A História da Ema Anã

por Rafael Nascimento

A família Rheidae hoje é representada por duas ou três espécies (dependendo do autor) de emas, aves de porte grande, corredoras e incapazes de voar, semelhantes aos avestruzes africanos com três dedos nos pés ao invés de dois. A maior delas, a ema comum Rhea americana, possui cinco subespécies distribuídas desde o Nordeste do Brasil até o leste argentino, passando pela Bolívia, Paraguai e Uruguai. As outras formas, outrora sob o gênero Pterocnemia, são R. pennata e R. tarapacensis (popularmente ema ou nandu-de-darwin e ema-de-puna, respectivamente). A ema-de-darwin, que auxiliou o célebre naturalista britânico na elaboração de sua teoria da seleção natural, habita a Patagônia argentina e chilena. A situação sistemática da ema-de-puna (e suas duas possíveis subespécies), que é encontrada na região de encontro dos territórios peruano, boliviano, chileno e argentino, ainda não é clara, e atualmente considera-se uma forma distinta com base em algumas características físicas, mas pendentes de estudos mais esclarecedores.

Além dessas formas atuais e algumas espécies fósseis, como Opisthodactylus horacioperezi e Hinasuri nehensis, do Mioceno e Plioceno argentinos, respectivamente, uma outra espécie foi descrita em 1894 pelo naturalista britânico Richard Lydekker com base em um pequeno ovo: Rhea nana – então representando uma possível quarta espécie de ema vivendo em tempos históricos.

Richard Lydekker, ca 1900.

Richard Lydekker, ca 1900.

Abaixo a tradução do texto original publicado na revista Proceedings of the Zoological Society of London de 1894, com comentários acerca dessa possível nova espécie:

“Sr. R. Lydekker exibiu fotografias e um modelo de um ovo único, o qual o original foi obtido muitos anos atrás no Sul da Patagônia, e agora está preservado no Museu em La Plata. Se não se trata de um espécime anormal, não pode ser atribuído a nenhuma espécie de ave conhecida.

Quando em viagem pelo distrito onde o espécime foi obtido, Dr. P. Moreno, Diretor do Museu em La Plata, muitos anos atrás viu algumas aves ratitas pequenas, o qual de primeira assumiu serem pequenas emas. Pelos nativos, para os quais elas eram bem conhecidas, ele foi, no entanto, assegurado que eram aves adultas, parentes das emas. Desejando confirmar essa informação, Dr. Moreno escreveu a um amigo familiarizado com o distrito; que respondeu que não apenas conhecia bem as aves, mas que também possuía um ovo, sendo esse ovo o espécime original do qual um modelo está sendo exibido agora.

Assumindo que seja um ovo normal, Sr. Lydekker tem a opinião que, tomada em conexão com a evidência de duas testemunhas independentes que viram as aves, isso aponta a existência no Sul da Patagônia de uma pequena ave ratita desconhecida mais ou menos parecida com as emas.“

Ilustração de John Gould de 1841 da ema de Darwin, Rhea pennata.

Ilustração de John Gould de 1841 da ema de Darwin, Rhea pennata.

Até hoje, no entanto, não se encontrou nenhum outro ovo semelhante ou ave adulta que seja diferente das espécies já mencionadas. Quando se lida com espécies potencialmente extintas, conhecidas por relatos escassos ou espécimes aberrantes, deve-se ver os dados através de um olhar cético. É preciso ter certeza de que não se trata de variações dentro da espécie ou confusão das testemunhas. A falta de material comparativo extenso dada a data das descrições também deve ser levada em conta, assim como os avanços constantes no entendimento da ciência.

Ovo normal de R. pennata, no Museu Wiesbaden (Alemanha). Foto de Klaus Rassinger/Gerhard Cammerer.

Ovo normal de R. pennata, no Museu Wiesbaden (Alemanha). Foto de Klaus Rassinger/Gerhard Cammerer.

Esse ovo hoje é tratado como uma forma aberrante de um ovo de Rhea pennata. O modelo citado por Lydekker, feito em cera, encontra-se no Museu de História Natural Tring, na Inglaterra.

del Hoyo, J., Collar, N. & Garcia, E.F.J. (2015) Puna Rhea (Rhea tarapacensis). In: del Hoyo, J., Elliott, A., Sargatal, J., Christie, D.A. & de Juana, E. (eds.). Handbook of the Birds of the World Alive. Lynx Edicions, Barcelona. (retirado de http://www.hbw.com/node/467080 em 24 de dezembro de 2015).

Folch, A., Jutglar, F., Garcia, E.F.J. & Boesman, P. (2015) Greater Rhea (Rhea americana). In: del Hoyo, J., Elliott, A., Sargatal, J., Christie, D.A. & de Juana, E. (eds.). Handbook of the Birds of the World Alive. Lynx Edicions, Barcelona. (retirado de http://www.hbw.com/node/52399 em 24 de dezembro de 2015).

Folch, A., Christie, D.A., Jutglar, F. & Garcia, E.F.J. (2015) Lesser Rhea (Rhea pennata). In: del Hoyo, J., Elliott, A., Sargatal, J., Christie, D.A. & de Juana, E. (eds.). Handbook of the Birds of the World Alive. Lynx Edicions, Barcelona. (retirado de http://www.hbw.com/node/52400 em 24 de dezembro de 2015).

Hume, J. P.; Walters, M. (2012) Extinct Birds. T & AD Poyser. Londres.

Knox, A. G.; Walters M. P. (1994) Extinct and Endangered Birds in the collections of The Natural History Museum. British Ornithologists’ Club Occasional Publications.

Lydekker, R. (1894) Exhibition of, and remarks upon, a photograph and model of an egg from Southern Patagonia in the La Plata Museum. Proceedings of the Zoological Society of London (1894): 654.

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