A história da Sistemática: Plantas no Systema Naturae, 1758 (parte 6)

por Piter Kehoma Boll

Finalmente uma nova postagem na série sobre a história da sistemática. Esta é a sexta parte da classificação das plantas por Linnaeus. Veja as partes 1, 2, 3, 4 e 5. Aqui, apresentarei mais duas classes que são caracterizadas por terem estames surgindo de uma base comum na flor.

16. Monadelphia (“irmãos únicos”)

“Maridos, ou irmãos, surgindo de uma base”, isto é, os filamentos dos estames são fundidos em um corpo único.

16.1 Monadelphia Pentandria (“irmãos únicos, cinco machos”), cinco estames fundidos numa estrutura única: Waltheria (malvas-brancas), Hermannia (hermânias), Bombax (paineiras), Melochia (melóquias).

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Estas 5 espécies partenciam à ordem Monadelphia Pentandria de Linnaeus (da esquerda para a direita: douradinha (Waltheria indica), hermânia-de-três-folhas (Hermannia trifoliata), erva-de-chocolate (Melochia corchorifolia), paineira-vermelha (Bombax aculeatum, agora Bombax ceiba). Créditos a J. M. Garg (douradinha), C. E. Timothy Paine (hermânia), Jeevan Jose (erva-de-chocolate), Dinesh Walke (paineira).

16.2 Monadelphia Decandria (“irmãos únicos, dez machos”), dez estames fundidos numa estrutura única: Connarus (madeira-zebrada-da-Índia), Geranium (gerânios), Hugonia (uma espécie de identidade duvidosa).

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As espécies acima foram postas por Linnaeus na ordem Monadelphia Decandria: madeira-zebrada-da-Índia (Connarus monocarpus, esquerda) e gerânio-da-Bulgária (Geranium macrorhizum, direita). Créditos a Dinesh Valke (madeira-zebrada) e usuário Hardyplants da Wikipedia (gerânio).

16.3 Monadelphia Polyandria (“irmãos únicos, muitos machos”), muitos estames fundidos numa estrutura única: Stewartia (camélia-de-seda), Napaea (malva-da-clareira), Sida (guanxumas), Adansonia (baobás), Pentapetes (gojicas), Gossypium (algodões), Lavatera (malvas-arbóreas), Malva (malvas), Malope (malvervas), Urena (aguaximas), Alcea (malvas-reais), Hibiscus (hibiscos), Althaea (malvaviscos), Camellia (camélia).

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Linnaeus classificou as espécies acima como Monadelphia Polyandria (da esquerda para a direita, de cima para baixo): baobá-comum (Adansonia digitata), guanxuma-rombifólia (Sida rhombifolia), malva-da-clareira (Napaea dioica), malva-real-comum (Alcea rosea), malva-comum (Malva sylvestris), malva-arbórea-de-jardim (Lavatera thuringiaca), aguaxima-comum (Urena lobata), algodão-do-Levante (Gossypium herbaceum), hibisco-chinês (Hibiscus rosa-sinensis), gojica (Pentapetes phoenicea), camélia-de-seda (Stewartia malacodendron), camélia-comum (Camellia japonica). Créditos a Jeevan Jose (guanxuma), Pablo Alberto Salguero Quiles (malvavisco), Stan Shebs (malva-real), Joanna Voulgaraki (malva), Bob Peterson (aguaxima), H. Zell (algodão), Andrew Fogg (hibisco), Frank Vicentz (camélia), usuários da Wikipedia Atamari (baobá), Botaurus stellaris (malva-arbórea), Melburnian (camélia-de-seda), usuários do flickr peganum (malva-da-clareira) e Lalithamba (gojica).

17. Diadelphia (“dois irmãos”)

“Maridos originando de uma base dupla, bem como de uma mãe dupla”, isto é, os filamentos dos estames são agrupados em dois corpos.

17.1 Diadelphia Pentandria (“dois irmãos, cinco machos”), duas estruturas formadas de cinco estames fundidos: Monnieria (moniéria).

17.2 Diadelphia Hexandria (“dois irmãos, seis machos”), duas estruturas formadas de seis estames fundidos: Fumaria (fumárias).

17.3 Diadelphia Octandria (“dois irmãos, oito machos”), duas estruturas formadas de oito estames fundidos: Polygala (leiteiras), Securidaca (segureiras).

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A planta à esquerda, a fumária-comum (Fumaria officinalis) estava na ordem Diadelphia Hexandria, enquanto a planta à direita, a leiteira-comum (Polygala vulgaris), estava na ordem Diadelphia Octandria. Créditos a Isidre Blanc (fumária) e Radio Tonreg (leiteira).

17.4 Diadelphia Decandria (“dois irmãos, dez machos”), duas estruturas formadas de dez estames fundidos: Amorpha (falsa-anileira), Ebenus (ébanos), Erythrina (corticeiras), Spartium (vassouras), Genista (mais vassouras), Lupinus (tremoceiros), Anthyllis (antiles), Aeschynomene (angiquinhos), Piscidia (barbasco), Borbonia (tojos-do-cabo), Aspalathus (mais tojos-do-cabo), Ononis (rilha-bois), Crotalaria (crotalárias), Colutea (senas-bexigas), Phaseolus (feijões), Dolichos (feijões-longos, feijão-labelabe), Orobus (ervilhaquinhas), Pisum (ervilhas), Lathyrus (chícharos), Vicia (ervilhacas), Astragalus (ervilhacas-leiteiras), Biserrula (mais ervilhacas-leiteiras), Phaca (ainda mais ervilhacas-leiteiras), Psoralea (alguns trevos), Trifolium (trevos), Glycyrrhiza (alcaçuzes), Hedysarum (ervilhacas-doces), Coronilla (mais ervilhacas), Ornithopus (serradelas), Scorpiurus (cornilhões), Hippocrepis (ervilhacas-ferraduras), Medicago (alfafas), Trigonella (feno-grego e parentes), Glycine (sojas), Clitoria (clitórias), Robinia (robínias, caraganas e sesbânias), Indigofera (anileiras), Ulex (tojos), Cicer (grão-de-bico), Ervum (lentilhas, ervilhacas), Cytisus (laburnos e ainda mais vassouras), Galega (galegas), Lotus (trevinas), Arachis (amendoim).

1758Linnaeus_diadelphia_decandria

Estas 36 plantas foram incluídas na ordem Diadelphia Decandria (da esquerda para a direita, de cima para baixo): feijão-coral (Erythrina herbácea), barbasco (Piscidia erythrina, agora Piscidia piscipula), tojo-do-cabo-cordado (Borbonia cordata, agora Aspalathus cordata), vassoura-de-tecelão (Spartium junceum), vassoura-de-tintureiro (Genista tinctoria), falsa-anileira-do-deserto (Amorpha fruticosa), angiquinho-da-Índia (Aeschynomene indica), crotalária-azul (Crotalaria verricusa), rilha-boi-do-campo (Ononis arvensis), vulnerária (Anthyllis vulneraria), tramoceiro-branco (Lupinus albus), sena-bexiga (Colutea arborescens), feijão-comum (Phaseolus vulgaris), feijão-labelabe (Dolichus lablab, agora Lablab purpureus), ervilha-comum (Pisum sativum), ervilhaquinha-peluda (Orobus hirsutus, agora Lathyrus hirsutus), chícharo-comum (Lathyrus nissolia), ervilhaca-comum (Vicia sativa), grão-de-bico (Cicer arietinum), lentilha (Ervum lens, now Lens culinaris), laburno-comum (Cytisus laburnum, agora Laburnum anagyroides), tojo-comum (Ulex europaeus), amendoim (Arachis hypogaea), alcaçuz (Glycyrrhiza glabra), ervilhaca-escorpião (Coronilla glauca), serradela-brava (Ornithopus perpusillus), ervilhaca-ferradura (Hippocrepis comosa), cornilhão-pequeno (Scorpiurus muricatus), ervilhaca-doce-alpina (Hedusarum alpinum), anileira (Indigofera tinctoria), galega-comum (Galega officinalis), clitória-azul (Clitoria ternatea), soja-comum (Glycine max), ervilhaca-leiteira-alpina (Astragalus alpinus), trevo-branco (Trifolium repens), ébano-de-Creta (Ebenus cretica). Créditos a Everglades NPS (feijão-coral), Jon Richfield (tojo-do-cabo), Bernd Haynold (vassoura-de-tintureiro), Dinesh Valke (angiquinho), J. M. Garg (crotalária), Kristian Peters (rilha-boi, ervilhaca, serradela), Massimiliano Marcelli (tramoceiro), Mauricio Laurente (feijão), Bogdan Giuşcă (ervilhaquinha), Carl Davies-CSIRO (grão-de-bico), Christian Kooyman (lentilha), Jean François Gaffard (laburno), H. Zell (amendoim), Carsten Niehaus (ervilhaca-escorpião), Isidre Blanc (ervilhaca-ferradura), Hans Hillewaert (cornilhão, trevo), Nicola Cocchia (galega), Tusli Bhagat (clitória), Jörg Hempel (ervilhaca-leiteira), Rüdiger Kratz (ébano), usuários do flickr jayeshpatil912 (barbasco) e Eskimo Potato (ervilhaca-doce), usuários do Wikimedia ectonichus (vassoura-de-tecelão), AnRo0002 (falsa-anileira, vulnerária, sena-bexiga), Dalgial (lablab), Rasbak (ervilha), Sannse (chícharo), Rosser1954 (tojo), Pharaoh han (alcaçuz), Pancrat (anileira), vegetalist (soja).

18. Polyadelphia (“muitos irmãos”)

Maridos originando de mais de duas mães, isto é, estames juntados em três ou mais corpos.

18.1 Polyadelphia Pentandria (“muitos irmãos, cinco machos”), mais de duas estruturas de cinco estames fundidos: Theobroma (cacau e mutamba).

18.2 Polyadelphia Icosandria (“muitos irmãos, vinte machos”), mais de duas estruturas de vinte estames fundidos: Citrus (plantas de frutas cítricas).

18.3 Polyadelphia Polyandria (“muitos irmãos, muitos machos”), mais de duas estruturas de muitos estames fundidos: Hypericum (ervas-de-são-joão), Ascyrum (cruz-de-Santo-André).

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O cacaueiro (Theobroma cacao, esquerda) era um dos membros da ordem Polyadelphia Pentandria; a cidra (Citrus medica, meio-esquerda) era um membro da ordem Polyadelphia Icosandria; e a erva-de-São-João-das-Baleares (Hypericum balearicum, meio-direita) e a cruz-de-Santo-André (Ascyrum hypericoides, agora Hypericum hypericoides) eram membros da ordem Polyadelphia Polyandria. Créditos a H. Zell (cacaueiro), Christer T Johansson (cidra), usuário Eric in SF do Wikimedia (erva-de-São-João) e Bob Peterson (cruz-de-Santo-André).

Com poucas exceções, a maioria das plantas nestas classes atualmente pertence às famílias Malvaceae e Fabaceae (Leguminosae) de plantas com flores. Acho que ainda precisamos de mais três postagens em plantas e teremos concluído! Espero que a próxima parte não demore tanto.

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Referências:

Linnaeus, C. (1758) Systema Naturae per Regna Tria Naturae…

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*Creative Commons License
Todas as imagens estão licenciadas sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

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