Furia infernalis, um parasita lendário

por Piter Kehoma Boll

O ano era 1728. O jovem naturalista Carl Linnaeus estava explorando alguns banhados nas vizinhanças de Lund, Suécia, em busca de espécimes botânicos. Subitamente ele foi ferido por algo que foi sentido como um dardo súbito atingindo a pele. Linnaeus deduziu que a causa era um pequeno e fino verme que se enterrou fundo e rapidamente na carne, de forma que foi impossível tentar extraí-lo. O ferimento causou uma inflamação tão severa que sua vida ficou em perigo. Ele se recuperou, é claro, mas ficou tão profundamente impressionado pela experiência que deu um nome ao suposto animal, Furia infernalis, a fúria do inferno, e a introduziu em seu famoso Systema Naturae.

Vários naturalistas continuaram a espalhar a ideia da existência de tal animal e vários trabalhos tratando da criatura foram publicados por cientistas muito respeitados. O animal foi descrito como sendo um verme acinzentado da espessura de um fio de cabelo com extremidades negras que habita locais de banhado e se atira como um dardo sobre as partes expostas do corpo de humanos e outros animais que estejam em seu alcance. Os tormentos causados pelo verme depois de se enterrar rapidamente na carne eram tão excruciantes que levavam a vítima a um estado de loucura e fúria selvagem.

A Furia infernalis supostamente se parecia com algo assim.

A Furia infernalis supostamente se parecia com algo assim.

A ideia da existência de tal criatura logo ficou estabelecida na mente das pessoas. O animal supostamente vivia apenas na Escandinávia oriental e talvez na Rússia e nos países bálticos, mas não acontecia mais ao sul e nem na Noruega. Até mesmo alguns tratamentos médicos para curar a infecção foram publicados.

Um Linnaeus mais velho, mais sábio e com mais experiência, muitos anos depois, alterou sua opinião sobre a criatura. Ele admitiu que possivelmente foi levado a um erro em relação à natureza ou mesmo à existência da criatura e a considerou ser inteiramente fictícia. No entanto já era tarde demais. Novos casos de ataques continuaram a aparecer e o verme parecia ser um perigo especial para renas. Relatos sobre manadas inteiras de renas sendo mortas pela criatura eram tão frequentes que a compra de animais da suécia foi totalmente proibida durante os períodos em que a doença era registrada frequentemente.

Apesar de todo o alarme, ninguém nunca foi capaz de apresentar um espécime da criatura para validar sua existência. Em relação ao problema com as renas, descobriu-se posteriormente que era causado por larvas de cestódeos no cérebro, isto é, elas estavam afetadas por neurocisticercose.

Hoje em dia a Furia infernalis é considera um animal inteiramente fictício que pertence ao mundo da criptozoologia. Mas o que será que ferroou Linnaeus naquele banhado há três séculos?

– – –

Referências:

Linnaeus, C. 1758. Systema Naturae per Regna Tria Naturae…

Brooke, A. C. 1827. On the Furia infernalis. Edinburgh New Philosophical Journal3: 39-43.

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