A síndrome do dinossauro de cauda rígida

por Carlos Augusto Chamarelli

Olá pessoal, PK aqui, o que significa que é hora de uma boa e velha crítica paleoartística e contestação de ideias atuais! Então sigam o tópico de hoje: caudas de dinossauros.

Por muito tempo, desde sua descrição formal na metade do século XIX, acreditava-se que os dinossauros arrastavam suas caudas da mesma forma que os répteis, já que répteis são tidos como letárgicos e portanto seria o mesmo com dinossauros, por que eram répteis. Pelo menos assim era o pensamento da época até por volta dos anos 70 quando a “renascença dos dinossauros” entrou em cena, introduzindo novas idéias baseadas nos estudos dos fósseis, e que substituiu a imagem dos répteis gigantes vagarosos e moradores de pântanos para a de animais ativos e de sangue quente.

Jamais se esqueçam do Brontosaurus.

Jamais se esqueçam do Brontosaurus. Pintura de um desatualizado Apatosaurus por Zdenek Burian.

E considerando nosso tópico, a mais importante dessas mudanças é de que eles agora possuíam caudas erguidas acima do chão. Mas as coisas a partir desse ponto foram colina abaixo: os dinossauros começaram a ser ilustrados com caudas cada vez mais elevadas até o ponto em que, aproximadamente nos últimos 10 anos, dinossauros sempre são mostrados com caudas completamente paralelas ao chão e por vezes quase apontando para cima! Pessoalmente, eu estou convencido de que essa ideia é algo que os ilustradores – tanto amadores quanto profissionais – simplesmente entenderam de forma equivocada. Em outras palavras: embora dinossauros pudessem manter suas caudas paralelas ao chão, eles provavelmente não o fariam o tempo inteiro.

Um fator importante sobre dinossauros que eu tenho a ligeira sensação de que alguns artistas deixam passar, ou simplesmente ignoram em favor de um efeito mais dramático, é de que dinossauros eram animais da mesma forma que os que vivem hoje em dia, e como tal, eles certamente ficariam cansados de tempos em tempos. Entenda: não existe sequer um animal no mundo que mantenha qualquer um de seus membros em uma certa posição por muito tempo, e é ilógico pensar que dinossauros seriam uma exceção. Manter suas caudas elevadas em uma postura horizontal por tanto tempo como sugerido por tais reconstruções seria decididamente exaustivo. Portanto parece ser razoável concluir que os dinossauros, pelo menos em alguns momentos, tinham suas caudas caídas e relaxadas.
Rafael e eu discutimos essa possibilidade, e ele me lembrou de um importante detalhe: alguns dinossauros foram encontrados com tendões fossilizados em suas caudas. Naturalmente tive que investigar e analisar se a minha ideia teria algum fundo de verdade. Uma dessas evidências é encontrada no primeiro fóssil documentado de Corythosaurus, seu holótipo, descoberto por Barnum Brown em 1912, o que pra mim é perfeita já que ornitópodes são os piores ofensores da síndrome da cauda rígida dentre os dinossauros.

Convenientemente numa posição semelhante ao nado, que motivou a idéia por anos.

Convenientemente numa posição semelhante ao nado, que motivou a ideia por anos. Holótipo do Corythosaurus por Barnum Brown, 1916.

O holótipo do Corythosaurus é um espécime incrível, não só seu esqueleto foi encontrado praticamente completo, há também impressões de pele que evidenciam a pele escamosa característica da maioria dos dinossauros. Mas dê uma olhada mais de perto na causa; mais especificamente, na base, logo acima do quadril. Essas marcas em linhas retas distintas que você vê foram feitas pelos tendões que, supostamente, auxiliavam o animal a manter sua cauda na mesma posição horizontal vista no esqueleto. Onde isso deixa a ideia de que eles ficavam com a cauda caída? Vá em frente, eu te dou alguns segundos…

Já deu pra notar? Eu posso fazer ficar mais claro com outra imagem:

Pontesuspensassauro.

Pontesuspensassauro. Desenho do holótipo do Corythosaurus por Barnum Brown, 1916.

Como observado, esses tendões estão presentes principalmente na base da cauda. Não apenas isso, mas, a meu ver, considere que as vértebras caudais possuem um formato ligeiramente irregular quando alinhada horizontalmente, mas nem tanto se houvesse uma curva para baixo. Essa mesma característica é observada em outros dinossauros, como saurópodes. O que esse fóssil aparenta sugerir é de que os tendões apenas auxiliariam o Corythosaurus a manter a primeira metade de sua cauda elevada. Para qual vantagem seria? Para responder essa questão devemos entender melhor como os outros tipos de dinossauros utilizam suas respectivas caudas e o quanto é possível inferir dessas comparações.

Caudas são primariamente usadas para o equilíbrio, e em alguns animais podem servir como armas, enquanto outros as utilizam para chamar a atenção de potenciais parceiros ou sinalizar membros de um bando, e outros até a usam para se locomover melhor em árvores ou na água. Nos casos em que o animal não parece ter nenhum uso em especial para elas, o que normalmente acontece é que a cauda tem tão pouco impacto no estilo de vida do animal que ela se degenera com o passar das gerações e resultam em tocos ou desaparecimento quase completo, como aconteceu com o ser humano. Dinossauros, no geral, tinham caudas grandes, sendo uma de suas características mais notáveis que os diferem de qualquer outro animal de grande porte atual – com exceção é claro das aves e dinossauros semelhantes que não eram exatamente aves, como o pequeno Epidexipteryx; neste caso houve uma troca, desfavorecendo uma cauda óssea e a substituindo por uma cauda penada mais leve.

Eu lembro da vez que vi um criacionista afirmando que as penas em fósseis de dinossauros assim eram falsificações feitas por artistas. Foi triste e hilário.

Eu lembro da vez que vi um criacionista afirmando que as penas em fósseis de dinossauros assim eram falsificações feitas por artistas. Foi triste e hilário. Holótipo do Epidexipteryx. Foto de National Geographic.

Em dinossauros de armadura – anquilossauros, nodossauros e estegossauros -, com seu perfil atarracado e pernas fortes, ter uma cauda para se equilibrar não é necessário, mas ainda sim eles possuíam caudas bem desenvolvidas por um único motivo: eram armas mortais. Estegossauros possuíam espigões, nodossauros possuíam fileiras de placas afiadas e anquilossauros possuíam uma massa óssea na ponta que formava uma formidável arma contra predadores.

Eles não eram muito bons em martelar pregous pois destruiam a parede toda.

Eles não eram muito bons em martelar pregos pois destruíam a parede toda. Detalhe da cauda de um Euoplocephalus. Foto por Ghedoghedo. Extraído de wikipedia.org

Saurópodes, pelo menos os que não possuíam pescoços de comprimentos extremos, não necessitavam de caudas tão longas para balanceá-los; seu torso era o suficiente. Estes então estariam livres para usá-las como armas já que não poderiam afastar predadores apenas com seu tamanho, e de fato, alguns saurópodes como o Diplodocus tinham caudas extremamente compridas que terminavam em ossos finos que podiam ser usados como um chicote, e o Shunosaurus da China possuía uma clava não tão diferente da dos anquilossauros. Ambos exemplos, embora muito maiores do que qualquer animal terrestre atual, eram anões para os padrões dos saurópodes.

Ou no caso o Spinophorosaurus, q é quase igual ao Shunosaurus.

Ou no caso o Spinophorosaurus, q é quase igual ao Shunosaurus. Remes K, Ortega F, Fierro I, Joger U, Kosma R, et al. (2009)

Na mesma lógica, os braquiossauros possuíam pernas dianteiras muito maiores que as traseiras, suportando um longo pescoço que permanecia quase completamente vertical, mas possuíam caudas muito curtas em comparação aos outros saurópodes. Tão curtas de fato que não me surpreenderia se formas com caudas ainda menores aparecessem se estes tivessem continuado a existir por mais tempo.

Lagarto braço, realmente.

Lagarto braço, realmente. Brachiosaurus brancai (agora Giraffatitan brancai) por Paul Olsen, 1988

Os exemplos mais estranhos pertencem aos ceratopsianos. Os ceratopsianos maiores que dominavam a América do Norte no final do Cretáceo são conhecidos por grandes escudos ósseos, longos chifres e corpos robustos… Além de uma cauda patética. Da mesma forma que os dinossauros de armadura, os ceratopsianos possuíam uma constituição mais robusta, mas diferentes deles suas caudas são tão curtas e finas que é difícil imaginar que elas fossem usadas para defesa ou contrabalancear seus crânios – o que é estranho já que estes parecem ter sido bem pesados apesar das fenestras em seus escudos, que diminuíam o peso desses adornos. Neste caso é possível que de fato a cauda tivesse um uso tão superficial que estaria em processo de atrofia.

Ainda mais estranhos são os paquicefalossauros. Estes dinossauros com parentesco com os ceratopsianos são conhecidos por seus crânios espessos que utilizavam em batalhas de cabeçadas (isso mesmo. Eu abordarei esse tópico em outro artigo), mas outra característica peculiar desse grupo são suas caudas, cobertas por uma rede de tendões entrelaçados na ponta, o oposto do que acontece nos dinossauros ornitísquios, mas semelhante ao que é visto em alguns tipos de terópodes, como os dromeossauros. Neste caso, a cauda incrivelmente rígida que essa estruturação formava evidencia que os paquicefalossauros favoreciam a agilidade.

Com estes pontos em consideração, parece razoável concluir que os ornitópodes tal como o Corythosaurus utilizavam caudas para se equilibrar, mas apenas quando estes se locomoviam em postura bípede. Suas pernas dianteiras eram finas demais para suportar o estresse que uma locomoção em alta velocidade em postura quadrúpede causaria. Visto que estes dinossauros carecem de defesas e tamanho avantajado, sua única chance contra predadores era de fato fugir, e diferente de outros os ornitópodes eram capazes de se locomover tanto numa postura bípede quanto numa postura quadrúpede.

Um Corythosaurus pastando as samambaias rasteiras e as folhas das árvores permaneceria com sua cauda caída, sem a necessidade de se equilibrar enquanto permanecia nas quatro patas; ao menor sinal de perigo eles adotariam uma postura bípede e utilizariam sua cauda para manter o equilíbrio durante a fuga, essencialmente funcionando mais como um terópode do que como um ceratopsiano, por assim dizer. Já afastado do perigo, os tendões relaxariam e sua cauda voltaria à posição caída, o animal provavelmente exausto.

corytho

Corythosaurus em posição relaxada (cima) e em fuga (baixo). Agradecimentos a Rafael por ter coragem em ilustrar minha idéia.

Adicionalmente, dinossauros herbívoros são conhecidos por adaptações que amplificavam sua capacidade de digerir matéria vegetal: o formato de sua bacia permitia intestinos mais extensos a fim de aproveitar o máximo do que consumiam, e ornitópodes representavam as formais mais avançadas desse modelo. De fato, seu trato intestinal parecia se estender um pouco mais na cauda do que a maioria dos dinossauros, embora provavelmente não fosse uma adição tão drástica, com certeza era bem vinda. É possível que os tendões acima da bacia também erguessem a estrutura da cauda o suficiente para dar espaço para essa expansão, mas isso é um pouco mais difícil de averiguar já que tecidos moles são um pouco mais difíceis de comparar apenas com fósseis.

Em conclusão, dinossauros possuíam caudas em vários formatos para vários usos, e só por que eles possuem tendões na cauda e sangue quente não significa que eles possuam uma barra de ferro como cauda. Embora o Corythosaurus tenha sido usado como o ponto inicial para essa idéia, é possível que outros dinossauros caíssem nessa categoria. Portanto se você ver uma ilustração de dinossauro de qualquer tipo passeando e dito dinossauro o fizer com sua cauda completamente paralela ao chão, você tem a minha permissão para gritar “ERRADO!”, pois o dinossauro provavelmente está cansado de ficar de cauda erguida.

Espero que tenham gostado desse artigo; quaisquer dúvidas ou comentários eu farei o possível para responder. Até a próxima!

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Referências e material adicional:

Leonardo, the mummified dinosaur. Disponível online em: : <www.youtube.com/watch?v=ihifMrV3-pY>. Acessado em 1º de dezembro de 2011.

Paul, G. S. et al. 2010: The Princeton Field Guide to Dinosaurs. Princeton University Press.

Wikipedia. Corythosaurus. Disponível online em: : <en.wikipedia.org/wiki/Corythosaurus>. Acessado em 1º de dezembro de 2011.

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