniaceae), Pistia stratiotes L. (Araceae), Myriophyllum aquaticum (Vell.) Verdc. (Haloragaceae) and Azolla filiculoides Lam. (Azollaceae) in South Africa. African Entomology 19: 451-468.

Li, S.; Wang, P.; Deng, G.;  Yuan, W.; Su, Z. (2013)  Cytotoxic compounds from invasive giant salvinia (Salvinia molesta) against human tumor cells. Bioorganic & Medicinal Chemistry Letters 23(24): 6682-6687.

Wikipedia. Salvinia molesta. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Salvinia_molesta >. Acesso em 21 de fevereiro de 2018.

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*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

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