A abelha poliglota

por Piter Kehoma Boll

ResearchBlogging.orgComunicação é essencial para humanos, e também é para outros animais que vivem em grupos. Um fato interessante é que, mesmo que humanos modernos somente tenham surgido cerca de 200 mil anos atrás, o número de línguas que evoluíram em nossa espécie desde então é  enorme. E duas pessoas falando línguas diferentes geralmente não conseguem se entender. Mesmo gestos manuais, como o sinal significando “vem cá”, é bem diferente entre culturas. A maior parte de nossa comunicação não é herdada, mas aprendida.

Três maneiras diferentes de dizer "vem cá" com gestos. As duas primeiras são ocidentais e a última é oriental. Fotos tiradas de forum.onverse.com (esquerda), scmorgan.com (centro) and japanpowered.com (direita).

Três maneiras diferentes de dizer “vem cá” com gestos. As duas primeiras são ocidentais e a última é oriental. Fotos tiradas de forum.onverse.com (esquerda), scmorgan.com (centro) and japanpowered.com (direita).

Mas e quanto à comunicação em outros animais? É possível que línguas diferentes evoluam em populações separadas de forma que um grupo não possa entender o que o outro está dizendo?

Uma forma de comunicação bem conhecida e bem estudada em animais é a dança das abelhas, usada por abelhas para indicar a localização de uma fonte de alimento a outras. Esta dança informa a direção e a distância de uma fonte de comida a partir da colmeia de maneira a guiar outras abelhas para o local certo.

Esquema da dança das abelhas. Imagem pelo usuário Audriusa*, do Wikimedia Commons.

Esquema da dança das abelhas. Imagem pelo usuário Audriusa*, do Wikimedia Commons.

Basicamente, o que a abelha faz é se mover em um trajeto formando uma figura em forma de 8. O ângulo da dança em relação à orientação da colmeia indica o ângulo da fonte de alimento em relação ao sol. A parte média da dança, que representa a parte onde os dois laços do 8 se sobrepõem, é feita com uma sacudida frenética. A duração dessa parte sacudida da dança informa a distância  da fonte de alimento da colmeia.

Há muitas subespécies de abelhas e a dança pode ter se tornado diferente em cada uma delas por evolução, criando diferentes línguas ou dialetos de dança. É difícil, no entanto, comparar esses dialetos porque eles podem ser ajustados a diferentes condições do ambiente, de forma que duas colmeias precisam estar nas exatas mesmas condições para serem comparadas. A melhor maneira de comparar diferenças seria criando duas espécies diferentes de abelhas na mesma colmeia. Mas isso é difícil porque abelhas tendem a atacar estranhos por eles serem facilmente identificáveis pelo cheiro.

Ainda assim, após algumas tentativas, um grupo de cientistas da universidade de Zhejiang na China foi capaz de criar algumas colmeias mistas de abelhas-europeias (Apis mellifera ligustica) e abelhas-asiáticas (Apis cerana cerana).. Eles observaram o comportamento de indivíduos de ambas as espécies na colmeia de maneira a encontrar diferenças em suas danças e como elas se comunicavam entre si.

Apis cerana cerana (esquerda) e Apis mellifera ligustica (direita). Fotos pelo usuário Viriditas*, do Wikimedia Commons (esquerda), e por Charles Lamm** (direita). Extraídas de commons.wikimedia.org

Apis cerana cerana (esquerda) e Apis mellifera ligustica (direita). Fotos pelo usuário Viriditas*, do Wikimedia Commons (esquerda), e por Charles Lamm** (direita). Extraídas de commons.wikimedia.org

Os resultados foram muito interessantes. As danças eram consideravelmente diferentes para cada espécie, mas as abelhas retiveram parte de sua dança original nas colmeias mistas e alteraram outra parte. Não houve diferença em comunicar a direção do alimento entre espécies criadas na colmeia mista, mas abelhas-asiáticas mostraram uma sacudida de dureção mais longa que abelhas-europeias para informar a mesma distância. Apesar disso, ambas as espécies foram capazes de entender a dança de indivíduos da outra espécie e chegar à fonte de alimento sem problemas. Mesmo quando outra fonte de comida na mesma direção estava mais próxima da colmeia, as abelhas escolhiam a fonte mais distante informada na dança.

Parece então que abelhas são excelentes em entender línguas estrangeiras, mas não tão boas em “falá-las”. Elas ficam com um forte sotaque, mas são capazes de se entender de qualquer forma.

Além disso, apesar de se estimar que abelhas-europeias e abelhas-asiáticas tenham se divergido há mais de seis milhões de anos, elas ainda conseguem se entender. Isso indica que a dança é um comportamento bastante conservado.

A dança parece ter uma possível parte genética, como a duração das sacudidas, visto que ela não foi afetada pelo ambiente misto. Mas ele também possui uma parte aprendida, como a informação sobre a direção da comida.

Tais resultados levantam boas questões e indicam um caminho a seguir para estudar e entender melhor o aprendizado social, isto é, aprendizado por informações adquiridas e outros indivíduos e não por experiência pessoal.

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Referências:

Su, S.; Cai, F.; Si, A.; Zhang, S.; Tautz, J. & Chen, S. 2008. East Learns from West: Asiatic Honeybees Can Understand Dance Language of European Honeybees PLoS ONE, 3 (6) DOI: 10.1371/journal.pone.0002365

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