Sexta Selvagem: “Planária-de-Ladislau”

ResearchBlogging.org por Piter Kehoma Boll

Hoje apresentarei a vocês outra planária terrestre, e uma que eu particularmente gosto. Seu nome binomial é Obama ladislavii (antigamente Geoplana ladislavii) e, como a maioria das planárias terrestres, ela não tem um nome popular, apesar de eu sugerir que seja “Obama-de-Ladislau” ou “Planária-de-Ladislau”. Agora quem é Ladislau?

Bem, primeiro vamos dar uma olhada em como esta espécie foi primeiramente descrita.

A planária-de-Ladislau foi descrita em 1899 pelo zoólogo Ludwig von Graff em sua famosa monografia, “Monografie der Turbellarien”. Graff a descreveu baseado em espécies enviados a ele do sul do Brasil pelo zoólogo Hermann von Ihering, bem como em outros espécies coletados pelo biólogo Fritz Müller.

Na época em que Ihering e Müller estavam coletando espécimes no Brasil, um botânico chamado Ladislau de Souza Mello Netto era o diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Na verdade foi ele quem contratou os dois como naturalistas viajantes, de forma que podemos dizer que ele foi o responsável por eles terem a possibilidade de coletar espécimes no Brasil.

Como resultado, quando estava descrevendo esta nova espécie de planária, Graff decidiu chamá-la de ladislavii em honra a Ladislau Netto. Ao menos é o que eu acho! Eu não encontrei nenhuma referência a isso, visto que Graff não explicou a etimologia do nome da descrição. Contudo a quem mais ladislavii poderia estar se referindo?

Agora que explicamos o nome, é hora de falar do verme propriamente dito.

A planária-de-Ladislau é encontrada no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina e é facilmente reconhecida por sua cor verde. Os maiores espécimes podem medir mais de 10 cm de comprimento e mais de 1cm de largura enquanto estão reptando, de forma que é uma planária consideravelmente grande para os padrões locais.

Obama ladislavii em toda sua verdejância. Foto por Piter K. Boll

Obama ladislavii em toda sua verdejância. Foto de Piter K. Boll*

A maioria das planárias terrestres são encontradas ou em ecossistemas bem preservados, por exemplo, no interior de florestas não perturbadas, ou em ecossistemas bem perturbados, como jardins e parques urbanos. Já a planária-de-Ladislau pode ser encontrada vivendo muito bem tanto em paraísos naturais no meio de uma floresta densa quanto em pequenos jardins ao lado de uma rua movimentada. Como isso é possível?

A história de vida de muitas espécies de planárias terrestres é completamente desconhecida, de maneira que nem mesmo sabemos o que elas comem. Elas são conhecidas como predadores importantes de outros invertebrados, mas isso não basta, já que ser um predador não significa que você coma qualquer coisa que se move, certo?

Até recentemente, sabíamos muito pouco sobre a planária-de-Ladislau, mas eu comecei a estuda-la junto com outras espécies nos últimos anos e assim agora temos ao menos uma ideia do que ela come, e a resposta é: Gastrópodes, isto é, lesmas e caracóis!

Geralmente encontramos gastrópodes em jardins, parques, plantações e qualquer lugar em que humanos plantam algo, então eles são uma refeição disponível para a planária-de-Ladislau. Ela se alimenta de muitas daquelas pragas incômodas que você pode encontrar no seu jardim, incluindo o caracol-de-jarim (Helix aspersa), o caracol-dourado (Bradybaena similaris) e a lesma-das-verduras (Deroceras laeve).

Obama ladislavii and one of its snacks, the snail Bradybaena similaris

Obama ladislavii e um dos seus petiscos, o caracol Bradybaena similaris. Foto de Piter K. Boll*

A planária-de-Ladislau pode seguir o rastro de muco deixado pelo gastrópode de maneira a encontrar e capturá-lo. A forma mais eficiente para a planária subjugar a presa é contornando-a com o corpo e usando força muscular, não muito diferente do que faz uma cobra constritora.

Levando em conta seu gosto por pragas, a planária-de-Ladislau parece ser um bom item a ter em seu jardim, certo? Sim, mas só se você morar no sul do Brasil. Exportá-la para outras áreas pode levar a resultados catastróficos.

– – –

Referências:

Boll, P., & Leal-Zanchet, A. (2014). Predation on invasive land gastropods by a Neotropical land planarian Journal of Natural History, 1-12 DOI: 10.1080/00222933.2014.981312

Graff, L. v. 1899. Monographie der Turbellarien. II. Tricladida Terricola. Engelmann, Leipzig, 574 p.

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