O que é comportamento?

por Piter Kehoma Boll

Um dos conceitos mais difíceis de explicar em biologia certamente é o de vida. Mas eu não estou aqui hoje para falar da definição de vida, mas sim de outro conceito intrigante: comportamento.

O comportamento é o assunto central em etologia e psicologia, mas também é algo mais comumente entendido por intuição pessoal, assim como a vida, mas não existe uma definição formal e amplamente aceita.

A definição mais simples seria que comportamento é algo que é feito. Mas nesse caso caímos em outro conceito difícil, o de fazer, porque o que exatamente é fazer algo?

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Ninguém duvida que uma aranha construindo uma teia é um comportamento. Foto de Hedwig Storch.*

Algumas definições de comportamento que foram publicadas são as seguintes:

  • Tinbergen (1955): “Os movimentos totais feitos pelo animal intacto”. De acordo com essa definição, apenas animais podem se comportar, assim uma alga unicelular nadando em direção àluz, ou uma planta fechando suas folhas depois de tocada não podem ser considerados comportamentos. Por outro lado, o fato de um animal orbitar o Sol por estar na Terra poderia ser um comportamento.
  • Beck et al. (1991): “Atividade externa visível de um animal, na qual um padrão coordenado de atividades sensoriais, motoras e neutrais associadas respondem a mudanças em condições externas ou internas”. Aqui novamente só animais poderiam se comportar e só animais com algum tipo de sistema nervoso. Um comportamento precisa incluir uma resposta a uma condição que mudou, isto é, um estímulo.
  • Starr & Taggart (1992): “Uma resposta a estímulos externos e internos, seguindo integração de componentes sensoriais, neurais, endócrinos e efetores. O comportamento tem uma base genética e portanto está  sujeito a seleção natural, e geralmente pode ser modificado pela experiência.” Esta definição não usa a palavra “animal”, mas inclui a necessidade de componentes neurais, o que é quase a mesma coisa.
  • Wallace et al. (1991): “Atividade observável de um organismo; qualquer coisa que o  organismo faça que envolva ação e/ou resposta a estimulação”. Uma explicação mais simples e ampla que engloba muita coisa que as definições anteriores excluiriam, mas ainda inclui pelo menos o critério de que é uma resposta a um estímulo.
  • Raven & Johnson (1898): “Comportamento pode ser definido como uma maneira de um organismo responder a estimulação.” Uma definição similar à anterior.
  • Davis (1966): “O que um animal faz.” Muito ambígua e contraditória, já que o mesmo livro inclui uma seção de comportamento de plantas.
  • Grier & Burk (1992): “Todas as respostas musculares e secretórias observáveis ou mensuráveis de outra forma (ou a ausência em alguns casos) e fenômenos relacionados como a mudança no fluxo sanguíneo e em pigmentos superficiais em resposta a mudanças no ambiente interno e externo de um animal.” Outra definição confusa, longa, complexa e ambígua.
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Quando uma dioneia fecha sua folha para capturar uma mosca, ela está se comportando? Foto de Stefano Zucchinali.*

Tentando encontrar uma forma de criar uma definição unificada do que é comportamento, um grupo de pesquisadores da Universidade da Califórnia, Berkeley, fez um levantamento, publicado em 2009, no qual apresentam duas listas a vários biólogos. A primeira contém uma série de afirmações relativas a comportamento e os respondentes deveriam concordar ou discordar com as afirmações baseado em sua assunção sobre o que é comportamento. As 3 afirmações eram:

(A) Uma mudança de desenvolvimento geralmente não é um comportamento.
(B) Comportamento é sempre uma resposta ao ambiente externo.
(C) Um comportamento é sempre uma ação, e não uma falta de ação.
(D) Todos os comportamentos são diretamente observáveis, registráveis e mensuráveis.
(E) As pessoas sabem dizer o que é e o que não é comportamento só olhando para ele.
(F) Comportamento sempre é influenciado pelos processos internos do indivíduo.
(G) Comportamento sempre envolve movimento.
(H) Comportamentos são sempre ações de indivíduos, não de grupos.
(I) Comportamento é algo que indivíduos como um todo faz, não órgãos ou partes que constituem um indivíduo.
(J) Um comportamento é sempre uma resposta a um estímulo ou conjunto de estímulos, mas o estímulo pode ser interno ou externo.
(K) Comportamento é algo que somente animais (incluindo pessoas) fazem, mas não outros organismos.
(L) Em humanos, qualquer coisa que não está sob controle consciente não é comportamento.
(M) Comportamento sempre é executado através de atividade muscular.

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Uma raposa-do-ártico trocando de pelagem entre as estações é um comportamento ou não? Foto do usuário do Wikimedia Longdistancer.*

A segunda lista incluía um conjunto de 20 fenômenos e os respondentes deveriam dizer se consideravam cada fenômeno como representando um comportamento ou não. (Em parênteses estão as afirmações acima de acordo com as quais o fenômeno não seria considerado comportamento).

  1. Formigas que são fisiologicamente capazes de pôr ovos não o fazem porque não são rainhas. (C, G).
  2. Uma esponja bombeia água para conseguir comida (B, M).
  3. Uma aranha constrói uma teia.
  4. Um coelho desenvolve uma pelagem mais espessa no inverno (A, G, I, M).
  5. Os estômatos (poros respiratórios) de uma planta se fecham para conservar água (I, K, M).
  6. Uma planta curva suas folhas em direção a uma fonte de luz (K, M).
  7. O coração de uma pessoa bate mais forte depois de um pesadelo (B, I, L).
  8. Uma pessoa sua em resposta ao ar quente (G, I, L, M).
  9. Um besouro é arrastado por uma corrente de ar forte (F, M).
  10. Um rato não gosta de comida salgada (B, C, G, J, M).
  11. Uma pessoa decide não fazer nada amanhã se chover (B, C, G, J, M).
  12. Um cavalo desenvolve artrite com a idade (A, B, E, G, M).
  13. Um rato flutua em gravidade zero no espaço sideral (E, F, G, M).
  14. Um grupo de algas unicelulares nada em direção a água com uma concentração maior de nutrientes (F, H, K, M).
  15. Uma rã orbita o sol junto com o resto da Terra (F, M).
  16. Bandos de gansos voam em formação V (H).
  17. Um cão saliva em antecipação à hora de comer (B, G, I, M).
  18. Manadas de zebras se separam durante a estação de acasalamento e se refazem depois (H).
  19. Um camaleão muda de cor em resposta à luz solar (G, M).
  20. Um gato produz insulina por causa do excesso de açúcar em seu sangue (B, G, I, M).

Somente quatro afirmações (A, F, I, J) tiveram aprovação geral, enquanto sete (B, C, E, G, H, L, M) foram geralmente desaprovadas, e duas (D, K) não tiveram nem forte aprovação nem forte desaprovação.

Considerando os fenômenos, sete (2, 3, 11, 14, 16, 17, 18) atingiram os critérios para serem aprovados como comportamentos baseado nos resultados das afirmações e sete (4, 8, 9, 12, 13, 15, 20) atingiram o critério para rejeição. Os restantes seis fenômenos (1, 5, 6, 7, 10, 19) tiveram divergências maiores em relação a serem ou não comportamentos.

Vários respondentes se contradisseram. Por exemplo, muitos concordaram que somente animais se comportam (afirmação K), mas também consideraram que algas nadando em direção a água com maior concentração de nutrientes é um comportamento (fenômeno 14).

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A maioria das pessoas não consideraria que os frutos de dente-de-leão carregados pelo vento estão se comportando.

Apesar da alta taxa de discordância, o grupo decidiu propor uma definição de comportamento. E ela é:

“Comportamento são as respostas internas coordenadas (ações ou inações) de organismos vivos como um todo (indivíduos ou grupo) a estímulos internos e/ou externos, excluindo respostas mais facilmente entendidas como mudanças de desenvolvimento.” (Levitis et al., 2009)

A questão não está concluída, no entanto, e provavelmente nunca estará. Mais tarde, o Dr. Raymon M. Berger, discutindo o mesmo assunto, nos diz que sob o ponto de vista da Psicologia Descritiva, um comportamento sempre inclui oito parâmetros na seguinte formulação:

< B > = <I, W, K, K-H, P, A, PC, S>, onde:

B = comportamento (p. ex., Maria joga sua dama de copas num jogo de bridge).
I = identidade da pessoa se comportamento (p. ex., Maria)
W = desejo, a coisa que a pessoa está tentando alcançar (p. ex., vencer uma jogada no jogo de bridge).
K = conhecimento, o parâmetro cognitivo, o conhecimento de como as coisas funcionam (p. ex., rainha vs. rei, copas vs. ouro).
K-H = know-how, a habilidade de fazer o que está sendo feito (p.ex., a habilidade de entender as regras de bridge, ou a habilidade de mover objetos físicos).
P = performance, desempenho, os processos corporais envolvidos no comportamento (p. ex., Maria pega e joga sua rainha).
A = alcance, obtenção, o resultado do comportamento (p. ex., Maria vence a jogada).
PC = características pessoais, o parâmetro diferencial do indivíduo (p.ex., o profundo conhecimento de Maria sobre estratégia).
S = significância, o que o comportamento significa (p. ex., Maria está jogando bridge).

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Jogar cartas é certamente um comportamento. Um bem complexo.

Tal “definição” é, na minha opinião, complexa demais para a maioria das circunstâncias de comportamento animal. Contudo eu tampouco estou completamente satisfeito com a definição de Levitis et al. Acho que é difícil dizer a diferença entre uma resposta dada por um organismo como um todo vs. uma de suas partes. Por exemplo, quando eu tusso porque água entrou na minha traqueia, é meu organismo inteiro respondendo ou só parte dele? Isso seria um comportamento?

Além disso, não estou certo se deveríamos realmente considerar mudanças de desenvolvimento como algo diferente de outras respostas. Se eu tivesse que definir comportamento, eu provavelmente diria que é:

“Uma atividade realizada por um organismo que é uma resposta a um estímulo e é dependente dos processos internos do organismo.”

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Por que uma pupila mudando de tamanho de acordo com a luz do ambiente não deveria ser considerado um comportamento?

E você? O que você acha que é comportamento?

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Referências:

Bergner, R. (2011). What is behavior? And so what? New Ideas in Psychology, 29 (2), 147-155 DOI: 10.1016/j.newideapsych.2010.08.001

Bergner, R. (2016). What is behavior? And why is it not reducible to biological states of affairs? Journal of Theoretical and Philosophical Psychology, 36 (1), 41-55 DOI: 10.1037/teo0000026

Levitis, D., Lidicker, W., & Freund, G. (2009). Behavioural biologists do not agree on what constitutes behaviour Animal Behaviour, 78 (1), 103-110 DOI: 10.1016/j.anbehav.2009.03.018

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*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

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