Briga Biológica: O misterioso colecionador de pipas

por Piter Kehoma Boll

Um fóssil descrito recentemente a partir do Lagerstätte do Siluriano de Herefordshire, no Reino Unido, chamou muita atenção.

Uma foto do fóssil em si. Imagem de Briggs et al., extraída de news.nationalgeographic.com

Uma foto do fóssil em si. Imagem de Briggs et al., extraída de news.nationalgeographic.com

A aparência da criatura foi construída escaneando-se a rocha e criando uma reconstrução 3D do fóssil. Isso revelou que o animal, obviamente um artrópode, possui várias criaturas menores presas por longos fios, como pipas. A espécie foi chamada de Aquilonifer spinosus, significando “o carregador de pipas espinhoso”.

Uma reconstrução 3D de comoAquilonifer e suas pipas teriam parecido. Imagem de Briggs et al. extraída de sci-news.com

Uma reconstrução 3D de comoAquilonifer e suas pipas teriam parecido. Imagem de Briggs et al. extraída de sci-news.com

Os autores (Briggs et al., 2016) pensaram em três possibilidades para explicar as incomuns “pipas”. Elas poderiam ser parasitas, forontes (isto é, caroneiros), ou bebês. A ideia de parasitas foi descartada porque fios tão longos separando-os do hospedeiro tornariam difícil alimentar-se propriamente. Eles também consideraram improvável ser um caso de forontes, isto é, uma espécie que usa o hospedeiro como uma forma de se mover de um local para o outro, porque havia muitos deles e o hospedeiro provavelmente os teria removido usando as longas antenas.

Impressão artística de Aquilonifer spinosus por Andrey Atuchin.

Impressão artística de Aquilonifer spinosus por Andrey Atuchin.

A opção remanescente é de que as pipas fossem prole. A mãe (ou pai) os prenderia a si de forma a carregá-los por aí em uma forma única de cuidado parental. Os autores o compararam com vários outros grupos de artrópodes nos quais algumas espécies levam seus bebês consigo durante os primeiros dias. Eles também consideram que o animal poderia ter adiado seu processo de muda para evitar descartar os filhotes com o exoesqueleto.

Mas podemos ter certeza de que é esse o caso? O entomólogo Ross Piper pensa diferente. Ele compara as pipas com ácaros uropodinos, nos quais os jovens (deutoninfas) se prendem a besouros por longos pedúnculos de forma a serem transportados de uma fonte de alimento para outra. Como existem ácaros marinhos, esse poderia ser o caso. Ele também aponta que as pipas estão espalhadas pelo corpo, o que torna improvável que sejam filhotes, já que tal distribuição só atrapalharia a mobilidade do pai ou da mãe.

Briggs et al. responderam à crítica de Piper argumentando que ácaros marinhos só evoluíram recentemente e que o Aquilonifer é muito diferente de um besouro terrestre. Ele provavelmente era uma espécie bentônica, rastejando no fundo do oceano, e não um nadador, de forma que ele não seria um bom agente dispersor.

Qual a sua opinião? Eu acho difícil escolher um lado. A comparação de Piper com ácaros é interessante, mas apenas como uma forma de sugerir uma evolução convergente. Não consigo ver como as pipas seriam realmente ácaros ou mesmo aracnídeos. Agora o argumento sobre a posição das pipas no corpo é um bom ponto. Nenhum outro grupo de animais carrega os filhotes presos a longos pedúnculos espalhados por todo o corpo. Além disso, como o pai ou a mãe colocariam os filhotes lá de forma apropriada? Só consigo ver isso sendo plausível se o hospedeiro fosse o pai e a mãe subisse nele para prender os ovos ali. Ademais, eles não poderiam ser forontes que eram benéficos ao hospedeiro? Os pequeninos poderiam se beneficiar por se moverem por aí no grandão e assim atingir novas fontes de alimento enquanto davam proteção ou outra vantagem em troca. E quanto ao adiamento da muda no esqueleto, não consigo ver qualquer evidência de que houve algum adiamento. Não sabemos quanto tempo as pipas ficaram ali e talvez depois da muda elas poderiam simplesmente deixar suas casinhas e construir novas no novo esqueleto do hospedeiro.

Talvez nunca saibamos a verdade, mas podemos seguir trocando ideias.

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Referências:

Briggs, D., Siveter, D., Siveter, D., Sutton, M., & Legg, D. (2016). Tiny individuals attached to a new Silurian arthropod suggest a unique mode of brood care Proceedings of the National Academy of Sciences, 113 (16), 4410-4415 DOI: 10.1073/pnas.1600489113

Briggs, D., Siveter, D., Siveter, D., Sutton, M., & Legg, D. (2016). Reply to Piper: Aquilonifer’s kites are not mitesProceedings of the National Academy of Sciences, 113 (24) DOI: 10.1073/pnas.1606265113

Piper, R. (2016). Offspring or phoronts? An alternative interpretation of the “kite-runner” fossil Proceedings of the National Academy of Sciences, 113 (24) DOI: 10.1073/pnas.1605909113

Switek, B. 2016. This bizarre creature flew its babies like kites. National Geographic News. Available at < http://news.nationalgeographic.com/2016/04/160404-bizarre-creature-flew-babies-kites-arthropod-fossils-science/ >. Access on July 07, 2016.

 

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Arquivado em Comportamento, Ecologia, Evolução, Paleontologia, Zoologia

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