Quanto mais preto, melhor… especialmente em Chernobyl

por Piter Kehoma Boll

Todos sabemos que as plantas usam clorofila e outros pigmentos para captar energia da luz e armazená-la em moléculas sintetizadas, um fenômeno chamado de fotossíntese. É a clorofila que faz as plantas (bem como algumas bactérias e algas) serem verdes. Esta habilidade de criar o próprio alimento via fotossíntese é o que separa cianobactérias, algas e plantas de outros organismos, como animais, fungos e protozoários, já que os últimos são geralmente vistos como incapazes de captar energia diretamente do meio.

Essa visão está mudando, no entanto, especialmente para fungos.

Como a maioria dos organismos, os fungos também têm pigmentos, e um dos mais importantes é a melanina (sim, o mesmo pigmento que faz nossa pele,  nosso cabelo e nosso olhos serem escuros). Há algum tempo sabe-se que fungos vivendo em áreas com uma incidência alta de radiação solar são mais ricos em melanina que aqueles em áreas menos iluminadas. Isso acontece, por exemplo, com o mofo preto Aspergillus niger, uma espécie que ataca muitos vegetais, mas que também existe no mundo todo no solo.

Aspergillus niger, o mofo preto, é um fungo melanizado encontrado no mundo todo e que parece amar radiação ionizante. Foto do usuário do Wikimedia, Y_tambe.*

Aspergillus niger, o mofo preto, é um fungo melanizado encontrado no mundo todo e que parece amar radiação ionizante. Foto do usuário do Wikimedia, Y_tambe.*

O simples fato de fungos expostos a níveis mais altos de radiação serem mais escuros poderia simplesmente significar que eles estão se protegendo da radiação nociva que os atinge usando a melanina. Afinal é isso que acontece em animais, incluindo humanos, certo?

Mas esse não é o caso. Fungos melanizados parecem florescer em ambientes com altos níveis de radiação ionizante (raios ultravioletas, X e gama), que geralmente são vistos como muito perigosos à vida. As paredes do reator nuclear danificado de Chernobyl são cobertas de fungos melanizados e eles também são encontrados vivendo muito felizes a bordo da Estação Espacial Internacional. Experimentos demonstraram que estas espécies melanizadas de fungos parecem se beneficiar da radiação, aumentando seu crescimento e sua germinação.

Como isso poderia acontecer? Bem, a única explicação razoável parece ser que a melanina está agindo como um pigmento fotossintético, permitindo que fungos usem radiação ionizante como uma fonte de energia! E vários experimentos confirmaram isso!

Aspergillus_niger_on_Allium_cepa

Aspergillus niger crescendo sobre uma cebola. Imagem extraída de gardener.wikia.com.*

Assim, da próxima vez que você vir um grande fungo preto em algum lugar, lembre-se de que sua cor é tão importante para ele quanto o verde é para as plantas. Eles realmente são capazes de usar a melanina como as plantas usam a clorofila e ainda por cima conseguem isso com radiações que seriam letais para outras formas de vida.

Ao final, fungos são mais similares a plantas do que pensávamos quando os considerávamos plantas também.

É uma pena que não possamos usar a melanina de nossa pele para o mesmo propósito.

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Referência:

Dadachova, E.; Casadevall, A. 2008. Ionizing radiation: how fungi cope, adapt, and exploit with the help of melanin. Current Opinion in Microbiology 11:525-531.

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