Fazendo cocô para evoluir: como as fezes nos permitiram existir

por Piter Kehoma Boll

Bilhões de anos atrás, quando as primeiras formas de vida surgiram na Terra, nosso planeta era bem diferente do que é hoje. O oxigênio, tão essencial para nossa sobrevivência, não estava presente na atmosfera.

Graças ao surgimento das primeiras bactérias fotossintetizantes, as chamadas cianobactérias ou algas azuis, nossa atmosfera passou a acumular oxigênio. Como você deve saber, a fotossíntese é um professo pelo qual plantas e outros organismos fotossintéticos convertem água e dióxido de carbono em oxigênio e compostos orgânicos.

O oxigênio é um elemento muito reativo, de forma que pode facilmente interagir com outros compostos e é ótimo para queimar matéria orgânica e liberar energia. Sem oxigênio, a vida heterotrófica, tal como os animais, não conseguiria usar grandes quantidades de energia e portanto não teria sido capaz de adquirir um grande tamanho.

Como você também deve saber, os animais muito provavelmente surgiram nos oceanos e só muito mais tarde conquistaram o ambiente terrestre. Contudo o oxigênio produzido pela fotossíntese se acumula principalmente na atmosfera e não nos oceanos. Hoje, somente 1% do oxigênio global se encontra nos oceanos, e era ainda pior nos primeiros milhões de anos de vida multicelular. Você sabe por quê?

Os animais mais primitivos vivos hoje são as esponjas, as quais são bem diferentes de ouros animais. Elas geralmente possuem um corpo oco com vários poros, os quais funcionam como pequenas bocas através das quais água contendo pequenos organismos planctônicos e outra matéria orgânica é puxada para dentro e depois eliminada por uma grande abertura no topo do corpo. Assim a principal coisa que as esponjas fazem é misturar a água e extrair uma pequena porção de matéria orgânica da coluna d’água. Suas fezes, quando voltam à água, não são muito diferentes em tamanho da matéria orgânica que elas ingeriram inicialmente.

Esponjas ingerem partículas orgânicas e eliminam partículas orgânicas. Elas não são muito eficientes em remover matéria orgânica da coluna d'água.

Esponjas ingerem partículas orgânicas e eliminam partículas orgânicas. Elas não são muito eficientes em remover matéria orgânica da coluna d’água.

Assim, em um mundo só de esponjas, a coluna d’água possivelmente estava sempre lotada de matéria orgânica dissolvida. Isso era um banquete para bactérias, questão sempre ávidas para decompor matéria orgânica e, ao fazer isso, consomem grandes quantidades de oxigênio. Portanto água com grandes quantidades de matéria orgânica aumenta a atividade bacteriana e deixa o ambiente anóxico, isto é, sem oxigênio. Como consequência, não havia oxigênio disponível para que os animais se tornassem grandes.

Apesar de não crescerem muito, os animais ainda estavam evoluindo, é claro, e eventualmente surgiram os animais bilaterais. Animais bilaterais possuem simetria bilaterial e, a característica mais importante para esta história, um intestino. Isso significa que eles ingerem comida, a digerem, processam e depois eliminam os restos como… cocô! No intestino, as fezes se tornam compactas e afundam muito mais rapidamente para o fundo do oceano, limpando a coluna d’água de matéria orgânica e drasticamente reduzindo a atividade bacteriana. Sem bactérias decompondo na coluna d’água, os níveis de oxigênio rapidamente começaram a aumentar, permitindo que os animais crescessem e coisas como peixes evoluíssem.

Animais bilaterais produzem fezes compactas que afundam, limpando a coluna d'água.

Animais bilaterais produzem fezes compactas que afundam, limpando a coluna d’água.

Se os animais nunca tivessem começado a fazer cocô, nós provavelmente nunca teríamos chegado a este mundo. Vida longa ao cocô!

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Referências:

Holland, H. D. 2006. The oxygenation of the atmosphere and oceans. Philosophical transactions of the Royal Society B, 370: 903-915.

Turner, J. T. 2002. Zooplankton fecal pellets, marine snow and sinking phytoplankton blooms. Aquatic Microbial Ecology, 27: 57-102.

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